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Em Questão

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Décio Bragança 04/10/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Quando eu estiver irritado, eu vou tentar ser orquídea. O professor Michael Sandel, da Universidade de Harvard, num curso de “Ética e Justiã”, transmitido pelo site www.veduca.com.br, nos conta várias histórias e cria situações que nos obrigam a tomar algumas decisões. Toda decisão, em qualquer área, envolve ética: o que é bom? O que poderia ser melhor? Qual é a melhor decisão? Ou qual é a decisão menos ruim, menos cruel? O ser humano – relacional – existe para si e para os outros.

 

Quando eu tiver problemas com a família, eu vou tentar ser rosa. Primeiro caso: um maquinista de um bonde a 100KM/hora, ao longe, vê cinco trabalhadores consertando os trilhos da ferrovia. Vai ao desespero, porque sabia que não teriam tempo de sair de cima dos trilhos. Aciona os freios e não funcionam dada a velocidade do bonde. Vê um desvio à esquerda. No desvio, um trabalhador. Aí o dilema: “sigo em linha reta ou entro no desvio? Mato cinco ou mato apenas um?” Se essa pergunta fosse feita a todos nós, possivelmente 100% das pessoas optariam pelo desvio. “Mato um, mas salvo cinco!”

 

Se no meu trabalho houver discórdia, eu quero aprender a ser jasmim. Imagine-se passageiro desse mesmo bonde e está observando o que poderia acontecer. Dependendo da decisão do maquinista, estaria disposto a testemunhar a seu favor? Denunciaria a empresa que administra a ferrovia por falta de comunicação entre os seus funcionários? Seria negligência da empresa? Ficaria neutro, ou faria de conta de que nada viu, para não lhe criar problemas e não se envolver em problemas que não são seus? Ficaria calado?

 

Se alguém me magoar e meu melindre quiser aflorar, eu vou brotar girassol. Segundo caso: um bonde vem se aproximando de uma ponte. Na ponte, dois andarilhos andando calmamente e o maquinista imagina que eles se afastariam um pouco na passagem do bonde. Mas vê um pouco mais à frente cinco trabalhadores consertando os trilhos. O que é possível ser feito? Que poder tem o maquinista para impedir o desastre? E se um andarilho empurrasse o outro no rio, afastando-se dos trilhos, salvando a si e a seu “colega”, tendo a certeza de que fatalmente o bonde mataria os cinco trabalhadores logo ali?  E se um dos andarilhos se salvasse, saindo dos trilhos, deixando o outro para servir de freio para o bonde, mas salvaria os outros cinco?  “Mato um, mas salvo cinco!” essa decisão é muito complexa, porque envolve uma situação de alguém que interfere nos fatos: deixar um andarilho – seu colega – morrer.

 

Quando uma pessoa me trair, é por não conhecer Papai do Céu, eu deixarei meu coração ser bouganville. No primeiro caso, realmente a decisão deveria ser matar um para salvar cinco. No segundo caso, a decisão de deixar “o colega” morrer, de servir de freio, de sacrificar alguém que talvez não esteja disposto ao sacrifício, seja a mais sensata. “Mato um e salvo cinco!” Por que um andarilho preferiu que o outro morresse para salvar cinco? Por que ele mesmo não se ofereceu ao sacrifício, salvando seu colega e a mais cinco? “Eu me sacrifico, para salvar os outros!”

 

Quando eu não tiver prudência, e a doença aproveitar o meu descuido, que eu deixe surgir a flor de maracujá. O interessante é que no primeiro caso são três grupos de pessoas: o maquinista, o passageiro, um trabalhador no desvio e cinco trabalhadores na linha reta; no segundo, são também três grupos de pessoas: o maquinista, dois andarilhos sobre a ponte, cinco trabalhadores nos trilhos. O mais interessante ainda é que ninguém, nenhuma das pessoas, tem o controle e domínio total da situação. Vale dizer que, porque escolhemos viver em sociedade, em qualquer decisão alguém será sempre sacrificado.

 

Se o vício me persegue e eu não consigo enxergar meu erro, que eu me transforme em lírios e azáleas. Se eu fosse o maquinista? Se eu fosse um dos cinco trabalhadores? Se eu fosse o andarilho que empurrou o outro sobre os trilhos? Se eu fosse o andarilho que foi empurrado? Isso para dizer que a ética sempre envolve o outro – alteridade. “Não faça aos outros o que não quer que façam com você” – “Sou para mim e sou para os outros” – É preferível um covarde vivo a um herói morto”. Como entendemos que o outro está fora de nós, a sensação ou o sentimento de cada um passa pela autodefesa. “Eu me defendo e o outro que arranje um jeito de se defender”.

 

Se eu sei que as coisas da terra são instrumentos de aprendizagem e nada me pertence... Em questões éticas, não é bem assim. Qualquer decisão envolve o outro que também, ao se defender, sacrifica mais um. Como tudo em sociedade depende de muitas decisões, sempre estaremos vivendo situações embaraçosas.

 

Se tudo é passageiro por aqui, que eu acorde mais rápido e seja orquídea, rosa, onze horas, violetas... Esse mesmo professor de Harvard cria a seguinte situação: seis pacientes na UTI, vítimas de um acidente. Cinco com ferimentos leves e um ferido com maior gravidade – o que demandaria mais atenção e tempo do médico – o que poderia levar à morte os outros cinco. Cuidar dos cinco demandaria um tempo maior ainda, porque são cinco, e o gravemente ferido morreria. “Deixo um morrer e salvo cinco? Afinal, cinco é maior do que um”. E se eu fosse um dos cinco? E se eu fosse o que está gravemente ferido? E se eu fosse o médico?

 

Afinal o Pai que nos criou, deixou a gente escolher ser flores ou ser espinho. O professor Michael Sandel nos apresenta outro caso: um cirurgião tem cinco pacientes que necessitam urgentemente de transplantes para sobreviver: um precisa de coração; outro, de um pulmão; outro, de um rim; outro, de fígado; ainda outro, de pâncreas. Não há doadores e o cirurgião estaria ali, sem nada poder fazer, vendo os cinco se agonizarem até a morte. De repente, ele se lembra de que há um paciente no quarto ao lado com um tiro na cabeça, na guerra de gangues, dormindo, recuperando-se de uma endoscopia.

 

Afinal o Pai que nos criou, deixou a gente escolher ser flores ou ser espinho. Pensa: “Que tal entrar no quarto e tirar-lhe os cinco órgãos de que preciso?” E se eu fosse esse cirurgião, o que faria? E se eu fosse um dos cinco que precisa de um órgão? E se eu fosse aquele homem que levou um tiro na cabeça, recuperando-se de um exame? Mataria um – bandido que disputava território de tráfico com outro – mas salvaria cinco? Cinco é maior do que um. E por que a obrigação de salvar cinco? O médico é obrigado a salvar cinco? Por que não sacrificar um dos cinco para salvar os outros quatro? E se eu fosse um dos personagens envolvidos nesta situação?

 

Afinal o Pai que nos criou, deixou a gente escolher ser flores ou ser espinho. Na realidade, o professor vai criando muitas situações imaginárias que envolvem decisões e ética. A tendência mais humana é que o número de pessoas salvas interfere fortemente, para valer, nas nossas decisões. Cinco é melhor, é maior do que um: decisão por consequência de um ato, decisão pela qualidade do ato, decisão pela quantidade. A ética nos incomoda a todos, nos perturba profundamente, no corpo e na alma. Sartre – filósofo do existencialismo – nos ensina que “se Deus não existe, tudo me é permitido”.

 

Afinal o Pai que nos criou, deixou a gente escolher ser flores ou ser espinho. Em outras palavras, traduzindo Sartre, Deus me limita, Deus me impede de ser livre plenamente. Muitas vezes desejamos é, como avestruzes, enfiar a cabeça na areia para não ter de tomar decisões, viver como se essas situações não existissem. Só pelo fato de um homem ou uma mulher acreditar em Deus, por si só, não faz algumas coisas e faz outras; evita tantas outras e provoca outras tantas. Só pelo fato de uma pessoa amar, ela mesma, por si só, não faz tantas coisas e faz outras; evita tantas outras e provoca outras tantas.