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Em Questão

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Décio Bragança 13/03/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Riem de mim todos aqueles que me veem - Ninguém mais duvida de que há uma comunhão radical e profunda entre todos os seres. O desenvolvimento, como o conhecemos, em vez de resolver os problemas de desigualdades sociais, acentua-os. Em vez de resolver os problemas de emprego, desorganiza a vida, por exemplo, agropastoril, aumenta o desemprego e cria ainda inúmeros cinturões de favelas ao redor dos grandes centros urbanos. Em vez de reduzir a distância entre os países chamados industrializados e os subdesenvolvidos, faz os países ricos ficarem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

 

Torcem os lábios e sacodem a cabeça - Somos um ser no universo. Para filósofos e estudiosos, o homem existe para humanizar a natureza e a natureza para naturalizar o homem. Daí, o diálogo entre homem e natureza, um possível encontro entre homem e natureza. A natureza vive conosco e em nós; nós vivemos com e na natureza. Usar e abusar irresponsavelmente da natureza com todos os seus seres é vilipendiar, vulgarizar, menosprezar, ofender todos os seres humanos e cada um.

 

"Ao Senhor se confiou, ele o liberte - Em verdade, o modelo de desenvolvimento, escolhido por nós, retira dos campos e das fazendas os homens e as mulheres e os leva para a cidade, forçando-os a viver na miséria absoluta e coletiva. A isso se dá o nome de favelização ou, para outros, urbanização. A produção agropecuária tem aumentado, mas a fome e a pobreza têm aumentado na mesma proporção. Produzimos, no Brasil, para a exportação!

 

E agora o salve, se é verdade que ele o ama!" - As desigualdades sociais e econômicas se acentuam. Passamos por um processo muito rápido e inconsequente de industrialização, produzindo também outros problemas, como a poluição do ar, da água. O fato é que o homem não se ama e não pode amar o outro quando destrói, aniquila algum ser da natureza. Nesse sentido, o antropocentrismo também já está fora de moda. O homem não é a medida de todas as coisas, nem o centro do universo, dono de tudo e de todos.

 

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes - Nós não entendemos muito bem aquele: “Crescei-vos, multiplicai-vos e dominai a terra”. A ideia de dominar é destruir, matar, usufruir o máximo, a qualquer preço. O homem que não ama a natureza não se ama. Por que ofender tanto a natureza? O homem não pode ser um rei da natureza, mesmo que isso contrarie a tradição bíblica, porque é por demais ambicioso, ganancioso, um saco sem fundo. Haja vista a corrupção em todos os setores.

 

E ficais longe de meu grito e minha prece? - Não foi fácil para a humanidade chegar até aqui, porque por muitos séculos só tinha um desejo: sobreviver – não morrer (instinto de sobrevivência e preservação). Hoje, a luta é outra: ambição e ganância. Nada mais satisfaz o homem. Um dia, estive com um rapaz – um raquer muito competente – que havia furtado, roubado, saqueado, usurpado mais de 20 milhões de reais das contas correntes. Disse a ele: “Fulano, por que não roubou só 1 milhão e depois fugisse, já que você gosta de roubar? Ninguém mais o encontraria”. Serenamente, ele me confessou: “Professor, eu queria 200 milhões!”

Cães numerosos me rodeiam furiosos - Quantos exageros! Quantos abusos! Quantos desperdícios! Não queremos mais uma casa, mas um punhado. Não queremos mais um automóvel, mais um montão. Tudo do melhor possível. A natureza perde socorro, porque não suporta atender a tantas ambições e ganâncias e cobiças e poderes! A verdade é que estamos criando um mundo artificial, bem distante do que chamamos de natural – a comunhão do homem com todos os seres.

 

E por um bando de malvados fui cercado - A técnica, a ciência, o progresso e o desenvolvimento não podem estar a serviço desse artificialismo. Bem-estar, conforto, boa alimentação e boa morada não podem significar destruição, imoralismos, maldades, violências, agressões. O fato é que o homem criou um desequilíbrio sem igual – o que pode lhe ser fatal. Não sem razão as igrejas do Brasil propõem uma reflexão sobre os cuidados que devem ter com a nossa casa comum, nossa cidade comum, nosso país comum, nosso planeta comum, nosso universo comum.

 

Transpassaram minhas mãos e os meus pés - O homem não precisa de muitas coisas para ser feliz. Novamente volto à teoria dos AS: ar – água – abrigo – agasalho – alimento. A ganância mata os rios e mares, os frutos e as flores, os animais e os campos, as fontes e as cidades, as plantações e os olhos d’água. Perdemos o encanto, o recanto, o canto. Daí as pressões, as repressões, as depressões, as compressões! Mesmo assim não podemos perder a fé e a esperança e o amor.  

 

E eu posso contar todos meus ossos - O destino do homem é o encontro com o outro homem e com todos os seres. O processo de compreensão desse destino não pode vir de fora para dentro, mas sempre nasce no coração do homem, sem nenhuma explicação. Talvez nasça do desejo de ser, de ser mais, de ser melhor. É nos impossível ser, ser mais, ser melhor, sem a presença concreta do outro e de todos os seres. “Outro mundo é possível!” Escuta-se muito, hoje, que estamos passando por uma mudança de paradigmas, de modelos, de dogma, de busca. Não será esse o momento propício para optarmos pela vida em plenitude, em abundância?!

 

Eles repartem entre si as minhas vestes - No fundo, mesmo que isso pareça fantasia, os homens necessitam, precisam, carecem e buscam um colo e um alento, um abraço e uma paz, um aconchego e uma harmonia, que só podem ser dados por uma outra pessoa. “O céu é o outro” – nos ensinou Martin Heidegger (1889 – 1976), contrariando a afirmação de Jean Paul Sartre (1905 – 1980) “O inferno são os outros”.

 

E sorteiam entre eles a minha túnica - O próximo, queiramos ou não, é a mais “próxima” proximidade de Deus. “É a mim que o fizestes!” – para alguns, como eu, a Carta Magna – a Lei Maior de Deus. O outro, queiramos ou não, é a descida de Deus mais próxima. Talvez, isso ainda torna o homem encantado, perplexo, em êxtase, admirado, alegre, feliz.

 

Vós porém, ó meu senhor não fiqueis longe - Deus se explode em todos os seres vivos e não vivos. Vale dizer, então, que todos os seres refletem e revelam e esclarecem e iluminam e clarificam Deus. Muitas vezes, imaginamos um Deus bravo, violento, justo, intangível, legislador, “olho vivo”, juiz que condena, porque assim fomos educados, aculturados, domesticados, domados, condicionados. O pior ainda é que O imaginamos como alguém que interfere, a seu bel prazer, na hora que quiser, no tempo e no espaço. Já cri nesse Deus. Hoje, meu Deus é perdão e ternura, amor e beleza, misericórdia e compaixão absoluta. Continua incompreensível, porque se O compreendermos, não é Deus, como nos ensinou Santo Agostinho.  (354 – 430)

 

Ó minha força, vinde logo em meu socorro! - Na verdade, Deus está muito além de todas as crenças, de todos os ritos, de todas as normas, de todas as bulas, porque a fé e a transcendência são imensuráveis – sem medida alguma. A experiência com Deus ou de Deus não é fenômeno paranormal – parapsicológico, fora de si, mas algo enraizado no mistério, encarnado no tempo e na história, no espaço e na geografia. A isso pode-se chamar de amor de Deus, que está no coração de todas as coisas e de todos os seres. Nada existe separadamente da vida, do amor. Por isso, todos não só se sentem irmãos, mas são irmãos.