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Em Questão

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Décio Bragança 17/04/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

NÃO GOSTO DE PARTIDO. GOSTO DE INTEIRO - Há muitas gravidezes precoces e indesejáveis. Há muitos abandonos de adolescentes que se engravidam. A pior situação é o abandono de crianças nascidas que têm de ser acolhidas ou por outros familiares ou levadas para alguma instituição social – instituição de acolhimento. Essa acolhida, há alguns anos, era feita por religiosas, freiras, noviças. Hoje, essas mulheres são chamadas de cuidadoras e por alguns de “mães sociais”. Acho essa expressão “mãe social” bem significativa e que realmente traduz a sua função. Mais do que função, uma missão.

 

NÃO QUERO UMA CARA METADE. QUERO A CARA INTEIRA - Uma mudança de atitudes, de ideias e de comportamento é processada aos poucos, bem devagar, porque, desde muito pequenas, as crianças já assimilam os valores e as crenças, os padrões e os modelos de comportamentos consagrados, aceitos, reproduzidos, no mundo simbólico. Em outras palavras, as crianças nascem e vivem num ambiente perverso e excludente que marca decisivamente a sua vida. Quando jovens, começa o processo de libertação que se processa de dentro para fora – um processo altamente doloroso. A libertação acontece quando se tem consciência da própria prisão. São muitas as algemas e amarras.

 

NÃO PRECISO DE MEIAS PALAVRAS. PRECISO DE PALAVRAS INTEIRAS - As crianças acolhidas nas casas-lares terão de ter apoio necessário, para se construírem e ou reconstruírem como ser humano que traz a marca da rejeição e abandono. Muitas instituições não têm nem espaço físico adequado necessário para criar laços, vínculos, relações significativas com pessoas até então estranhas a elas.

 

NÃO CONFIO EM SEREIAS: MEIA MULHER E MEIO PEIXE - O maior desafio, talvez para essas novas “mães sociais” seja transformar o seu espaço num espaço possível de felicidade e de alegria, de reencantamento e sentido pela vida, porque ainda essas instituições são estigmatizadas como um lugar de infelicidade e desespero, de pessimismos e revoltas, de angústias e de tristezas. De desequilíbrios e solidões, de desencantos e desatinos. Não é tarefa fácil a construção de afeto e de ternura – bases da vida infantil.

 

NÃO ACREDITO EM MINOTAURO: METADE CAVALO, METADE HOMEM - O fato é que menos regulamentado o sistema capitalista, maior a barbárie, porque maior a concorrência, maior a selvageria, a brutalidade, a desigualdade. Pior ainda: muitos, iludidos, pregam a adoção da pena de morte, a diminuição da idade penal. Penas mais duras e rigorosas... como se isso resolvesse o problema. Não se combate violência com violência. A violência só mata a esperança e um homem sem esperança, sem perspectivas de futuro, não é homem. É uma besta-fera! É um animal da pior espécie!

 

NÃO DESEJO A VITÓRIA NO PRIMEIRO TEMPO - A adoção é prova de amor, sem dúvida. São vários exemplos espetaculares de vida de crianças adotadas por famílias e por instituições. São, claro, exceções, mas nem por isso deixam de ser situações animadoras. Nem sempre crianças em situações contrárias e adversas têm garantido um destino promissor, já que também o amadurecimento emocional não é automático. Na vida, individual e coletiva, nada está garantido. Tudo tem de ser construído.

 

O TODO NÃO É A SOMA DAS PARTES - Dizer que não somos preconceituosos é uma mentira deslavada. É possível que individualmente você ou eu não sejamos preconceituosos, mas a sociedade em seu todo está estruturada preconceituosamente. Em uma universidade foi feita a seguinte pesquisa: “Você tem preconceito racial?” A grande maioria das respostas – 92% - foi negativa, disse NÃO! Uma semana depois, foi feita a seguinte pergunta: “Você conhece alguém que tenha preconceito racial?” a grande maioria das respostas – 87% - foi positiva, disse SIM. “Não sou, mas conheço e convivo com preconceituosos”. No mínimo, esse resultado é intrigante.

 

A METADE É FINITA; O INTEIRO É INFINITO - Além das “mães sociais”, algumas instituições buscam e criam a ideia do padrinho – marca da figura do masculino na vida das crianças. Etimologicamente, a palavra padrinho está associada também a aspectos religiosos. Raramente. Encontra-se um padrinho sem essa caracterização. No fundo, um padrinho traz a missão de pai espiritual, criada pela Igreja Católica, na ministração do sacramento do Batismo e do Crisma. Um padrinho, na realidade, é um segundo pai – responsável pela educação, pelo cuidado na ausência do pai biológico – primeiro pai.

 

SE PARTIDO FOSSE BOM - A educação de qualidade é o único caminho para a construção de uma nova sociedade com novos homens e novas mulheres. Não existe outro caminho. Os ânimos se acirram mais ainda quando se fala em educação de qualidade. E por quê? O discurso pedagógico é conservador, porque prega a racionalidade e lógica em detrimento da subjetividade e a liberdade de expressão; despreza a diversidade cultural e o pluralismo de ideias e crenças; apregoa a supremacia do capital sobre os recursos humanos, sociais e ambientais; advoga o direito à propriedade mais importante do que o direito à vida e à saúde; propõe uma economia de mercado, gerida pela “mão invisível”, transformando tudo em mercadoria pronta para o consumo; cria necessidade do supérfluo para que se consuma mais e mais coisas e objetos inúteis; menospreza os conceitos de cidadania, de humanidade, caracterizando-as como bobeira e besteira; reforça as ideias de dominação e poder, através de canções e artes descomprometidas com os valores sociais; unifica programas e grades curriculares, conteúdos e avaliações sistêmicas, como se todos tivessem as mesmas capacidades e potencialidades...

 

NÃO SERIA PARTIDO - Toda criança e também todo ser humano precisam de um ninho, de um ombro, de ternura, de amparo, de apoio. Hoje, via internet, existe também a figura de padrinho anônimo, isto é, padrinho e afilhado não se conhecem, mas o padrinho mantém uma ajuda financeira à instituição. Não é o ideal, mas toda ajuda é importante. Não há uma relação de afeto “presencial”, mas as crianças sabem da existência desses padrinhos.

 

SERIA INTEIRO - Em algumas datas festivas, padrinhos e afilhados comemoram juntos sem que um seja apresentado ao outro, se assim é a vontade do padrinho. Existem muitos padrinhos nessa situação de “anonimato”. “Que sua mão esquerda não fique sabendo o que sua direita faz”. Essa ajuda mantém muitas casas de acolhida em funcionamento.

 

SER OU NÃO SER, NÃO QUERO SER PARTIDO - Mais intrigante, angustiante e cruel é quando os brancos, altamente preconceituosos, alegam que a pobreza e a miséria a que estão submetidos é responsabilidade e culpa dos próprios negros, como se as condições socioeconômicas, as oportunidades e chances fossem iguais para uns e para outros. Como professor, sempre entendi a educação como processo de libertação, de transformação social, mas, muitas vezes, é instrumento de opressão, usado para deixar as coisas como estão, confirmando as mazelas da própria sociedade. “Além de negro, é pobre” – “Além de pobre, é negro” – quanta violência e maldade!