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Em Questão

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Décio Bragança 29/11/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Preparai o caminho do Senhor - Ninguém pode ser previamente julgado dependendo de onde nasceu ou de onde veio, de que raça herdou ou de que religião professa. Assim nasce todos os preconceitos! E como somos preconceituosos! Não é fácil ser pobre no meio de pessoas que entendem, como meta, a fama e o sucesso, o poder e as riquezas. Não é fácil ser homossexual entre as pessoas que pensam, como fim, a procriação, a maternidade, a paternidade, a família tradicional, constituída de um homem, uma mulher e filhos!

 

Endireitai as suas veredas - Não é fácil ser negro no meio de pessoas que vivem, como objetivo, os privilégios, as oportunidades e as chances de se ser branco. Não é fácil ser mulher entre as pessoas que ainda insistem, como horizonte, o machismo, o servilismo, a fraqueza do sexo frágil, as discrepâncias salariais. Não é fácil ser diferente, ter independência e opinião própria entre pessoas automatizadas, condicionadas pelos eficientes meios de comunicação e publicidade.

 

Sejam alteados todos os vales - A autonomia – o construir-se a si mesmo – é dever e direito de todos. Lembro-me de Jesus, com apenas doze anos de idade, ter dito aos pais, quando se perdeu deles, em Jerusalém: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que tenho de ocupar-me das coisas que são do meu Pai?” O problema é que confundimos amor com submissão dos filhos, com obediência cega, surda e muda aos pais. “Enquanto você tiver aqui, você tem de me obedecer!”

 

E abatidos os montes e as colinas - Nascemos para viver bem, para ser mais, para ser melhor. Isso significa que cada um e todos vão se construindo como seres independentes, autônomos – o que não significa isolamento, autossuficiência, arrogância. Todos precisamos, por vontade e por opção, de carinho e colo, de ternura e aconchego, de afeto e ninho – o que não significa fraqueza, fragilidade, subserviência. “Não te amo porque preciso de ti, mas preciso de ti, porque te amo” – nos ensinou Erik Fromm, no seu livro “A Arte de Amar”. Primeiro o amor, depois a necessidade.

 

Endireitem-se os caminhos tortuosos - Nesse sentido, o amor faz parte da formação da vontade, do crescimento experimental humano, do desejo concretizado. Muitas vezes, os nossos amores não dão certo ou duram pouco porque primeiro criamos a necessidade. A necessidade é a prática desse mesmo desejo, vontade e crescimento. Caso não fosse assim, o atentado ao pudor, o estupro, a pedofilia, os programas sexuais, a prostituição, o ficar e o pegar seriam a legalidade e a normalidade. Daí, o individualismo – a exaltação do eu – “o prazer é meu!” – “cada um que se vire!”

 

E aplanem-se as veredas escarpadas - A formação da personalidade é um processo árduo e contínuo. Uma criança, ao nascer, diferentemente de muitos animais, é um ser totalmente dependente. Com o tempo, vai construindo a sua independência e autonomia. Alguns não conseguem isso. A sujeição, a submissão, a subserviência passam a compor seu ser. A meta e, talvez, o sentido vida resida na busca da perfeição, traduzida em felicidade e encanto pela própria vida.

 

E toda a criatura verá a salvação de Deus - Cada ser tem a sua perfeição própria, assim como tem a sua própria personalidade. Etimologicamente, personalidade é uma palavra derivada de persona, com o significado de máscaras, usadas no antigo teatro clássico. “Sou aquilo que represento e como me apresento aos outros” Vale lembrar as ideias de Osvald Ducrot (1930) quando afirma que não se diz tudo a todas as pessoas em todos os tempos e em todos os lugares. Escolhemos o que dizer e representar-se, a quem dizer e apresentar-se, quando dizer e representar-se, onde dizer e representar-se.

 

Arrependei-vos - Não é bom, nem verdadeiro, se não ingenuidade e irresponsabilidade, não ter habilidades e competência de mudar, de trocar de máscaras – personas – dependendo das situações e circunstâncias. Nesse sentido, somos atores que representam e se apresentam, usando personagens e máscaras, textos e cenários, muitas vezes totalmente diferentes e até contraditórios. Lembram-se de Jesus, com chicote nas mãos, expulsando os mercenários do templo? Isso não significa que Jesus seja violento, agressivo, odioso. Foi violento naquele momento, naquele lugar, com aquelas pessoas.

 

O reino do céu está próximo - Movido por convicções e crenças, até por mitos e superstições, cada um de nós vai se entregando aos desejos e às possibilidades. Aos anseios e aos sonhos. À utopia e aos ideais. Daí o desafio: não é fácil ser honesto no meio de tantos espertos e corruptos; não é fácil ser fiel a si mesmo e ao outro no meio de tantas traições e ofertas sexuais; não é fácil resistir no meio de tantas propostas e facilidades. Arrepender-se, converter-se, libertar-se fazem parte do crescimento e aperfeiçoamento humano. Vale lembrar a figura de João Batista – voz que clama no deserto: “Preparai os caminhos do Senhor. Endireitai as suas veredas”.