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Em Questão

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Décio Bragança 28/02/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Somos todos irmãos da lua - O homem, tardiamente, perceberá que há fonte inesgotáveis de energia, como a do sol, dos ventos, das ondas do mar, das águas, de todas as fermentações da vida... Lógico que isso imporá um novo estilo de vida, principalmente inserida na natureza. Não é justo usar sem escrúpulos os estoques de energia esgotáveis, nem esbanjá-la egoística, inconsciente e inconsequentemente. Viver em comunidade exige prudência paciência, como a natureza e não com imediatismos e momentos fugazes de riqueza, de ganância, de poder.

 

Moramos na mesma rua - Compreender e amar a vida é, em síntese, compreender e amar a si mesmo, como ser de relações e, porque de relações, único. Irrepetível. Universal. Cósmico. Cúmplice. Compreender e amar a vida é, em síntese, compreender e amar a humanidade como unidade e, porque única. Divina. Eterna. Sábia. Inteligente. “Eu sou a humanidade e a humanidade sou eu” – “Qualquer mal feita a um destes pequeninos, a estes homens e mulheres, a estas plantas e rios, a estas estrelas e pedras, é a mim que o fazem”.

 

Bebemos no mesmo copo - Estamos perdendo o sentido de unidade, de unicidade. Por ser cada ser único, inédito, irrepetível, intransferível, completo, inteiro, é possível perceber a grande família com todos os seus seres vivos e não vivos. A verdade é que um homem só não é nada. Não é ninguém. Não sabe nada. Não crê em nada. Torna-se homem em contato com outro homem, lutando incessantemente contra a pretensão de se ser só. “Não é bom que o homem esteja só”. Despoja-se para ser com. Desaparecer-se para estar com.

 

A mesma bebida crua - Os místicos argumentam que é preciso o homem estar vazio de si mesmo, para que Deus habite nele, para que os outros seres habitem nele. Num mesmo lugar não cabem dois corpos, dois seres, como nos ensinam os físicos. Por isso mesmo não são dois, ou três, ou dez seres, mas tudo torna-se um, indivisível, invisível, mas real, concreto. Eu habito nos outros e em Deus, porque sou habitado pelos outros e por Deus.

 

O caminho já não é novo - Assim, trago a humanidade em mim e cada um traz a humanidade em si. A isso podemos chamar de solidariedade cósmica, ou fraternidade cósmica. Dialogar é, então, uma humanidade conversar com a humanidade. Essa é a grande revolução necessária que se inicia no mundo inteiro. Caem as fronteiras. Derrubam-se os muros. Desmitificam-se os heróis. Somos realidades separadas, mas complementares na unidade da humanidade. “Eu sou a única possibilidade de a humanidade ter uma existência concreta, real, temporal, tangível” – “Quem me vê a humanidade e quem vê a humanidade me vê”.

  

Por ele é que passa o povo - Cada homem, então, traz em si o desejo de comunhão com todos os seres criados, existentes no universo – o que torna cada um a afirmação da comunhão, da solidariedade, da cumplicidade. Na realidade, todos os seres existentes têm dignidade, porque participam da mesma dignidade de cada ser humano. Maltratar os animais é maltratar-se a si mesmo. Derrubar desnecessariamente árvores é derrubar-se a si mesmo. Nesse sentido, tudo passa a ter também um valor espiritual, divino, por isso também tudo tem de ser respeitado.

 

Farinha do mesmo saco - Essa é a grande revolução necessária que nos obriga a repensar o ter. o possuir. O domínio. O poder. É uma força subversiva, é um andar na contramão, porque, assim, o homem deixa de ser objeto de apropriação, questionando o próprio direito de propriedade. A propriedade deixa de ser um direito e passa a ter uma função social, uma função até espiritual.

 

Galinha do mesmo ovo - Essa é a revolução necessária que impede que as pessoas se arroguem o direito de pensar pelos outros, de decidir pelos outros, de mandar nos outros, usando um sistema fechado e acabado e engessado, inquestionável, quer em termos políticos e econômicos, quer em termos religiosos e jurídicos.

 

Mas nada é melhor, que a água - Essa é a grande revolução necessária que tira do homem as possíveis limitações, desabsolutizando a verdade, a realidade, as leis, as religiões, a ciência, a sabedoria. Assim, descobre-se que o que existe em nós, nos permite ultrapassar os nossos próprios limites, os nossos condicionamentos e memória, nosso passado e presente. Assim, quebram-se nossos esquemas mentais, de pensamento, de nosso dia a dia e nossa rotina no agir e no fazer.

 

A terra é a mãe de todos - Essa é a grande revolução necessária que contesta e recusa a verdade absoluta, mas nos obriga a abrir os braços e a cabeça e o coração para todos os seres. Independentemente de raça, de povo eleito e escolhido por Deus, de nações que se enriquecem às custas de sacrifícios de muitos, importa, nesse processo revolucionário, o respeito e o amor de uma comunidade humana maiores do que os interesses e intenções, desejos e quereres de alguns.

 

O ar é que toca o homem - Essa é a grande revolução necessária que relativiza a ordem e o poder, que coloca em xeque a certeza e os dogmas, obrigando-nos a viver, a crescer, sem parar, desinsulando-nos de nosso desejo fugaz, de nosso individualismo mesquinho, de nosso egoísmo inconsistente. Nesse processo revolucionário, a vida em comunidade nos obrigará a tomar decisões a cada dia, a escolher sempre o melhor para todos, mesmo se não for o melhor individualmente, a ouvir as vozes da humanidade, carente e abandonada, dentro de nós.

 

E o homem maneja o fogo - Essa é a grande revolução necessária que exige um arrumar as malas sempre, um estar sempre pronto para partir, um dar-se, rompendo e ultrapassando os limites impostos. Nesse processo revolucionário, o homem, com garantias de satisfações de suas necessidades, alimento, saúde, educação, moradia... abomina o monopólio dos bens, opondo à burocracia e à tecnologia e à tecnocracia e à ciência e aos dogmas estreitos, sem rosto de gente, criando e vivendo o sentido da solidariedade e do amor e da sabedoria e da comunicação.

 

E o homem possui a fala - Assim, contra essa mania nossa de substituição (aqui, todos são substituíveis: operários, professores, maridos, namorados, carros, roupas...) o homem passa a tomar e tornar-se parte, a participar das decisões, porque sabe que qualquer escolha mal feita comprometerá o futuro da humanidade.

 

E a fala edifica o canto - No canto repousa a alma - Da alma depende a calma - E a calma é irmã do simples - E o simples resolve tudo - Mas tudo na vida às vezes - Consiste em não se ter nada - Essa é a grande revolução necessária para que todos celebrem a vida como valor maior. Nesse processo revolucionário, o homem, cada vez mais, esvaziando-se de si mesmo, é habitado pela humanidade e por Deus. O homem, assim, cede o seu lugar para o cultivo do amor. Para nascer a solidariedade. Para brotar a paz. Para crescer a cumplicidade.