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Em Questão

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Décio Bragança 21/02/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Eis, ó meu povo o tempo favorável da conversão que te faz mais feliz - O homem não é rival de nenhum outro homem nem de nenhum outro ser da criação. É um irmão universal. O homem é um ser em relação consigo mesmo, com os outros homens, com todos os seres vivos e não vivos, com Deus. É-lhe impossível amar a um e odiar a outros. É uma relação de vida, por isso sem distâncias no tempo e na história, no espaço e na geografia. Somos seres do universo, por isso também parte de tudo. A isso damos o nome de sinergia, de cumplicidade – confiar em tudo e em todos. É uma partilha de confiança e amor. Daí, a necessidade e o desejo de encontro, de solidariedade, de irmandade.

 

Da construção de um mundo sustentável - A partir daí, o encontro com tudo e com todos será sempre renovado, inédito, surpreendente, porque haverá sempre algo a ser descoberto, interiorizado, vivido. A vida é uma surpresa, porque cheia de afeto e amizade, ternura e aconchego, colo e ombro, braços e abraços. Estamos vivendo o tempo da misericórdia, que também poderia ser a extensão da gratidão. Misericórdia é algo produzido nas entranhas, no coração. Por isso, a vida será sempre uma grande festa de todos os encontros com todos os seres.

 

“Casa Comum” é teu Senhor quem diz - Vinicius de Moraes nos ensinou que a Vida é um grande encontro, apesar de haver tantos desencontros. Francisco de Assis nos ensinou que a vida é uma grande festa, mesmo não havendo o que festejar. A palavra festa aqui significa acolhimento – revelação do amor. O acolhimento será sempre divino, porque evangélico. É Jesus que acolhe os doentes e os desesperados, os ladrões e os corruptos, os salteadores e os governantes, os poderosos e os pobres, os de postos relevantes e também os irrelevantes. Sem excluir ninguém. Acolhe principalmente os que nunca foram acolhidos. Amar a quem se ama é muito fácil. Difícil é amar a quem nos odeia.

 

Quero ver, como fonte o direito a brotar, a gestar tempo novo - Jesus se fez carne, acolheu a todos os seres humanos para que tudo fosse transformado, ressuscitado, renovado. Do esterco nasce o adubo. Da morte brota a vida, em abundância. Temos de encontrar uma nova maneira de viver a vida em comunhão. Uma comunhão universal. Talvez, esse seja o projeto da maior felicidade possível, de corpo e de alma, aqui e agora.

 

E a justiça, qual rio em seu leito dar mais vida pra vida do povo - “Cuidemos da nossa casa!” Lembrando e relendo o Gênesis, percebe-se que, no processo criador do mundo, o homem é um ser integrado à natureza. Por algum motivo histórico, por razões até cartesianas, por interesses capitalistas, por injunções maquiavélicas, por causa faustianas, educa-se o homem como dono da natureza. A natureza não pertence ao homem, mas é o homem que pertence à natureza.

 

Eu te carrego sobre as minhas asas, te fiz a terra com mãos de ternura - O homem foi educando-se para a posse da natureza, esquecendo-se de q vida é maior do que ele e a vida percorre a natureza inteira, num todo único. Do inseto à árvore. Da hortaliça ao animal. Do leão ao homem. Quebrar essa corrente acarreta a destruição e mutilação do homem. Ao passo que perceber essa corrente da vida é dar ao homem a verdadeira respiração, a circulação... a verdadeira vida. Perceber essa corrente, de elos distintos, mas unidos, é participar e comungar as grandes energias e grandes forças e grandes ritmos do universo, da continuação da vida, da criação e recriação da vida, entre ameaças e confrontos, entre esperanças e promessas de um mundo mais alegre e feliz.

 

Vem, povo meu, cuidar da nossa casa! - O homem, ser mais evoluído e desenvolvido biológica e socialmente, é o responsável pela preservação da natureza. Tem a missão salvífica de velar, de zelar, de espiar a natureza. Os bens e os recursos da natureza são esgotáveis e natureza já dá sinais de exaustão, de cansaço.

 

Eu sonho verde, o ar, a água pura - Compreender e amar a vida é perceber a vida em correntes, em elos, em comunhão. Compreender e amar a vida é ter consciência de que o homem é real e natural e que toda a realidade e natureza se resumem no homem. Se mostram no homem. Se refletem no homem. Não se trata de se criar um panteísmo ou um antropomorfismo, mas conceber uma maneira nova e diferente de viver a própria técnica e ciência, a política e a economia, as leis e a educação.

 

Te dei um mundo de beleza e cores e tu me devolves esgoto e fumaça - Salva-se o homem, salvando-se a natureza, salvando-se o universo. Basta-nos lembrar as vida e doutrinas de Cristo, de Francisco de Assis, de Teillard de Chardin... Relembrando o Gênesis, percebe-se que, quando o homem rompeu os laços com Deus, rompeu também os laços que o ligavam à natureza e os laços que o ligavam a ele mesmo.

 

Criei sementes de remédio e flores, semeias lixo pelas tuas praças - Nasceu o pecado, provocado pela ruptura, porque isso foi desejado pelo homem. No dia em que o homem reconciliar-se consigo mesmo, reconciliar-se-á com a natureza e com Deus e, aí, não haverá mais pecado. Nem tantos complexos de culpas. Nem tantos infernos. Nem tantas frustrações. Nem tantos desesperos. Nem tantas angústias...

 

Justiça e paz, saúde e amor têm pressa - Rompidas as ligações e a s relações do homem consigo mesmo, com a natureza e como consequência com Deus, o homem sacralizou o desenvolvimento e o progresso, e, em nome deles e por eles, destrói tudo. Dissocia-se o humano do divino e do econômico, do político e do social. Cria-se uma teologia sem Deus e sem homens. Uma economia sem Deus e sem homens. Uma política sem Deus e sem homens. Uma sociedade sem Deus e sem homens.

 

Mas, não te esqueças, há uma condição: o saneamento de um lugar começa por sanear o próprio coração - A reintegração do humano nos equilíbrios naturais leva o homem à reintegração no processo criativo e criador, onde não será mais dono e senhor, como se propaga com orgulho e vaidade, mas tão somente um componente, ainda que privilegiado da natureza.

 

Eu sonho ver o pobre, o excluído sentar-se à mesa da fraternidade - Como a cadeia alimentar não pode ser quebrada, porque provocaria uma superpopulação de alguma espécie e a extinção de outros seres. Não deve estar havendo uma superpopulação de um mosquitinho que tem provocado tanto desespero? O seu predador não foi extinto? A corrente da vida, na qual o homem está inserido, não pode ser rompida por vontade e opção do homem, em busca da fama e do sucesso, de riquezas e de poder.

Governo e povo trabalhando unidos na construção da nova sociedade - O sol irradiou luz e deu vida às plantas. As plantas deram vida aos animais, alimentando-se delas. Plantas e animais acumularam suas energias e nos deram petróleo e carvão, depois de milhões de anos. Tudo isso harmonicamente, porque o homem não participava desse processo. No dia em que o homem soube que o petróleo e o carvão eram fontes de energia, comportou-se como ´pirata e começou a liquidar e esgotar os estoques dessa energia não renovável.