Busque em todas as seções:
EDIÇÕES ANTERIORES: anteriores

Em Questão

ACESSIBILIDADE: A A A A
Décio Bragança 24/04/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Ai, palavras, ai palavras - Em algumas situações, o padrinho torna-se pai adotivo. Por força de lei, o ECA – Estatuto da Criança e Adolescente – prevê que toda acolhida é provisória – o que estimula a adoção. Crianças de menor idade têm possibilidades maiores de adoção – possibilidade de formação de uma nova família. Em muitas cidades, o número de pessoas que querem adotar é maior do que crianças para serem adotadas. E por que o processo de adoção não se efetiva?

 

Que estranha potência, a vossa! - A adoção é envolta em muitas questões: qual é o momento ideal de adoção? Todos os membros da família adotante estão de acordo com essa nova situação? Que influências essas crianças já sofreram ou já experimentaram? As cargas genéticas dessas crianças são permanentes? Quem nasce torto, morre torto? A herança será dividida com a criança adotada? Qual será a reação dos outros membros da família?

 

Sois o vento, ides no vento - O maior problema é que quem está disposto a adotar impõe algumas condições: crianças até 3 anos de idade; de cor branca; sadia, sem nenhuma deficiência física e/ou mental. Em outras palavras, os futuros pais adotivos querem um filho ideal, perfeito, inteligente, que não lhes criem tantos problemas e trabalho. Está errado? Está certo? Não quero fazer essa reflexão aqui e agora.

 

E, em tão rápida existência - Os juízes não determinam imediatamente a adoção, porque sabe que a adoção tem de ser construída e curtida por todos da família. Aconselham primeiramente o apadrinhamento: a criança passa, por exemplo, os fins de semana com a nova família – período de acolhimento que poderá ou não dar certo. Claro, os adotantes desejam que esse apadrinhamento possa tornar-se adoção, mas na maioria dos casos isso não acontece.

 

Tudo se forma e transforma! -Quando falamos em Escrituras Sagradas estamos dando sentido, valor, significado a voz, a fala, a palavra de Deus nas nossas vidas. A cédula em si não tem valor. A escritura em si não tem valor. Se tem valor é porque lhe damos valor, em comunidade, em grupos de pessoas. Uma cédula não tem o valor que quero lhe atribuir. O valor é combinado socialmente, acordado coletivamente. Uma palavra também não tem significado, não tem o sentido que quero lhe dar. Tudo, na realidade, é combinado social e coletivamente. Da mesma maneira “funcionam” as Sagradas Escrituras.

 

E quedais, com sorte nova! - Os cuidadores “profissionais” – mães sociais – dessas crianças que, quando percebem que esse apadrinhamento tem possibilidade de não dar certo, não seja uma ruptura brusca, porque pode trazer para a criança uma novo “segundo” sentimento de abandono, se preparam e preparam o coração para um novo desafio: como explicar isso à criança? O apadrinhamento é sempre informal, isto é não tem nada registrado na Vara da Infância e da Juventude. 

 

Todo o sentido da vida - Alguns padrinhos estrangeiros não colocam restrição alguma para adoção – o que, no mínimo, é também muito estranho. Por quê? Os estudiosos alegam que não há outra intenção a não ser aumentar o número de membros de suas famílias. As famílias brasileiras ainda são muito grandes e por isso a intenção é outra. Uma adoção por estrangeiros, por força de lei, traz mais dificuldades, já que a prioridade é a adoção por pessoas dentro da mesma família, do mesmo município, do mesmo estado, do mesmo país. Uma adoção internacional é a última possibilidade! Infelizmente, estão contrabandeando crianças para adoção ou até para transplante de órgãos.

 

Principia à vossa porta - A adoção é sempre um ato formal, com registro na Vara da Infância e Juventude. Um dia, um juiz que adotou duas crianças me disse: “Quando você adota é como se você comprasse problemas”. Por experiência própria, aconselha um apadrinhamento anônimo, sem que o padrinho e a criança se conheçam. Quando padrinho e criança se conhecem de certa maneira são criados alguns vínculos e muito sentimentos até contraditórios se cruzam. De um lado, a pressão da criança/ de outro, a piedade e a compaixão do padrinho.

 

O mel do amor cristaliza - A escola poderia ser um espaço privilegiado de ajuda do processo libertador. Infelizmente, a escola, firma, afirma e reafirma o modelo de discriminação e preconceitos. Infelizmente, a escola, reproduz os mesmos valores e crenças da sociedade em que está inserida. Tal sociedade, tal escola. Se pudéssemos fazer uma análise profunda e aprofundada dos livros didáticos adotados, veríamos ou perceberíamos que eles também alimentam os muitos preconceitos.

 

Seu perfume em vossa rosa - Em todas as casas-lares, orfanatos e outras instituições afins, as mães-sociais fazem um trabalho silencioso e divino, porque, na realidade, todas as crianças têm problemas, uns mais sérios e outros menos sérios: rendimento escolar, sem noções de higiene e cuidados com o próprio corpo, reações agressivas – experiências anteriores, descontrole emocional – o que é próprio de todas as crianças. Não é uma tarefa fácil dessas mães-sociais, profissionais que não escolhem que criança deseja cuidar. Recebem todas.

 

Sois o sonho e sois audácia, calúnia, fúria, derrota - Uma adoção tem de passar por todos os trâmites jurídicos e o adotante firma compromissos com o adotado; o apadrinhamento é espontâneo, livre, sem compromisso algum com o afilhado. Isso não é bom nem para as instituições que acolhem as crianças, nem para as próprias crianças – um novo sofrimento causado por um novo possível abandono. Não há respaldo legal para o apadrinhamento que poderia ser o caminho legal para a adoção. Por isso, as instituições preferem uma ajuda financeira “anônima” sem a criação de vínculos com uma determinada criança, mas com todas indistintamente. É um caminho para dar fim ao apadrinhamento.


A liberdade das almas, ai! com letras se elabora - As casas-lares não têm caráter permanente até por força do ECA – Estatuto de Criança e Adolescente. E o que essas crianças pensam e sentem nessas casas-lares? Um espaço de confinamento? Um espaço possível de reconstrução da intimidade, da subjetividade? Um espaço de ser feliz?

 

E dos venenos humanos sois a mais fina retorta - Vale ressaltar que também os professores das séries e anos iniciais não aprenderam e não sabem lidar com os problemas e conflitos sociais. Na realidade, a escola ao se omitir diante dos problemas sociais e étnicos, confirma a estratificação da sociedade. Nossa escola não é libertadora, nem propicia libertação, por isso irresponsável. A escola está muito mais preocupada com o ensino – e ainda faz mal – do que a socialização, a convivência – a arte de viver em sociedade.

 

Frágil como o vidro e mais que o são poderosa! - O adotante idealiza uma relação amorosa, feliz com a criança que também idealiza a possibilidade de ainda ser feliz. Essa idealização de ambos, possivelmente, nunca se efetive, nunca se concretize. Nessa idealização há um jogo de sedução de ambos: um tenta conquistar o carinho e o afeto do outro. Só que as coisas não são assim tão fáceis, porque há muitas dores e sofrimentos de alma. A questão não é física, biológica. Talvez, dores e sofrimentos da alma não tenham fim, nem cura, nem tratamento.

Reis, impérios, povos, tempos, pelo vosso impulso rodam - A carência das crianças é muito grande – o que provoca uma comoção social, desperta o sentimento de solidariedade que se mistura com piedade, com compaixão. Para as crianças a construção de afetos e ternuras é mais dolorosa e difícil. Não se trata simplesmente de substituir a figura de um pai, ou de uma mãe, ou dos dois. Sabemos que é impossível essa substituição. Daí é preciso construir um novo modo e jeito de viver. Quem não vive nessa situação acredita que se trata de substituição – o que não é verdadeiro. “Um novo amor cura a dor de um amor anterior” – o que também não é verdadeiro. A dor de um amor não tem cura – o que não significa que não se pode amar novamente.