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Em Questão

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Décio Bragança 06/03/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Pés divinos do Senhor - O homem só não é nada. Não sabe nada. Não crê em nada. Torna-se homem em contato com os outros homens e com todos os seres vivos e não vivos, tocando os outros homens, rindo com os que riem e chorando com os que choram, descobrindo-se nos outros – a isso dá-se o nome de simpatia ontológica, ou ainda de simpatia cósmica. Isso para dizer que todos os seres se fazem participantes de um mesmo projeto de vida.

 

Que andaram na Judeia - Os sentidos humanos – audição, olfato, tato, visão, paladar – nos colocam em comunhão com todos os seres – o que dá sentido à vida. A comunicação entre todos os seres, as experiências vividas por todos os seres, a multiplicidade de estilos e modos de todos os seres nos impulsionam para ir além, vislumbrar horizontes, navegar mares nunca antes navegados, pisar terras e praias nunca pisadas, abrir caminhos enquanto se caminha.

 

Espalhando Paz e Amor - Queiramos ou não, o homem está radical e profundamente em comunhão com a natureza, com todos os seus seres vivos e não-vivos. Verdadeiramente, o homem não é plenamente humano, homem, ser humano, enquanto não tomar consciência de que é habitado e possuído por um poder incalculável que o faz superar de sua individualidade, na busca da comunidade e da comunhão, da transcendência e da unicidade.

 

Acalmando os feridos - Isso não significa que a individualidade, a comunhão, a comunidade, a transcendência têm sentido de exclusão, de oposição, de contrários, mas que são um só, isto é, percebe-se, por exemplo a transcendência na comunidade, na comunhão, na individualidade e assim por diante. A questão não é excluir, mas perceber, sentir, viver essa relação. A questão não é engavetar, cristalizar, estratificar os conceitos, mas penetrar, usufruir, viver tudo isso com muita intensidade.

 

A tristeza e a dor - A questão não é dicotomizar ou dividir, mas descobrir no amor uma relação indizível, indivisível, uníssona entre todas as coisas e seres. A questão não é de complementaridade, mas de unidade múltipla ou de multiplicidade única, ou ainda o singular no plural ou o plural no singular.

 

Pés formosos - O amor, visto assim, deixa de ser uma simples palavra, mas a razão, o sentido, o fim, a causa da vida, que é sempre relacional. Por isso também o homem é um ser relacional. E não há relações sem amor. E não há amor sem relações. Toda relação é amorosa. Não há verdades absolutas e perfeitas, mas todas as coisas são imprevisíveis, impulsivas, explosivas, implosivas, subversivas, porque o amor é tudo isso e, principalmente inesgotável.

 

Pés benditos - Há, por assim dizer, uma passagem, um limite, uma ruptura, através de um esforço pessoal e um desprendimento de si mesmo, de uma ilusão individual e individualista para uma identificação com um todo. Com o mundo. Com o universo perceptível, mas indivisível; sentido, mas impossível de ser verbalizado; vivido, mas incomunicável, como a fé e o amor. A fé libertadora que une pensamento à ação. O amor salvador que une um homem ao outro homem, a todos os seres e a Deus.

 

Pés feridos - Pensando e agindo pela fé, vivendo em comunhão pelo amor, cria-se o diálogo, a troca, a experiência relacional, a certeza de que cada um tem algo a aprender com tudo e a ensinar ao outro. “Ninguém é tão sábio que nada tem a aprender. Ninguém é tão estúpido que que nada tem a ensinar.” Crentes e amorosos, é possível o encontro dos homens, sempre criador e inesgotável, histórico e transformador.

 

Pés sangrentos de Jesus - Por falta desse encontro verdadeiro e profundo, nascem os problemas. Só há problemas, quando não há homens responsáveis e criativos. Só há problemas, quando o vazio da miséria, a ilusão fugaz do dinheiro, o poder avassalador de ter e consumir ocupam no homem o lugar do outro homem, dos outros seres. Da comunidade. De Deus. Só há problemas, quando se considera a ciência como deusa e salvadora, excluindo a sabedoria que não é um conceito, uma ideia, um dogma, uma lei, mas uma abertura para os possíveis e diferentes e contraditórios modos de ver e de viver o universo.

 

Que no cume do Calvário - Por falta de encontros, a fé e o amor tornam-se conceitos e ideias. Encontrando-se na fé e no amor, os homens partem para a transcendência, talvez, a única e maior revolução.  Essa revolução exige a busca da pluralidade, desprezando as leis fantásticas e demoníacas de mercado e de concorrência que deixam o mundo em pedaços e o homem sem esperança, como nos dias atuais.

 

Os cravaram sobre a cruz - Essa revolução, via fé e amor, exige um projeto (não encontrei outra palavra) para explorar, experimentar, provar, sentir todos os modos possíveis de se viver, além de espectadores e consumidores passivos, como nos dias atuais.

 

Que nos livram do pecado - Essa revolução, por meio da fé e do amor, exige uma celebração contínua e dinâmica da vida que não cessa, que se faz, além dos controles das engenharias genéticas e bombas nucleares ou não, presentes nos dias atuais.

 

E nos levam para a luz - Essa revolução, através da fé e do amor, exige rupturas radicais e posicionamentos conscientes, porque cria condições ainda não contidas no que já existe. Exige uma invenção do futuro, além dos condicionamentos, além da preparação para a ordem existentes, além das exigências políticas e ou técnicas, além dos conhecimentos repetitivos nos livros e nas bocas dos professores, além das dignidades e honrarias, como nos dias atuais.

 

E nos levam para a vida - Essa revolução, somente embasada na fé e no amor, exige um modo criativo, mesmo no meio do caos; afinal, a flor precisa de esterco. Exige uma conscientização de que é possível viver de um modo diferente, além dos governos – manipuladores de consciências, além dos juízes – seguidores de leis, além dos sacerdotes – doutrinadores da vida além morte, além dos patrões exploradores que se enriquecem à custa dos outros.

 

E nos levam para a paz - Essa revolução, construída solidamente na fé e no amor, exige liberdade e possibilidades de participação na criação da realidade menos morte, de um mundo menos árido, de uma comunidade menos legalista, de um homem menos egoísta. Mais uma vez a fé! Mais uma vez o amor! Aqui e agora! Agora e já!