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Em Questão

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Décio Bragança 27/12/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

E VAI BROTANDO, BROTANDO - Observemos um estudante de Medicina que simula, treina, aperfeiçoa, faz cirurgias em cadáveres. Observemos um estudante de Ciências Aeronáuticas que simula muitos voos domésticos e internacionais. Todos os estudantes de toas as áreas, antes de formados e aí com toda responsabilidade possível, treinam, experimentam, simulam situações reais. Só o ser humano é capaz disso.

 

COMO O MUSGO NA PEDRA - E por que também não podemos simular, treinar para o amor, para a alegria, para a felicidade? O problema, muitas vezes, é que colocamos essas “coisas” em lugar errado ou fora de nós mesmos. De um lado, um empresário, bem sucedido, rico e infeliz – toma montanhas de antidepressivos; de outro, um cego, que gosta de estudar e é feliz com sua bengala. Não quero dizer com isso que todo empresário seja infeliz e que todo cego seja feliz. Esses dois sujeitos foram meus alunos que fizeram o mesmo curso, numa mesma turma. Num dia, na ausência dos dois, perguntei à turma, a seus colegas, se pudessem escolher a vida de um ou de outro, qual escolheriam. Quase a totalidade escolheria a vida do empresário. Aí, fiquei pensando se a felicidade seria mesmo a meta do homem, aqui, na terra!

 

MEU PASSO RECUADO - O homem é capaz de mudar a visão de mundo, de tirar leite de pedras, de converter erros em acertos, de fazer uma gostosa limonada se lhe derem limões, de tirar proveito das adversidades, de aprender a ser, a ser mais, a ser melhor. Isso talvez seja o nosso maior diferencial em relação aos animais. Possivelmente, a felicidade more dentro da gente mesmo e nós insistimos em buscá-la fora de nós.

 

QUANDO O DE VOCÊS AVANÇA - Cada um de nós tem um segredo da felicidade que não é partilhado ou compartilhado entre as pessoas. O que será que pensam as pessoas felizes? Satisfazer-se com o que têm ou o que são? Admirar-se de estar sendo? Buscar fama, sucesso, riquezas, poder? Comprar, comprar até consumir-se? Entregar-se às paixões, aos prazeres, como fez o Jovem Werther, de Goethe? Procurar Deus? Ter o suficiente para viver? Ter garantidos todos os seus direitos? Conhecer-se a si mesmo? Conhecer os outros? São questões para as pessoas felizes responderem e depois partilharem-nas com todos. Temos a obrigação de aprender a ser felizes!

 

O ARCO DAS ALIANÇAS - Conta-se uma história muita boa sobre partilha e sabedoria, cumplicidade e sobrevivência. Num país de muita fome, com as pessoas praticamente morrendo de fome e inanição, como num toque de mágica, a aparece uma grande panela cheia de alimentos. No mesmo momento, nos braços das pessoas uma grande colher amarrada nos pulsos de forma que cada um não conseguisse levar o alimento à própria boca. Alguns até que tentaram. Em vão. Alguém deu a solução: “Cada um de nós alimenta o outro que está logo ali à frente. Eu levo o alimento até a boca do outro e cada um de nós faz o mesmo gesto”.

 

PENETROU ATÉ MEU NINHO - Todos se saciaram naquele momento, porque um confiou no outro, um satisfez o outro. Quem me contou essa história me ensinou que a felicidade, o alimento, a alegria, o amor só têm sentido se partilhado, compartilhado. “Somos cúmplices uns dos outros” – “Sou para mim e sou para os outros”.

 

COM TODO SEU COLORIDO - Conta-se outra história também cheia de sabedoria. Na véspera do Natal, o pai levava seus filhos a uma loja de brinquedos. Mas muito brinquedo mesmo. O pai pedia para os filhos escolherem apenas dois brinquedos. Os filhos fizeram isso. Em casa, o pai reuniu os filhos e pediu que agora escolhessem o melhor presente, apenas um. Feito isso, o pai falou aos filhos para irem ao orfanato bem próximo dali, escolhessem uma criança e dessem o melhor presente. Moral da história: “o melhor sempre tem de ser para o outro.” A felicidade do outro é que contagia de felicidade o ambiente.

 

PASSEAOU POR MINHAS VEIAS - Nós insistimos em não aprender a ser felizes. Trazemos muitas ideias e muitas expectativas, consciente ou inconscientemente, em relação à conquista e à construção da felicidade. “Ah! Se fosse assim, assado...” Toda expectativa é frustrante. Será tanto mais frustrante quanto maior a expectativa. Observemos um prêmio de uma megasena no final do ano – 200 milhões de reais. Com um montante desses, claro, apareceram milhões de sonhadores e românticos que se frustraram. Será que a construção de tantas expectativas – pés e coração fora da realidade – não atrapalha na construção da felicidade?

 

E ATÉ A DURA CORRENTE - Toda ciência precisa de laboratórios – lugar onde se realiza o labor, o trabalho, as pesquisas, os experimentos, os estudos. Temos conceitos diferentes de laboratório. Aqui, laboratório sempre nos levará ao conceito de labor. A rua, as avenidas, as praças, as florestas... tudo poderá ser laboratório, dependendo da natureza da ciência.

 

COM QUE NOS PRENDE O DESTINO - As experiências humanas são de uma riqueza sem igual. O jogo da subjetividade e intuição, da objetividade e dedução, é fascinante. A história de vida de cada indivíduo é diferente da do outro. Tantas histórias quantos indivíduos. Tantos indivíduos quantas histórias. Os estudiosos e pesquisadores, tamanha a diversidade, buscam traços e características comuns para aprofundar um conceito, uma ideia. Quando Immanuel Kant (1724 – 1804) afirma que o cérebro humano – a mente humana – sabe as coisas, sente as coisas e deseja as coisas. Conhecimento e cognição, sensação e emoção, motivação e desejo – habilidades funcionais da mente.

 

É COMO UM DIAMANTE FINO - Os termos, as palavras são encarnadas num determinado tempo e num determinado espaço e por isso passam por formulações e inovações. O conceito de amor num tempo e num espaço obrigatoriamente será outro em outro tempo e lugar. Cada indivíduo é único, inédito, intransferível, irrepetível, inteiro, completo, cheio de si mesmo – o que torna qualquer pesquisa ainda mais fascinante e instigante, provocadora e provocante.

 

QUE ILUMINA MINHA ALMA SERENA - Isso significa que a organização mental e pessoal também é diferente. Essa organização particular passa pelas crenças, desejos, reações também diferentes. Daí, a organização social de cada grupo de pessoas ser diferentes, que vão formando a partir das semelhanças e afinidades de cada membro. Alguns estudiosos e pesquisadores buscam explicações para uma possível desorganização particular e como isso afeta também uma desorganização social.

 

O QUE PODE O SENTIMENTO - Somos influenciados e influenciamos, somos afetados e afetamos, somos machucados e machucamos. Somos amados e amamos. A partir dessa via de mão dupla – eu e os outros – muitas ciências foram e são criadas: antropologia, sociologia, psicologia, ciência política, administração, economia... E quanto mais se estuda maior a complexidade dessa relação de unidade e multiplicidade, de eu e nós.

 

NÃO TEM PODIDO O SABER - Claro, a abordagem científica, o objeto e metodologia, os laboratórios e conclusões são também bem diferentes, mas complementares, sem dúvida. Entender o ser humano numa perspectiva única talvez seja o grande erro. Não sou nada, mas à parte isso, tenho todos os sonhos do mundo” nos ensinou Fernando Pessoa.

 

NEM O MAIS CLARO PROCEDER - Muitas vezes, nós nos chocamos com um comportamento da outra pessoa. Não conseguimos pensar que o outro acredita naquilo que pensa. “Se penso em suicídio, eu começo a acreditar nele”. Nós nos enamoramos com aquilo em que acreditamos e só acreditamos naquilo que pensamos. Não adianta nada – absolutamente nada – se os outros não acreditam no suicídio como solução da própria inutilidade da vida. “Só acredito no que penso. Só desejo aquilo em que acredito”.

 

NEM O MAIS LARGO - Como seres sociais – via de mão dupla – é possível fazer o outro mudar sua maneira de pensar, de ser. Mudando o pensamento, muda a crença que muda o desejo. Por isso, as técnicas de persuasão estão em alta. Daí, o sucesso de livros, cd’s, dvd’s, de autoajuda, de criações de tantas igrejas.

 

VOLTAR AOS DEZESSETE - Somos seres sociais, vivemos em cidades, porque somos cidadãos do mundo. Tudo é partilhado e compartilhado entre todos. A emissão de carbono afeta a todos em todos os lugares. A mudança do clima não afeta uma cidade, um país, mas afeta o planeta inteiro. Sofrerão mais as pessoas mais pobres, sem desenvolvimento e progresso, sem acesso às benesses da modernidade, que não são os responsáveis, porque pobres. O carbono vem das fábricas, das chaminés, dos escapamentos de veículos, que usam combustíveis fósseis. O grande desafio de todos os povos é substituir as fontes energéticas. Será que estamos querendo isso? O que pensam os governantes e os donos das grandes corporações?

 

DEPOIS DE VIVER UM SÉCULO - As cidades atraíram muitas pessoas a elas, oferecendo-lhes conforto e usufruindo das benesses da civilização. As pessoas que ficaram na zona rural foram massacradas pela especulação imobiliária e pela expansão do agronegócio multinacionais, transnacionais, internacionais. Muitos foram para a periferia das cidades, porque sem dinheiro e qualificação profissional, iniciando o processo de favelização, praticamente em todas as cidades.

 

É COMO DECIFRAR SÍMBOLOS - Já já seremos 8 – 9 – 10 bilhões de pessoas aglomeradas, empilhadas, exprimidas nas cidades, já que ninguém mais quer viver no campo, na zona rural, porque sem escolas, sem assistência odontológica, psicológica, médica, técnica. Aí, a preocupação com alimentos, com moradias e abrigos, com água e saneamento, com a qualidade do ar, com os agasalhos e sapatos – elementos e direitos de todos e de cada um. Essa é a teoria dos cinco AS: Água – Ar – Abrigo – Agasalho – Alimentos.

 

SEM SER SÁBIO COMPETENTE - A produção de energia limpa, no mínimo, resolveria um dos nossos grandes problemas e cada cidade poderia determinar previamente, planejar, a quantidade de energia para manter a cidade viva e as pessoas. As cidades não foram, não são construídas para gente, mas para veículos, para o progresso a todo custo. Cada vez mais os automóveis transportam menos pessoas. O marido tem um, a esposa tem outro, os filhos – cada um com o seu – porque os horários de trabalho e de estudos não são coincidentes.

 

VOLTAR A SER DE REPENTE - A opção, nesse caso, tem de ser o transporte coletivo. Tem de se pensar em uma maneira de diminuir o número e a circulação de automóveis. O problema é que tudo funciona em cadeia, em elos: produção, industrialização, comércio, consumo. Não é fácil quebrar esse círculo mais do que vicioso. É urgente salvarmo-nos a nós mesmos.

 

TÃO FRÁGIL COMO UM SEGUNDO - Vivemos na encruzilhada de tomada de decisões, porque sabemos que a crise e degradação econômica produzem uma degradação ambiental – exaustão dos recursos naturais – que produz a degradação moral e social – exaustão das virtudes. Todos os estudiosos e pesquisadores do mundo inteiro estão sugerindo medidas urgentes para nos salvarmos e salvarmos o planeta.

 

VOLTAR A SENTIR PROFUNDO - Uma das maiores preocupações é o desperdício e a produção de lixo. Um caminhão carregado de soja no Mato Grosso do Sul para o Porto de Santos vai deixando até 10% da carga nas rodovias. E se tudo fosse feito por via férrea? O desperdício é muito significativo: 11 caminhões vale 10, além da emissão de gases tóxicos. E esse desperdício podemos dizer não é percebido pelas pessoas. A própria companhia de águas de Uberaba – CODAU – por exemplo afirma que do tratamento de água até as casas são perdidos 35% do total produzido.

 

COMO UMA CRIANÇA FRENTE A DEUS - Vivemos numa encruzilhada de tomada de decisões, porque a vida sedentária a que estamos sujeitos, vem produzindo consideravelmente os casos de obesidade, diabetes, estresse, enfarte, pressão alta. As pessoas não têm tempo de lazer, de prática de esportes, de ócio, de descanso, de sono. As crianças, hoje, pouco caminham. Observem o tanto de vans escolares rodando pelas cidades.

 

ISSO É O QUE SINTO NESTE INSTANTE FECUNDO - Ninguém anda para ir a um restaurante, a um boteco, a um shopping, a uma sorveteria, mesmo que esteja a poucas quadras de sua casa. O uso de bicicletas tem de ser uma alternativa de um desenvolvimento sustentável. Há pouca preocupação com a saúde das pessoas. Nas cidades grandes, as pessoas com o transporte, próprio ou coletivo, estão gastando até 32% do salário, muitas vezes, mais do que gastam com alimentação. Todos reclamam do aumento de preços de alimentos, mas ninguém reclama do preço dos combustíveis, da cerveja.