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Em Questão

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Décio Bragança 15/05/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Pelo alimento diário em nossas mesas - Há necessidade máxima de nos escutarmos reciprocamente. Temos pouco tempo para nós mesmos e muito menos ainda para o outro. Falta-nos colo e ombro amigo, abraços e afetos. A escuta é o caminho mais rápido para a compreensão – partilha das experiências e vivências. Somos o que nos vemos e somos também como o outro nos vê. O outro é o meu limite, sim, mas poderá ser também a minha possibilidade de me concretizar, de me realizar.

 

Pela nossa saúde e de nossos familiares - A vida humana na terra, em todos os tempos e lugares, é investigada exaustivamente por todas as áreas do conhecimento. Com a fragmentação das ciências – especializações necessárias para um determinado tempo e lugar – os pesquisadores e estudiosos são obrigados, hoje, a buscar a interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade para explicar ou simplesmente entender alguns fenômenos humanos e sociais. O sentido das coisas necessariamente não está nas próprias coisas. Que valor tem uma cédula? Absolutamente nenhum, porque é um pedaço de papel colorido. O que dá sentido é o valor que atribuímos a ele, em sociedade, por convenção e acordos sociais.

 

Pelo trabalho digno a todas as pessoas - Muitos podem estar pensando que não podemos perder assim tanto tempo, que temos de trabalhar para sobreviver. O problema é que quanto mais se trabalha, menos se vive, menos se curte, menos se ama. O trabalho é o terceiro momento: para os outros. É preciso urgentemente reconstruirmos as noções de trabalho, de amor, de ociosidade, de responsabilidade. A felicidade é uma conquista. Quem é feliz, não nasceu feliz, mas se fez feliz.

 

Pelo amor fraternal nos corações - O estudo, a pesquisa, a reflexão são os caminhos de revelação do valor das coisas e dos sentimentos. A filosofia, por excelência, é a ciência dos porquês e dos para quês, das causas e dos efeitos. Por que justiça? Para que justiça? Por que e para que Deus? Por que e para que a escola? Por que e para que o governo? Por que e para que o amor? Por que e para que a sociedade? Por que e para que a arte? Por que e para que as famílias? As respostas não são definitivas porque tudo é construído, reconstruído, conquistado, desejado, coletivamente. Daí Freud ter criado as teorias do subconsciente coletivo.

 

Pela luz espiritual para nos livrar das trevas - Vivemos num mundo cheio de desafios e exigências. Que bom! Por isso mesmo temos de ser mais fortes e mais práticos. Muitas desordens e confusões no âmbito político, econômico, social, cultural só poderão ser amenizadas, minimizadas com o coração e mente aberta, sem preconceitos e com muita tolerância. Nada disso é tarefa fácil, tamanha as propostas indecentes de mundo onde a mediocridade e mesquinhez são metas.

 

Pela coragem para enfrentarmos as batalhas - Platão, Sócrates, Aristóteles, Nietzsche, Maquiavel, Rousseau, Hobbes, Sartre, Habermas e tantos outros se debruçaram incansavelmente para entender o ser humano sob o ponto de vista individual e pessoal, social e coletivo – Eu e Nós. Fazer uma seleção de pensadores e filósofos não é tarefa fácil porque sempre se corre o risco de excluir ou incluir alguns com os quais concordamos ou discordamos simplesmente. Trocando em miúdos, muitos economistas e políticos discordam de Marx sem nunca tê-lo lido. Marx é leitura obrigatória para compor o entendimento do homem social, do homem político, do homem econômico. Da mesma maneira, muitos cristãos “odeiam” os muçulmanos, sem nunca ter lido o Corão – Alcorão. Assim, vamos construindo as noções de valores e pecados, virtudes e crimes.

 

Pela fé para superarmos as barreiras do mundo - “Ganharás o pão com o suor do rosto” – essa tradição cristã, o ocidente, nos impede até de ter prazer no trabalho. Na nossa cabeça, o trabalho, porque castigo de Deus, tem de ser penoso, difícil, doloroso, dolorido, sofrido. Lugar de trabalho não é lugar de alegria, de felicidade, pensamos. Muitos odeiam o que fazem e não têm coragem de dizer: basta! Chega! Não! Usam sempre os mesmos argumentos: “Tenho de pagar as minhas contas!” Muitos fazem isso direitinho e morrem.

 

Pelos amigos que conquistamos ao longo da vida - Um dia, um professor de Filosofia apresentava aos alunos Jean Paul Sartre. Cinco minutos de aula, um estudante que nunca tinha ouvido falar de Sartre, esbravejou: “Não gosto desse cara aí, não!” com que facilidade concordamos ou discordamos! Darcy Ribeiro chama a isso de ingenuidade. Para ele, o grande problema do Brasil não é a pobreza e a fome, a concentração de rendas e falta de oportunidades, mas a ingenuidade – não pensar com a própria cabeça, ir na onda, estar na onda. Estamos vivendo a cultura do imediato – aqui e agora; a cultura da obsolescência – amanhã não preciso mais disso; a cultura do miojo – tudo feito em três minutos; a cultura do consumo – tudo virou mercadoria.

 

Pelos inimigos que nos fazem crescer e fortalecer - Perder a esperança jamais. Se preciso for, começar tudo de novo! Podemos enfrentar os desafios sem angústia, sem medo, sem muitas perturbações. O hedonismo está aqui com toda a sua força e energia. O narcisismo está aqui com toda a sua garra e luzes. Esse hedonismo e narcisismo nos impõem o individualismo – fazer o mundo girar à minha volta. “Eu sou o maior, o mais belo, o mais inteligente, o mais forte, o mais gostoso!”  Nasce daí a indiferença, o desprezo. “Não aceito ninguém diferente de mim” – “Ou está comigo ou está contra mim!”

 

Pelas derrotas que nos ensinam a ser mais humildes - Discordar, não aceitar, duvidar, questionar, inquerir é bom para o avanço do conhecimento e da ciência. Não se trata de discordar por discordar, mas ao discordar buscarem-se novas respostas, novos projetos, novos programas. “Só acredito em Deus, por que um dia discordei dEle”. A busca de respostas de algum valor, de algum sentido e significado para a vida dos homens é importante para a construção, se é que isso é o que queremos: uma nova humanidade com novos homens e novas mulheres – a utopia. Sem utopia, não há projetos nem futuro.

 

Por todas as nossas vitórias - O amor a Deus, aos outros e a si mesmo, talvez seja o único caminho da felicidade. O amor aqui traduzido em encanto e encantamento pela vida. O pior do amor é sentir-se rejeitado por Deus, pelos outros e por si mesmo. O amor dá sentido, significado às coisas que fazemos, porque só assim nos sentimos amados. O amor é algo tão absurdamente maior do que nós e por isso pouco sabemos do que é capaz um homem que ama: vive, mata, morre, desequilibra-se, desespera, cai, grita, chora, suicida-se por amor e de amor.

 

Pelo maravilhoso Dom da vida - Uma pergunta traz em si mesma muitas possibilidades, muitas respostas, muitos caminhos quando se trata de ciências humanas e ou sociais. A melhor resposta nem sempre é a mais viável, dadas as circunstâncias. O que é justiça? O que é o amor? O que é a vida? O que é a morte? Essas e outras perguntas são inquietantes, mas necessárias para se viver numa sociedade decente, em que os direitos de todos e de cada um são respeitados, em que a dignidade humana seja seu objetivo, meta, estratégia, missão.