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Décio Bragança 26/05/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
O amor talvez é como o sol, nas trevas de alguém

Ninguém mais duvida de que tudo em sociedade é construído, cultural e historicamente. Não existe acaso, nem destino. Tudo traz em si intenções e interesses sociais, econômicos, políticos de grupos e de pessoas. A sociedade brasileira é marcada por profundas desigualdades, comprometendo os alicerces de uma sociedade sadia e sustentável, solidária e desenvolvida. O Estado Brasileiro tem muitas responsabilidades, mas muitas vezes fecha os olhos e os ouvidos aos clamores das pessoas. 

O amor é dar abrigo, se a tempestade vem

Governo existe para cuidar das pessoas e, se assim não o fizer, é inútil, desnecessário. Vira e mexe, nos sentimos à beira de um caos tamanho por causa do desleixo e o abandono dos governos, municipal, estadual e federal, em relação às pessoas. Claro, os governos também refletem os desejos e as frustrações de todas as pessoas e de cada uma. Trocando em miúdos: se vivemos numa sociedade violenta, é porque também queremos uma sociedade violenta. No mínimo, aceitamos o que é proposto por nossos representantes.
 
O amor é que ilumina o coração!

Tudo em sociedade é processual, porque nada fica parado, tudo e todos se movimentam. E nesses movimentos, esquecemo-nos dos outros, dos muitos outros. Por isso, também somos responsáveis por toda e qualquer desgraça e por todo e qualquer avanço. Somos cúmplices no bem e no mal. A exclusão de muitas pessoas é um processo em que as pessoas vão se sentindo cada vez mais isoladas da família, do trabalho, da escola, da cidadania e passam a viver em situações precárias, altamente desumanas. 

O amor talvez seja a janela

Em outras palavras, as muitas exclusões vão se acumulando, fragilizando adolescentes e jovens, que num curto espaço de tempo se jogam no mundo das drogas e do tráfico. E para sustentar essa situação começam a fazer pequenos assaltos e roubos, primeiramente na própria casa e depois na casa dos outros. Nesse sentido, a violência é quase uma vingança. Cada vez maior é o isolamento e cada vez mais distante a solução dos muitos problemas sociais. São abertos poucos postos de trabalho para as pessoas menos qualificadas, com menos escolaridade, com menos condições de sobrevivência. Como são frágeis e irregulares as chances e as oportunidades de emprego. 

A janela nos traz a luz do sol

E assim o círculo vai se fechando: pouca qualificação, baixos salários. Quanto menor a qualificação profissional, mais reduzidos os salários. Há muitas limitações na oferta de emprego para adolescentes e jovens. O governo está falando em abrir as portas para importação de mão de obra altamente qualificada. Fala-se até em importar médicos. As escolas de Medicina não estão formando médicos num número suficiente, ou os que se formam não querem ir para o interior. 

A janela nos mostra muito mais

Claro, a vida social em cidades grandes oferecem muito mais conforto e oportunidades de lazer e de descanso. Assim, o desemprego é parte, faz parte da vida de muitos. A crise europeia tem trazido muitos profissionais altamente qualificados para o Brasil. O fato é que o número de desempregados vem aumentando consideravelmente no mundo inteiro. A Espanha já está chegando a 25% da população economicamente ativa desempregada. Muitas pessoas, hoje, estão se sentindo desnecessárias, inúteis, descartáveis, substituíveis facilmente. Nem o diploma na mão é garantia de emprego. Pior ainda é para aquele sem diploma. 

Há quem não queira ver o sol com sua luz

Há sim, uma superpopulação de mão de obra sem qualificação. Sem estabilidade no emprego, com baixos salários, não há muita perspectiva de vida pessoal e social. Os valores humanos e sociais se desfazem com o vento e a alegria deixa de morar no nosso quarto, na nossa casa. As relações e os vínculos familiares, as relações com vizinhos e parentes se desmancham numa corrente de inconsequentes e irresponsáveis. 

O amor suavemente nos conduz ao sol

Tudo isso está nos colocando num isolamento sem par, numa solidão forçada, num distanciamento dos valores humanos necessários para a sobrevivência do homem em sociedade. Sem bases e sem apoio, sem chão e sem alicerces, as pessoas nada mais têm a perder, porque também já perderam a dignidade, já se esgotaram as sementes e as possibilidades de ser, de ser-mais, de ser-melhor. Sabemos que no exercício dos direitos, os direitos não são iguais para todos. Existem uns mais iguais do que outros. Os pobres não têm representantes na esfera política. 

O amor talvez seja uma flor

Que vereador, hoje, é pobre? Que prefeito, hoje, é pobre? Que governador, hoje, é pobre? Que deputado, hoje, é pobre? No fundo, o pobre é não-cidadão. Não cidadania significa sem representatividade e sem ação política. Mesmo assim, ainda, alguns entendem que pobre sempre haverá, porque assim Deus fez o mundo. Acredito que a indiferença humana, a criminalização das diferenças, o conformismo de muitos, a fatalidade apregoada por outros não sejam coisas de Deus. Aceitamos e queremos a pobreza e a miséria, a falta de escolas e de hospitais porque vivemos sem indignação e não há nenhuma reação esboçada. 

O amor é um jeito de querer