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Em Questão

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Décio Bragança 05/06/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

PAÍS TORTO - Vivemos momentos de aflição. Todos os valores verdadeiramente humanos estão em pedaços por nossa incompetência e decisões. Os políticos e legisladores e professores e juristas vão se desmoronando dos tronos que até então eram vitalícios e permanentes. Há uma decomposição, uma desconstrução política, cada um dizendo uma coisa diferente ou desmentindo o que foi dito anteriormente, não conseguindo a manutenção da ordem e da autoridade.

 

ESTADO TORTO - Ninguém, em sã consciência, numa reforma de sua casa, derruba e/ou levanta paredes onde quiser. Tudo tem de ser planejado, a partir de uma avaliação anterior. Depois do processo de verificação, de observação da realidade, vem a fase de julgamento – análise de valores e de princípios, cumprimentos dos objetivos e da missão. Uma empresa de qualquer natureza, assim como a vida de cada um, dá oportunidades de crescimento e de desenvolvimento, até quem sabe chegar à perfeição.

 

MUNICÍPIO TORTO - Há uma desordem econômica, com preços vacilantes, tendo por consequência o agravamento das injustiças sociais em proveito de alguns poucos. Há uma proliferação de cismas e crenças e credos religiosos, beneficiando os exploradores da fé popular. Há uma confusão generalizada de poder nas repartições, nas empresas, nas universidades.

 

CIDADE TORTA - Uma maternidade, uma paternidade, uma gravidez precoce e não desejada são limites, sim. Necessariamente, o conceito de limite esbarra no conceito de problemas, obstáculos, crises. A consciência do limite é amadurecimento, sem dúvida. A falta de consciência do limite é ingenuidade, com certeza. A consciência ou não do limite traz o conceito de responsabilidade ou irresponsabilidade.

 

RUA TORTA - Vivemos momentos de crises – o que é bom – mas perigoso. Bom, porque, na crise, nasce a luz, o caminho, a verdade. Perigoso, porque, na crise, com a civilização e sociedade naufragando no caos, podem surgir os salvadores da pátria, os enganadores, os aproveitadores, os cata-votos, dando um novo rosto às pessoas acabrunhadas e infelizes.

 

CASA TORTA - A melhor metáfora é a imagem da semente. Lança-se uma semente à terra que pode germinar, começar a crescer, não resistir às circunstâncias ambientais e morrer. Lança-se uma nova semente à terra que poderá ou não germinar dependendo do ambiente. Isso para dizer que a criação de uma nova família também não é a garantia de que haverá crescimento das sementes. Esse é o risco da adoção. Um assistente social – como um agrônomo – é fundamental para examinar as condições da terra em que será lançada uma nova semente, ou uma muda já um pouco desenvolvida, em processo de desenvolvimento.

 

LINHA TORTA - Vivemos momentos de angústia, principalmente para restaurar a responsabilidade pessoal sem delegar poderes a quem quer que seja. Para definir o sentido das coisas e da vida, sem filosofias e ideologias. Para participar ativamente da construção do novo. Do inédito. Do diferente. Para o homem se afirmar e firmar na liberdade, na solidariedade, vencendo as barreiras da avareza e da ganância. Do poder e do consumo. Para o homem se buscar e se encontrar como homem – ser integrante da natureza.

 

SOL TORTO - A criança traz imagens fortes, vinda da alma, da mãe, da madrasta, da mãe-social, assim como o de abandono e desprezo. O que pensa a criança acerca desses sujeitos na sua vida? O interessante é que essas imagens não se misturam, ou uma substitui a outra: os papeis são bem definidos. Os números não são oficiais, mas fala-se, estima-se que há mais de 200 mil crianças na espera de adoção. Vale dizer, então, que há muito abandono e desprezo.

 

LUA TORTA - Vivemos momentos de insegurança; é hora de o homem escolher e viver o amor, como nunca foi vivido ainda. Aquele amor tão perfeito que um amante vira para o outro e diz: OH! EU! “Como se arrancasse os seus olhos e colocasse-os no lugar dos meus e você arrancasse os meus e colocasse-os no lugar dos seus. E assim, eu o veria com os seus olhos e você me veria com os meus”. Ou ainda como diz Chico Buarque na música “Eu te amo” – perder a noção da hora, não saber com que pernas andar, mudar o sangue de veia, seu sangue correr nas minhas veias e o meu sangue correr nas suas veias. Ou mais ainda, escutar com o ouvido com o que você escuta, pegar com a mão com que você pega, amar com o coração com que você ama.

 

DEUS TORTO - Conhecer textos sagrados sem a percepção do divino na vida dos homens, deixam de ser sagrados. São apenas textos. Conhecer textos sagrados na expectativa e perspectiva do divino na história e na vida das pessoas pode constituir um problema, porque estamos vivendo numa comunidade em que o sagrado e o divino tê3m pouco valor. Quem está preocupado com o sagrado, com o divino, quando as nossas metas e desejos são o sucesso, a fama, o dinheiro, o poder? Quem está preocupado com o divino, quando as nossas intenções e interesses são o desejo incontido de comprar e consumir, consumir e comprar? Qual a utilidade “prática” de ler ou conhecer os textos bíblicos?

 

ESCOLA TORTA - Vivemos momentos de decisões, por isso momentos de união para aumentar a força e a energia de nosso corpo, de nosso coração e braços, de nossas pernas e ombros. É hora de despertar no homem a consciência de que é parte do universo e por isso a relação dele com o outro, dele com Deus, dele cm o universo, é e será sempre uma relação amorosa. A relação amorosa não pressupõe a exclusão da multiplicidade de seres, de sentimentos, de quereres, de anseios, muito pelo contrário, aprimora as diferenças na unicidade, na unidade do universo. O uno universo se revela através do muito múltiplo, onde todos os seres e todos os níveis da realidade são interdependentes.

 

FAMÍLIA TORTA - Como exigir bom comportamento, socialmente aceito, de 200 mil crianças à espera de colo, de carinho, de ombro, de adoção? Quais as perspectivas de quem experimentou a “miséria” – a desgraça humana de abandono e desprezo? Quem pega no chifre dos bois são as mães-sociais, tão pouco valorizadas pela sociedade, por nós mesmos. A maioria das crianças, quando adultas, valorizam muito o trabalho dessas mães, porque, na realidade, foi-lhes a única experiência positiva: amparo na dor e no sofrimento, na solidão e nas perdas da alma.

 

VIDA TORTA - Vivemos momentos de esperança. É hora de o homem perceber que a ciência, as artes, o saber, o governo são meios, são caminhos, são roteiros para o homem viver em maior harmonia, maior amor, maior paz. É hora de o homem redefinir suas posições, considerando que o povo é maior do que o governo, que a justiça é maior do que as leis, que o amor é maior do que o casamento, que Deus é maior do que religiões, que o saber é maior do que as escolas e que o governo, as leis, o casamento, as religiões, as escolas estão a serviço do homem para libertá-lo, para fazê-lo feliz e viver como ser humano, respeitado e amado.

 

VOCÊ TORTO - Tudo no fundo é questão de credibilidade de quem dirige as muitas instituições sociais. Depois da morte de um Chico Xavier, de uma irmã Dulce, de uma Aparecida do Pênfigo, de uma Teresa de Calcutá... diminuíram as ajudas voluntárias e anônimas. Muitas dessas instituições passam por alguns problemas financeiros. O problema persiste: muitos lucraram, ficaram ricos, se locupletaram com a desgraça dos outros. Há assim uma questão de confiança e de credibilidade. Daí a necessidade de muita transparência e profissionalismo de quem cuida de instituições sociais.

 

EU TORTO - Vivemos momentos de reflexão. É hora de fazer despertar em nós forças capazes de transformar a natureza e a sociedade para torná-las mais humanas, dando-lhes sentido pleno, rompendo a ordem estabelecida dos ricos contra os pobres, dos poderosos contra os oprimidos, estimulando o progresso das ciências contra as superstições, trabalhando para as satisfações de todas as carências. É hora de caminhar. É hora de partir. Para onde? “O homem faz o seu caminho, enquanto caminha”.