Busque em todas as seções:
EDIÇÕES ANTERIORES: anteriores

Em Questão

ACESSIBILIDADE: A A A A
Décio Bragança 13/12/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Nossas defesas e resistências estão minadas e por isso enfraquecidas. Ninguém admite, por exemplo, hoje, viver sem celulares de todos os tipos e formas. E assim vamos nos acumulando de coisas na esperança de que elas possam nos trazer a felicidade e tranquilidade, a alegria e o encanto de viver. 

 

O fato é que o bezerro de ouro está sempre na espreita, esperando o momento exato e lugar exato para ser adorado. Como os hebreus, rumo à Terra Prometida, sentiram saudades das cebolas do Egito, também nós não quereremos ou não sabemos o que fazer com a liberdade, com a libertação. Preferimos a servidão com os bolsos cheios, a escravidão com cervejas à vontade, a mediocridade com futebol todos os dias da semana, a indignidade e humilhação com luxo e luxúria.

 

Konrad Zacharias Lorenz (1903 – 1989), ganhador de Prêmio Nobel, nos ensina, em seu livro “Os oito Pecados Mortais da Civilização”, que um dos pecados mortais do mundo moderno é o uso indiscriminado de antibióticos e analgésicos, já que não suportamos mais uma leve dor de cabeça, como se a dor não fizesse parte de todos os seres vivos. O médico de Michael Joseph Jackson (1958 – 2009) foi condenado porque permitiu que o ídolo ingerisse uma quantidade enorme de anestésicos, antibióticos e analgésicos.

 

A dor, a cruz, o sofrimento, as doenças, até a morte nos são sinais de vida. Em outras palavras, só carrega a cruz, só morre, quem está vivo. Assim, a morte é a última realização de todos os seres vivos. “A morte é a última coisa que faço”, por isso coroamento ou coroação da vida, segundo William Shakespeare (1564 – 1616); ou o maior encanto ou encantamento da vida, segundo Fernando Pessoa (1888 – 1935); ou rito de passagem para quem acredita na vida depois da morte. Mesmo assim, tudo fazemos para retardar a coroação e coroamento, o encanto e encantamento, a passagem e a vida eterna.

 

Sem a intenção de minimizar a complexidade do ser humano, entendemos que “é bom ser bom” – “o bem faz bem”. Cada vez mais está mais difícil ser bom, honesto, justo, fiel aos princípios, pacífico, puro, trabalhador, virtuoso, verdadeiro, tolerante, respeitoso, acolhedor, disponível aos outros, amoroso. Partimos para o ataque!

 

Entendemos que ser virtuoso, hoje, é ser bobo, babaca, objeto de escárnio e de gozação. “O mundo é dos espertos”, dos que querem levar vantagem de tudo e em tudo, acima de princípios e virtudes. O professor Cortella nos ensina com muita simplicidade que só devemos fazer algo quando estiverem alinhadas as respostas das questões: “Eu quero? Eu posso? Eu devo?” Nem sempre o que quero, posso e devo fazer. Nem sempre o que posso fazer, quero e devo fazer. Nem sempre o que devo fazer, quero e posso.

 

O interessante é que cobramos dos outros todas as virtudes, mas pouco exigimos de nós mesmos. “Quero que todos sejam honestos para sobrar mais dinheiro para eu roubá-lo - Exijo fidelidade de minha esposa ou namorada para que eu possa cair na gandaia”. Quão bom pudéssemos dizer: “Faça o que digo, porque eu faço assim. Experimentei este caminho que me levou à alegria e ao encantamento de viver. Experienciei esta maneira de construir minha vida e percebi que tudo se alinhava, conspirava a meu favor”.

 

Os valores individuais e sociais são escolhidos com base no que acreditamos, no que professamos. “Sou para mim e sou para os outros”. Quão bom seria se tudo o que eu escolhesse fosse bom para mim e para todos! Importa que todos sejam felizes, bons, honestos, castos, incorruptíveis! É muito pouco, mas já é bom, quando poucos ou um só seja feliz, bom, honesto, casto, incorruptível. Nesse sentido, acredito que quando um vai ou vive no céu, muitos estão com ele. Da mesma maneira, acredito que quando um vai ou vive no inferno, muitos estão com ele.

 

Há uma cumplicidade silenciosa, latente, poderosa, potencial entre todos. Nada é feito sozinho! Cada um de nós faz um plano, um projeto de vida e a outra pessoa – você – permite ou não a realização de plano ou projeto. Não há pai sem filho, professor sem aluno, esposa sem marido, patrão sem empregado, pastor sem ovelhas, cantor sem plateia, governo sem povo.., Em outras palavras, o filho permite ou não a realização do pai; o aluno do professor, o marido da esposa; o empregado do patrão; as ovelhas do pastor, a plateia do cantor, o povo do governo.

 

Não por acaso, Jean Paul Sartre (1905 – 1980) disse que “o inferno são os outros” e, em contrapartida, Martin Heidegger (1889 – 1976) disse que “o céu são os outros”. Quão bom seria se pudéssemos ouvir: “Filho, você é meu céu! – Pai, você é meu céu! – Aluno, você é meu céu! – Professor, você é meu céu!” E assim por diante!

 

No fim de ano, muitas pessoas fazem um balanço do ano: seus pontos negativos e seus pontos negativos. Muitas pessoas também fazem promessas para o próximo ano. Tudo isso quase que em forma de oração, por causa do nascimento do Deus-Menino. Por isso, deixam o coração falar, orar, meditar, confessar, profundamente. Essa forma de oração é uma terapia saudável, renovadora, rejuvenescedora. Funciona até como uma medicina alternativa.

 

Mesmo em silêncio, porque consigo mesmo, as pessoas sabem que há alguém escutando seu coração, sua oração. É uma forma salutar de perder tempo, no mínimo, consigo mesmo. Não se ama aos outros, nem a si mesmo, sem que se perca tempo. Conversar consigo mesmo é uma prática saudável, porque uma prática de se encontrar. “Perdi-me dentro de mim, como se fosse um labirinto e hoje quando me sinto é com saudades de mim”.