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Em Questão

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Décio Bragança 29/05/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

AQUI - Herói é, hoje, uma palavra perigosa, porque é herói quem propõe um rompimento com o instituído, com o legal, conforme as normas do sistema. Romper, como Jesus Cristo, contra o totalitarismo dos sacerdotes e dos romanos que impunham alienações. Herói é quem não se funda nem no “eu” individualizado, nem numa ideia ou conceito desencarnado no tempo e no espaço, estimulando o desabrochar de relações entre os homens e Deus.

 

JÁ - Individualmente a tendência das pessoas é não admitir o seu erro, mas admite o erro de todas as outras pessoas. Fomos educados para arranjar um culpado, desde o tempo do Jardim do Éden. Talvez, até como forma de defesa, sempre vamos dizer que tínhamos razão, que não mentimos, que não erramos. Uma sala de aula é um bom exercício para isso e para nos desarmarmos dessa cultura. “Eu erro, logo sou”.

 

HOJE - O ambiente – lugar onde estamos – é fundamental na construção da felicidade, que se reflete no corpo das pessoas. Experiências espetaculares estão sendo feitas: dois pacientes com a mesma doença colocados em ambientes diferentes. Um – uma cama, paredes brancas e uma pequena janela; outro – uma cama, paredes com paisagens coloridas e uma janela maior. Essa experiência foi feita repetidas vezes para se chegar à conclusão que os pacientes, todos, num ambiente colorido e aberto se recuperam mais rapidamente usam menos medicamentos. Observe, então, a força e a energia do ambiente! Mesma situação acontece com nossas casas, nossas escolas, nossas igrejas, nossas empresas... Isso para dizer que o ambiente é parte importante de nossa maior ou menor felicidade.

 

ALI - Herói é quem consegue perceber o crescimento na descentralização da produção, na descentralização da cultura e da educação e não em hierarquias, em verticalidade e, em consequência, nas submissões. Herói é quem sente que a política não é mais uma prática de dominação e manipulação, ou um acesso ao poder e a permanência nele, ou uma estratégia eleitoreira, sem se preocupar com a harmonia, com o equilíbrio entre os homens e toda a sociedade e comunidades.

 

LÁ - Sensibilidade, intuições, emoção, entusiasmo nos trazem momentos e situações nunca enfrentadas antes. Dizem que ver o mundo como ele é não tem nada de novo. A novidade, o eureca, a descoberta é ver o mundo como ele não é. Essa é a maior riqueza do ser humano – sua subjetividade, sua eudade. Talvez, hoje, a escola seja o último espaço de subjetividade.

 

AGORA - Numa sociedade capitalista, consumista, egoísta, individualista, pensamos que tudo pode ser resolvido, comprando. “É impossível ser feliz sozinho”. Nesse sentido, felicidade é cumplicidade, companheirismo, compromisso com o outro. “Sou para mim e sou para os outros”. Numa sociedade narcisista – rodeada de espelhos por todos os lados que refletem somente o mesmo indivíduo – a felicidade é uma tarefa, um desafio muito maior. O espelho durante todo o tempo nos traz a sensação de abandono, de desprezo, de solidão, de desamparo. Como Narciso, as possibilidades de encontro com o outro são mínimas. “Não é bom que o homem esteja só” – palavras de Deus ao criar Eva – o outro para Adão.

 

SEMPRE - Herói é quem sabe que a ideia de empresa não é uma ideia de hierarquia e autoridade sempre inflexível e intangível e imutável e vitalícia, despreocupando-se cm o ser-mais para o ser-melhor do homem e da comunidade. Herói é quem abre perspectivas de todos os homens e cada homem serem criadores ativos de uma sociedade livre de dominações e explorações.

 

NUNCA - As escolas tanto na zona rural quanto urbana estão explorando muito pouco a criatividade humana – um potencial incrível para, inclusive solução de problemas. Uma pessoa criativa está preparada para o futuro, para o inusitado, o inesperado, o inédito, porque assim é o futuro. Quando nascemos, é impossível a quem quer que seja prever o que irá acontecer daqui a 5, 20, 40, 80, 100 anos. Nesse sentido, a escola é a única instituição capaz de dar condições de preparação para o futuro, tendo como propósitos a criticidade - o que é bom e o que é mal - e a criatividade - o destino perseguido, a utopia.

 

TALVEZ - Acredito que o problema não é o dinheiro em si, mas as consequências ideológicas que o acompanham. Dinheiro tem de ser visto, entendido, apreendido como meio e nunca como fim. Como não estamos sendo educados assim, porque todos nós queremos mesmo é ficar ricos, com as ideias de dominação, de poder, de bens, de aquisição de bens, de materialismo – a felicidade vai ficando mais distante. Se encontrarmos, por exemplo, um médico que não tenha o objetivo primeiro e único de ganhar, nós o consideramos um bocó, um bobo, um idiota, bobão, babão, débil, louco. “O mundo é dos espertos” – “O mundo é dos vivos”.

 

JAMAIS - Herói é quem percebe que o diploma de um curso superior não é título de lucro, de poder, de comando, desprezando os serviços manuais, mas, como fermento na massa, serve à comunidade, inventando e descobrindo e criando o futuro. Herói é quem sabe que a produção agrícola é de utilidade social e não para proveito pessoal e que a terra tem uma função social de uso e não para especular preços e ter um lucro fácil.

 

SOMENTE - Educar para o imprevisível é a meta de uma escola criativa. A maioria das escolas, porque preparatória para exames e provas mata a criatividade de seus professores e de seus alunos. Criatividade para quê? Sem respostas claras, as escolas partem para a reprodução, repetição, devolução do já conhecido, do já sabido. Claro, a alfabetização tem de ser o primeiro passo, porque o mundo se abre através da leitura.

 

APENAS - As pesquisas científicas têm avançado geometricamente. Há hoje inclusive medicamentos de última geração que tornam as pessoas menos infelizes. Não há ainda a pílula da felicidade, mas pílulas de menos infelicidade. “Rir ainda é o melhor remédio”. Rir, aqui, significa perceber e valorizar o que as pessoas têm de bom, o que têm de verdadeiro, o que têm de belo. Bem – verdade – beleza são os pré-requisitos para a construção de um herói de um romance, de um protagonista de um filme. No fundo, são as três virtudes que gostaríamos de ter.

 

CÁ - Herói é quem, em meio a este caos e desonra, percebe ainda razões de viver um futuro melhor e mais humano e poder ter chances e oportunidades de construí-lo. Herói é quem realiza um novo possível modo de viver, diferente do de agora, sem poderes delegados, sem governos submetidos a grupos de pressão, sem partidos com projetos pessoais, sem leis que protegem os poderosos, sem escolas que confirmam as desigualdades.

 

ESTE - “Ler é mais importante do que estudar” nos ensinou o grande educador Darcy Ribeiro. A escola não quer correr riscos, por isso segue as orientações e obrigações do MEC e das Secretarias de Educação. Mesmo porque dependendo do resultado dos exames, os professores estão sendo avaliados. Semelhante ao que disse Rousseau: “Todas as crianças nascem boas e a sociedade é que as estraga”, Picasso estava convicto de que “todas crianças nascem artistas e as escolas é que atrapalham”. Realmente, muitas escolas estão enterrando talentos.

 

ESSE - Além do abandono – doença da alma – muitas crianças se veem como quem está numa vitrine, ou numa sessão de leilão, ou um objeto de desejo, ou uma mercadoria nas casas-lares que recebem muitas pessoas de bem, que querem adotar. Qualquer forma de relacionamento é um desafio, porque o outro poderá ser o céu, conforme Heidegger (1889 – 1976), ou o inferno conforme Sartre (1905 – 1980). O outro é, sim, um limite! 

 

AQUELE - Herói é quem demonstra ser possível mudar a sociedade, incluindo as aspirações de todos, propondo o amor como princípio, a paz como justiça.