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Em Questão

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Décio Bragança 20/03/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Quando a dor te buscar - Como é bom se sentir e ser irmão de todas as coisas. Nesse sentido, não somos só parte, mas a própria totalidade fraterna ou a fraternidade total, traduzida em cooperação, em harmonia, em solidariedade, em companheirismo, em respeito, em cuidado. Por mais absurdo que possa parecer há ainda pessoa que vivem em busca do sucesso e da fama, do dinheiro e do poder. “Outro mundo é possível”!

 

Abre as  portas do coração - O que nunca deve acontecer é a falta de perspectivas e esperanças. Desesperar jamais! O desejo de buscar sempre um sentido é essencial. Sempre haverá uma luz no final do túnel. Sempre encontrará uma vela para ser acesa em noite escura. Mesmo na noite mais escura, não podemos nos sentir sós, abandonados, porque somos, queiramos ou não, somos habitados por muitos seres. É a presença dos outros em mim. É a presença de Deus em mim.

 

Pense nAquele que um dia - Não é preciso um roteiro, um caminho pré-determinado, mas é preciso caminhar, navegar. Somos frágeis, é verdade, mas a nossa fragilidade é que nos faz caminhar. “Em algum lugar é possível ser feliz”. As trevas e as obscuridades, as perplexidades e a escuridão, podem até ser um obstáculo. E daí? Nossas malas estão prontas para partir. Partir é preciso! Desde muito moço gosto de um poema do português José Régio: “...Prefiro escorregar nos becos lamacentos, redemoinhar aos ventos, como farrapos, arrastar os pés sangrentos, a ir por aí... A minha vida é um vendaval que se soltou, é uma onda que se alevantou, é um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, não sei para onde vou. Sei que não vou por aí”!

 

Na cruz demonstrou compaixão - Tudo isso sem a arrogância de alguém que se sente autossuficiente, independente, autônomo, livre. Uma vela que é acesa será uma imensa luz na escuridão. “Você é minha luz”. É a luz que traz o calor e a fé, o abraço e a esperança, a ternura e o amor, o afeto e o encanto, o colo e o aconchego. Se digo que “você é a minha luz” é porque sei das minhas limitações, da minha miséria, da minha pequenez. “O outro é o céu” – repetindo o que Heidegger nos ensinou.

 

Mesmo que tudo  pareça não ter uma solução - O chão se abre para receber a semente. Enquanto o chão não se abrir, é impossível a semente germinar. Fechar o coração é lacrar a possibilidade de ser habitado pelo outro. Assim como a semente germina, cresce, dá fruto e sombra, o outro na minha vida germina, vive, cresce, dá frutos e sombras. Alguns filósofos e pensadores, teólogos e estudiosos, chegam a afirmar que a pior prisão é aquela que cada um se impõe a si mesmo. “Eu me liberto libertando o outro”.

 

Olhe para o alto e O veja estendendo-lhe a mão - O processo de libertação, de transformação exige corações e braços abertos. Muitos corações estão abertos e não são amados e acolhidos. Muitos braços estão abertos e não recebem um abraço. Daí a solidão tão presente nos dias atuais, porque não acolhemos nem somos acolhidos. É muito bom ser abraçado, é muito bom ser amado, mas é muitíssimo melhor amar e abraçar. Quando a gente ajuda o outro, a gente se sente muito mais ajudado. Quando a gente ajuda os outros, deixamos que os outros nos ajudem a partir de nós mesmos.

 

Se uma lágrima quente molhar o teu rosto - O problema é que ainda não temos um modelo de vida digna, correta, agradável, prazerosa, plena, porque queremos explicações e razões de tudo. A flor se abre e perfuma sem se perguntar se deve ou não perfumar. “Vivo porque vivo” – “Amo porque amo”. A vida e o amor não precisam de explicações e ou razões. Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) escreveu um poema: “As sem razões do amor”.

 

Pense: Ele o enxuga e alerta - Por que precisamos de um sistema de certezas, de crenças, de fórmulas, de formas, de dogmas, de ideias, de significados, de sentidos, de interpretações, de ideais, de códigos, de estatutos, de regulamentos, de normas, que escondem interesses e intenções? Muitos dirão para dar segurança! Segurança para quê? Segurança é inimiga número UM de confiança em si mesmo e nos outros. A vida e o amor ultrapassam as palavras, as imagens, os símbolos, os paradigmas. Por isso também temos medo de viver, de amar. Não confiamos porque temos medo. Temos medo até de não ter medo.

 

A fé sempre vence - Cheios de medos, afastamos a alegria, o encantamento de viver, de se estar vivo. “Ser é admirar-se de estar sendo” – nos ensinou Blaise Pascal (1623 – 1662) Aproveitando a citação: vale a pena ler Pascal, ele nunca esteve tão atual. Temos o mau hábito de engavetar, separar corpo e alma, matéria e espírito, emoções e razões, fé e ciência, Deus e os homens, energia e força, entusiasmo e ousadia. Diante de tanta insensatez e corrupção, tenho a certeza de que as pessoas envolvidas em tudo isso não acreditam em Deus. Sartre nos ensinou: “Se Deus não existe, tudo, absolutamente tudo me é permitido”.

 

Levanta-te vai em paz - Ter esperanças não significa ter certezas. Muito pelo contrário, porque ter esperanças é assumir alguns compromissos consigo mesmo e com os outros. Compromisso não é uma conta matemática: 2 + 2 podem ser 5, 7, 0. Para todos os seres vivos e, em especial, para o ser humano todo compromisso tem de ser pela vida. E vida em plenitude. E vida em abundância. Ter esperanças é assim antecipar o futuro, porque tornamos presente o que esperamos. Vemos e vivemos sem muitas esperanças.

 

Assim Ele nos convidou do alto da cruz - Mesmo sabendo que o futuro será sempre incerto, não podemos deixar o futuro para as próximas gerações. Quem decide e, em especial, os legisladores não podem criar e votar leis sem essa perspectiva de futuro. Muitas leis atendem ao maquiavélico jogo de intenções e interesses presentes e muitas vezes próprios. E assim a vida se esvai. Falta-nos confiança! Falta-nos generosidade! Falta-nos sabedoria! Falta-nos disponibilidade de propósitos de fazer o bem e ser bom.

 

Em resposta tratou seu algoz com amor - Quando era bem mais jovem, um frade capuchinho, Frei Paulo Castagna, me ensinou o seguinte: “Imagine-se imortal! Só faça alguma coisa que lhe fará bem daqui a 10, 20, 50, 100, 300, 500 anos”. Hoje, mais experiente, entendo o que me dizia. Talvez, não tenha feito tantas coisas que hoje lamento. Mas não há volta. É para frente que se caminha. Não se trata de arrependimento, mas, talvez, de não ter aproveitado os momentos, os lugares, as pessoas, as coisas.

 

Pediu a Deus perdoasse o povo que o expulsou - Há um outro aforismo bem semelhante a esse ensinamento do frade: “Viva como se morresse amanhã”! Daí a importância de fidelidade a si mesmo! Somos o que amamos. Somos quando amamos. Somos enquanto amamos. Por isso a importância da fidelidade a si mesmo. Essa fidelidade é que nos fazer sentir as feridas, os sofrimentos, as dores dos outros em nós. Não sou sem os outros e os outros não são sem mim. Somo-nos cúmplices.

 

Misericórdia e bondade ELE demonstrou - Sou responsável também pelo destino do outro. Cuidar do outro é também cuidar-se de si mesmo. É deixar-se atrair pelo outro com tudo que tem ou possa ser. Não se escolhe o outro, porque não se trata de ser ou não simpático, mas o direito de todos serem amados, cuidados, perdoados. Nesse sentido, os corações se enchem de confiança, de esperança, de amor e de ternura.