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Em Questão

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Décio Bragança 20/12/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

VOLTAR AOS DEZESSETE - No fim de ano, muitas pessoas fazem um balanço do ano: seus pontos negativos e seus pontos negativos. Muitas pessoas também fazem promessas para o próximo ano. Tudo isso quase que em forma de oração, por causa do nascimento do Deus-Menino. Por isso, deixam o coração falar, orar, meditar, confessar, profundamente. Essa forma de oração é uma terapia saudável, renovadora, rejuvenescedora. Funciona até como uma medicina alternativa.

 

DEPOIS DE VIVER UM SÉCULO - Mesmo em silêncio, porque consigo mesmo, as pessoas sabem que há alguém escutando seu coração, sua oração. É uma forma salutar de perder tempo, no mínimo, consigo mesmo. Não se ama aos outros, nem a si mesmo, sem que se perca tempo. Conversar consigo mesmo é uma prática saudável, porque uma prática de se encontrar. “Perdi-me dentro de mim, como se fosse um labirinto e hoje quando me sinto é com saudades de mim”.  

 

É COMO DECIFRAR SÍMBOLOS - Amigos conversam uns com outros. O melhor amigo do homem é o próprio homem. “Feliz ou infelizmente fico 24 horas do dia, 365 dias do ano comigo”. Se perguntarmos aleatoriamente às pessoas o que dá sentido à vida, algumas respostas podem até nos surpreender. A maioria das respostas giraria em torno da felicidade com toda a sua extensão significativa e possibilidades.

 

SEM SER SÁBIO COMPETENTE - Alguns tentam separar felicidade de liberdade, alegando ora uma ora outra ser a razão de viver. Sem liberdade não pode haver felicidade. Sem felicidade não pode haver liberdade. Poderia nos perguntar: para que serve uma sem a outra? A partir da década de 60, a unidade liberdade-felicidade passou a ser uma obrigação. O problema é que não há receita, não há roteiros, os famosos mapas da mina para se entender essa unidade.

 

VOLTAR A SER DE REPENTE - A conquista da felicidade depende muito do esforço pessoal, individual, enquanto a conquista da liberdade depende mais de um esforço social, coletivo. Como hoje, vivemos mergulhados no individualismo, a busca da felicidade está virando uma obsessão, uma alucinação. A ansiedade é tamanha que criamos a ideia de felicidade como imediatismo, urgência, rapidez. Perdemos a paciência com aquilo que não for imediato, rápido, urgente.

 

TÃO FRÁGIL COMO UM SEGUNDO - Daí, a sociedade do descartável e a sociedade do miojo – tudo tem de ser feito em três minutos. Os números não são precisos, mas fala-se em quase 100 milhões de receitas, por ano, de antidepressivos. Estamos ficando loucos porque não conseguimos ser felizes, não conseguimos ser livres. Para sua curiosidade, entre na rede de computadores e procure informações sobre, por exemplo, o prozac – medicamento campeão de vendas no mundo inteiro, além. É claro das inúmeras drogas ilícitas e contrabandeadas.

 

VOLTAR A SENTIR PROFUNDO - A droga foi até chamada um dia de “a droga da felicidade”. Hoje, os estudos e as pesquisas nos mostram que a felicidade ainda não está sendo comercializada ou contrabandeada. A felicidade não é um milagre e nenhum remédio ou um medicamento ou uma varinha de condão. Os números de suicídios estão aumentando consideravelmente. Em alguns países o número de suicídios já é bem maior do que o de homicídios, como na China, nos Estados Unidos, no Japão.

 

COMO UM MENINO DIANTE DE DEUS - A própria OMS – Organização Mundial da Saúde – se mostra preocupada com o número de suicídios e com o avanço incontrolável dos quadros depressivos que tornam as pessoas muito vulneráveis e fragilizadas. A renda familiar e pessoal tem aumentado – o que excita as pessoas a comprarem a felicidade com riquezas, dinheiro, consumo. “O dinheiro não traz a felicidade, mas manda buscar!” Preferimos um baita automóvel a um verdadeiro e permanente namorado ou companheiro. Preferimos um apartamento duplex a uma pessoa que nos ama verdadeira e profundamente. Preferimos coisas a pessoas. Coisas não podem trazer a felicidade.

 

ISSO É O QUE EU SINTO - Sigmund Freud (1856 – 1939), Pai da Psicanálise, entende que a busca da felicidade é inútil, inglória, ilusória, perda de tempo. As nossas pulsões, energias, forças positivas e negativas, Eros e Tânatos, vida e morte, prazer e dor, bem e mal não conseguem um equilíbrio que poderia ser chamado de felicidade. Claro, se não fôssemos regidos, governados, condicionados, comandados pelo prazer – companheiro da felicidade – nós nem aqui estaríamos. Somos frutos de um prazer, gozo, orgasmo, de um homem e de uma mulher a quem costumamos chamar de pai e mãe. 

 

NESTE INSTANTE FECUNDO - Analgésicos, anestésicos, antidepressivos realmente nos afastam da dor, do sofrimento. Quem sofre ou sente dor não tem condições de ser feliz. Neutralizar de alguma forma a dor, o sofrimento, assim, é o primeiro passo para a felicidade. Acima do zero, nós já nos sentimos felizes; ao contrário, abaixo do zero, nós nos sentimos infelizes. Isso é o que podemos chamar de graus de felicidade e/ou infelicidade. Não basta só não sentir dores e sofrimentos.

 

VAI SE ESPALHANDO, ESPALHANDO - O caminho é longo. O horizonte: quanto mais pessoas felizes melhor, porque também não dá para ser feliz no meio de tantas pessoas infelizes. Qualquer possibilita de felicidade fora dessa espiral que se propaga, cheira à doença. Exemplificando: uma pessoa é “doente”, gravemente doente, quando se sente feliz com a desgraça dos outros. “Rir com os que riem e chorar com os que choram”.

 

COMO NO MURO A HERA - A verdade é que tudo na sociedade humana tem de ser construído. Nada é definitivo – o que nos faz, talvez, melhores do que os animais. Isso para dizer que a felicidade também é uma construção. O homem é capaz de experimentar-se em situações constrangedoras ou felizes. O homem, via pensamento e associações sensoriais, é capaz de simular amor e ódio, saúde e doença, alegria e tristeza, amargura e doçura, macieza e aspereza, felicidade e infelicidade.