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Em Questão

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Décio Bragança 03/04/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Anda! Quero te dizer nenhum segredo - Conviver é deixar que o coração se encha de confiança, de esperança, de futuro. Conviver é dividir com, por isso cumplicidade. Toda forma de convivência é momento de transformação, de renovação, porque torna cada um de nós mais livre e porque mais livre, mais humano e porque mais humano, mais divino. Não se trata de seguir uma norma, um regulamento, mas criar caminhos, vislumbrar horizontes. As normas, os regulamentos são gestados, geridos no coração de todos e de cada um.

 

Falo nesse chão da nossa casa - Os negros, histórica, ideológica e culturalmente, sempre foram e são submetidos, colocados em situação de inferioridade, simbolicamente representados como força física e trabalho braçal. A elite brasileira sempre se identificou como nação branca, herança de uma colonização europeia. No fundo, consideramos somente a cor da “pele” branca e negra. Os que se aproximam da branca são brancos e os que se aproximam da negra são negros. Esse pensamento dicotômico é fruto da lógica – herança da cultura greco-latina.

 

Vem que está na hora de arrumar - Pensamos em extremos: bem e mal, bonito e feio, alegre e triste. Não conseguimos pensar entre um e outro. Assim, os negros e os que se aproximam da cor da pele sofrem todas as formas de discriminação; e os brancos e os que se aproximam da cor da pele são mais valorizados social e politicamente. O interessante é que muitos que se consideram brancos são vistos pelos outros como negros e vice-versa.

 

Tempo! Quero viver mais duzentos anos - Na realidade, não importa muito como eu me vejo, mas como os outros me veem. E a partir daí a valorização ou discriminação. A percepção – o olhar do outro – depende de como essas pessoas vivem e se relacionam. Por isso, por exemplo, uma pessoa morena que ocupa algum cargo de destaque é considerada branca; mas se ocupa as colunas policiais essa mesma pessoa é considerada negra, hoje, chamada de afrodescendente.

 

Quero não ferir meu semelhante - Com essas ideais sociais perversas, mesmo se algum negro nunca se sentiu discriminado, já está estigmatizado, marcado, excluído, discriminado na cabeça da maioria das pessoas. É bom lembrar que sob o ponto de vista genético, a raça não tem valor científico, porque também o termo raça é construído socialmente. O preconceito racial, portanto, é uma construção que atende aos interesses e intenções de alguns.

 

Nem por isso quero me ferir - Os cientistas constataram que o corpo humano é composto de 41 elementos químicos que agem e reagem entre si constantemente, criando mais de 3 milhões de “peças”. Que máquina! Que mistério! São mais de 7 octilhões (27 zeros) de átomos. São mais de 100 trilhões de células. São 9 sistemas orgânicos. Tudo isso estava no útero de Deus que pariu o homem e a mulher.

 

Vamos precisar de todo mundo - O preconceito é um julgamento de valor. Se temos algum preconceito contra alguma atitude, comportamento, características das pessoas é porque as consideramos de menos valor, de menos utilidade, de menos inteligência. A discriminação é a manifestação, a explicitação do preconceito. Tanto o preconceito quanto a discriminação racial – construídos culturalmente – nasceram com a chegada dos colonizadores europeus no Brasil e no Novo Mundo. O europeu, desde quando aqui chegou, arrogou-se o direito de considerar-se superior, melhor, mais inteligente – o que justificou a dominação. Claro, os indígenas e posteriormente os negros africanos, sem alternativas, se sentiram inferiores, legitimando a escravidão.

 

Para banir do mundo a opressão - Todo processo de avaliação, porque processo, perpassa as noções de tempo: o que foi, o que é, o que será. Essas noções vão alterando os nomes dependendo da natureza do que se está avaliando. Prefiro identificar, caracterizar o passado “O que foi” como herança cultural centralizada na expressão “ver a realidade”. Nada se constrói sem essa percepção da realidade, ou com os pés na realidade. Trocando em miúdos: qualquer reforma para que seja efetivada precisa de que sejam conhecidos os seus alicerces, onde estão as estacas, as colunas, a sapata...

 

Para construir a vida nova - O preconceito e a discriminação foram construídos pelos brancos e foram consentidos pelos negros. Ainda hoje ouve-se alguém dizer que os negros são mais preconceituosos do que os brancos. Que absurdo! Não foram os negros que construíram o preconceito, por isso não podem ser preconceituosos. A formação de uma identidade, de uma brasilidade, passa pela superação de todos os preconceitos. Foram 350 anos de escravidão. Fomos os primeiros a escravizar e os últimos a abolir a escravidão. Isso para dizer que introjetamos no corpo e na alma todas essas ideias preconceituosas.

 

Vamos precisar de muito amor - A etimologia da palavra escritura é latina que significa “coisas escritas”. E o que uma coisa escrita? Um amontoado de palavras que se relacionam entre si, formando frases, orações, períodos, parágrafos, capítulos, livros... Se pegamos uma cédula, o que temos? Um pedaço de papel retangular, com números, figuras, cores.

 

A felicidade mora ao lado - Quando atribuímos valor a essa cédula, vira dinheiro – instrumento de compra e venda. Seremos mais ricos ou menos ricos dependendo de quantos desses pedaços de papel temos no bolso, no banco, debaixo dos colchões, aplicado em bolsa de valores. Um pedaço de papel insignificante de um significado mágico, espetacular. Assim também um livro, uma escritura. Importa a busca de seu significado mágico, misterioso, espetacular!

 

E quem não é tolo pode vê-la - A nossa abolição da escravatura teve muito mais um caráter político que atendeu aos interesses ingleses do que a consolidação da libertação. Em sã consciência, não se admite que os negros, libertados por força de lei, sejam colocados na rua sem absolutamente nada. Sem alternativas, os negros saíram dos campos e vieram para as cidades, iniciando o processo de favelização das cidades.

 

A paz na terra, amor - Os antigos donos dos escravos, além de indenizados pelo governo, não aceitavam os negros livres, agora como trabalhadores, nem os negros livres queriam o trabalho de seus antigos donos. Perdemos a chance de fazer a Reforma Agrária naquele momento. Perdemos o bonde da história. Não houve nenhum plano ou programa ou projeto de integração dos negros na comunidade brasileira.

 

O pé na terra, amor - O problema dos antigos “donos” dos escravos foi resolvido com o processo de imigração proposto pelo governo. O problema dos antigos “escravos” não foi resolvido até hoje. Falar, por exemplo, em cotas nas universidades para negros produz discussões acirradas, obrigando o governo transformar as cotas de negros em cotas sociais. As pessoas desarmaram um pouco os corações e as mentes.