Busque em todas as seções:
EDIÇÕES ANTERIORES: anteriores

Em Questão

ACESSIBILIDADE: A A A A
Décio Bragança 08/11/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

A palavra é meu domínio sobre o mundo - O ser humano é o único ser que tem consciência de sua encarnação no tempo e na história, no espaço e na geografia. Daí, a partir de suas necessidades, produz o avanço de todas as ciências, cria instrumentos e ferramentas, inventa meios para superar os próprios limites naturais, desafiando as leis da física, da química, da biologia, com habilidade e segurança. Recorreu a outras fontes de energia. Superou as distâncias. Buscou a cura de doenças.

 

Sou como você me vê - Sonhou com um mundo mais seguro e igual. Incentivou a participação de todos, via democracia. Aprofundou as noções de tempo e espaço. Implantou indústrias, aumentando a produção de bens e de alimentos. Criou linhas de comunicação eficazes e eficientes, unindo as pessoas em tempo real, apesar das distâncias. Com isso e tantas outras descobertas, inventou o que chamamos de modernidade. Hoje, já se fala em pós-modernidade!

 

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome - A história da humanidade se confunde com a história da evolução e desenvolvimento da noção do tempo e do espaço. Já entendemos tempo como presente, passado, futuro. Já entendemos espaço como limites dos impérios, das nações, dos países, das cidades. Essas noções tinham a ver com as necessidades para as pessoas se organizarem vertical e hierarquizadas, sempre na busca da hegemonia e do poder.

 

E se me achar esquisito, respeite também. Até eu fui obrigado a me respeitar - Com os avanços principalmente das tecnologias de comunicação e informação, as fronteiras, os limites vão sendo derrubados e socializados em tempo real, instantaneamente. Trocando em miúdos, agora acessamos a internet e nem sabemos onde está o provedor das informações e dos dados, porque praticamente temos apenas um terminal. O espaço é o computador; o tempo, virtual – sempre presente.

 

Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito - Tudo isso é novo e traz reações de todas as formas, umas mais e outras menos compreendidas, mas sempre mexendo com a subjetividade das pessoas. São experiências diferentes e múltiplas que, parece-me, não estávamos preparados. As pessoas reagem diferentemente para acomodar os novos conceitos, fazer os novos arranjos psicológicos, ontológicos diante dessas novas tecnologias, de caráter irreversível.

 

Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar - O fato é que uma tragédia do outro lado do mundo nos traz a sensação de que está acontecendo ali, logo ali, bem na frente da gente. O fato é que estamos vivendo uma nova era por causa dessa “aceleração” do tempo e dessa “perda” de espaço.

 

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever - Tudo é presente, agora. Desapareceram o passado e o futuro. Carpe diem – o tempo imediato, não mais como preparação e planejamento de um futuro que garantia o progresso e o desenvolvimento, que mantinha a verticalidade e hierarquização. Tudo virou miojo – tudo feito em três minutos, instantaneamente.

 

O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós - Ninguém mais vive confinado no seu espaço. Vivemos em todos os lugares e não estamos em lugar algum. Quando Júlio Verne escreveu “Viagem ao redor do mundo em 80 dias” foi considerado um louco varrido – o maior louco de todos os tempos. Na sua época, a viagem pelo mundo foi restrita à Europa e à Ásia, porque as Américas e África não foram visitadas, ainda praticamente desconhecidas. Júlio Verne se fizesse a viagem, hoje, talvez a fizesse em 80 segundos, acessando um pequeno celular ou a Internet.

 

O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo? - Não há mais fronteiras, mais limites geográficos. Somos, queiramos ou não, cidadãos do mundo, cidadãos do universo. Claro, muitas pessoas não conseguiram assimilar todos os “golpes” inesperados e se perdem nesse emaranhado de tantas informações e dados. Quanta loucura! Quanta esquizofrenia!

 

Perder-se também é caminho - Vivemos, feliz ou infelizmente, conectados com tudo, aqui e agora, vivendo experiências múltiplas, plurais, confusas, ora convergentes, ora divergentes. Para nós, pais e professores, o mundo parece meio enlouquecido, porque não estamos preparados para orientar nossos filhos e nossos alunos, diante de tamanha aceleração. Daí, a insegurança!

 

Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então - Como na história dos “Três Porquinhos” vivemos buscando um lugar mais seguro, um porto seguro. Quando nos julgávamos seguros numa casa de palha, o “lobo” derrubou-a. Quando nos julgávamos seguros numa casa de madeira, o “lobo” derrubou-a. Quando nos julgávamos seguros numa casa de alvenaria, o “lobo” derrubou-a. Quando nos julgávamos numa casa de metal, veio o lobo e derrubou-a. E toda casa que construirmos, fatalmente será derrubada pelo “lobo”. E nós, porquinhos, corremos, buscamos, queremos um espaço de bases sólidos, de alicerces firmes, de raízes profundas – o que não acontecerá.

 

E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano - Como tudo está acelerado, aprendemos a fazer tarefas ao mesmo tempo, algumas nos colocando em risco e perigos e outras não. Exemplificando com uma situação de risco: dirigimos nosso automóvel, estamos no celular, resolvemos um problema lá do outro lado da cidade, olhamos para o GPS, ouvimos uma música – tudo ao mesmo tempo.

 

Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena! - Outro exemplo: estamos almoçando, um computador à frente, vemos televisão – tudo ao mesmo tempo. Quanta loucura! Se os professores derem uma volta pela sala de aula, encontrarão vários alunos em seus computadores, com várias janelas abertas ao mesmo tempo> documentos do word, You Tube, MSN, I tunes, Download, programas assíncronos e síncronos, Media Player, Power Point, jogos, bate-papo com 5, 6, 9 interlocutores.

 

Ter nascido me estragou a saúde - As pessoas eram um pouco maquis metódicas, mais comedidas, porque preferiam fazer uma coisa de cada vez. “Impossível assobiar e chupar cana” nos ensinavam os pais e avós. Hoje, fazer várias coisas ao mesmo tempo imprime a ideia de poder, de domínio sobre si mesmo. A expressão multitarefa já está inclusive dicionarizada. Foi criada a expressão “Geração Multi” referindo-se à Multimídia, multifuncionais, multifocais, formalizando o que chamamos de “Revolução Digital”.