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Em Questão

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Décio Bragança 25/10/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado que de joelhos rezou um bocado - Nossos pais e avós nos ensinaram que o dia – 24 horas – deve ser dividido em três partes: OITO HORAS para você mesmo – estudar, tomar banho, passear, ouvir música, ir ao teatro, namorar, gozar a vida, sair com amigos, visitar parentes, conviver com a família; OITO HORAS para o outro – trabalhar, fazer, prestar serviços, ganhar dinheiro, construir; OITO HORAS para o sono. Não aprendemos a lição. Insistimos em não aprender.

 

Que de joelhos rezou um bocado, pedindo pra chuva cair sem parar - Claro, não é fácil o Departamento de RH ter de demitir alguém. É comum ouvirmos a seguinte argumentação: “Não concordo com sua demissão, eu não sabia de nada e por isso não pude interferir a seu favor. Sou obrigado a demiti-lo. Eu também cumpro ordens. Adeus!” Quanta insanidade e insensatez! Se o pessoal do RH não sabia, quem deveria sabê-lo? E o que significa cumprir ordens? As empresas, porque não têm líderes, não têm maestros, não conseguem avaliar – dar valor – o trabalho, o serviço de cada trabalhador e de todos. E quando o fazem, os resultados são guardados a sete chaves. Não há um serviço, um trabalho de recuperação, de reabilitação, de requalificação de trabalhadores – função do RH.  

 

Oh! Deus, será que o senhor se zangou e só por isso o sol arretirou - Não há nenhuma regra que não seja idiota, porque a vida escapa, sempre escapou e escapará por entre os dedos. A vida é mais pujante do que qualquer possibilidade de controle. A vida nasce nas pedras. O problema é que uma relação, um rol de regras, normas e regulamentos poupam as pessoas de pensarem, de viverem sadiamente para si mesmas e para os outros. Todas as regras, leis, normas, bulas, portarias são feitas, elaboradas quando as coisas não vão bem ou quando os chefes, os patrões e diretores são ditadores, centralizadores, donos do mundo, das coisas e das pessoas. Faltam-nos líderes! Faltam-nos maestros!

 

E só por isso o sol arretirou, fazendo cair toda a chuva que há - A solução diante de qualquer senão, de qualquer problema em uma empresa, em uma orquestra é excluir pessoas, excluir músicos. É a tática mais perversa: “Vamos aumentar o bolo para depois dividi-lo.” Nunca se viu em lugar algum do mundo dividir-se o bolo. No fundo, entende-se que as pessoas são um entulho, um estorvo, um engastalho, um obstáculo colocado na estrada do lucro, da fama, das riquezas, da ganância, do poder. “Prefiro o cheiro de cavalos ao cheiro de gente” – declaração do ex-presidente do Brasil, João Batista de Figueiredo. Estamos vivendo numa guerra contra as pessoas. Faltam-nos líderes! Faltam-nos maestros!

 

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho pedir pra chover, mas chover de mansinho - Nos muitos roteiros de funções estão subentendidos os dizeres: “Não confiamos em você, por isso siga o roteiro, siga a apostila!” Fato semelhante com as chamadas câmaras de segurança: “Sorria, você está sendo fotografado, filmado!” . Subentende-se: “Desconfio de você, por isso estou filmando você!” Quanta insanidade! Quanta desconfiança! Faltam-nos líderes! Faltam-nos maestros!   

 

Pedir pra chover, mas chover de mansinho pra ver se nascia uma planta no chão - Situação semelhante está acontecendo com o apostilamento dos conteúdos do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Há uma indústria poderosa de apostilas. Isso significa que não se confia nem se acredita na capacidade e competência dos professores. Quanta mediocridade! Quanta mediocrização do Ensino!

 

Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, eu acho que a culpa foi - Um líder carrega nas costas “seus subordinados” quando re-moralizam o que cada um está fazendo – isso é adubo do desejo do útil, de fazer as coisas certas, de fazer certo as coisas. Todo mundo é bastante talentoso: ninguém é tão sábio que nada tenha para aprender e ninguém é tão ignorante que nada tenha para ensinar. Daí, a importância do diálogo, da alteridade – ciência e sabedoria do outro.

 

Eu acho que a culpa foi desse pobre que nem sabe fazer oração - O maestro – o líder – sabe que os músicos – os trabalhadores – sabem resolver os próprios problemas na execução da obra. Por isso, não tem de ser ele a propor as soluções – é questão de confiança! A figura do consultor e ou do assessor é um reforço da falta de confiança de seus subordinados. Ninguém, absolutamente, consegue sentir a dor do calo dentro do sapato do outro. O consultor pensa que sente a dor do calo e quem o contratou também sente que ele sente a dor do calo – isso é falta de autoconfiança, de muito medo. “Quem não arrisca, não petisca!” – nos ensinaram os nossos pais e avós.

 

Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água e ter-lhe pedido cheinho de mágoa - A falta de um maestro traz insegurança aos músicos. A falta de um líder traz insegurança aos trabalhadores – o que é péssimo para todos. Uma questão essencial é que as escolas, as universidades preparam seus estudantes para serem obedientes, seguidores, cumpridores de deveres, vaquinhas de presépio, maria vai com as outras, los macaquitos, que querem os outros decidam por eles.

 

E ter-lhe pedido cheinho de mágoa pro sol inclemente se arretirar - A vida é um processo tão dinâmico que a todo momento temos de decidir alguma coisa.  Nesse sentido, as escolas, as universidades, caminham contra a dinâmica da própria vida. “Non scholae, sed vitae discimus” – “Não para escola, mas ensinamos para a vida – nos ensinaram os antigos romanos. Faltam-nos maestros! Faltam-nos líderes!

 

Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno. Desculpe eu pedir para acabar com o inferno - Obedecer é o caminho mais fácil, principalmente porque quem obedece não tem responsabilidade nenhuma. Um soldado numa guerra não é criminoso porque só obedeceu a ordens – obediência devida. O seu general poderá responder processos de crimes contra a humanidade. Delegar poderes é querer não participar. “Quero o meu no final do mês”.

 

Desculpe eu pedir para acabar com o inferno que sempre queimou o meu Ceará - Um líder não quer pessoas obedientes, porque sabe que quem obedece nada produz, só faz o que lhe é devido. Um líder não gosta de pessoas que cedem ou se deixam seduzir pelo poder, pelo mando e comando. Em outras situações: os médicos sabem que erram, mas as pessoas – seus pacientes – não acreditam nisso; os professores sabem que erram, mas os alunos querem a “verdade” dos professores; os pais sabem que erram, mas os filhos os idolatram. Gostamos da passividade, do comodismo, da apatia, da não responsabilidade. “Só faço o que meu médico, meu professor, meus pais me pedem e querem.”