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Em Questão

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Décio Bragança 12/06/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Encontro de dois - As cidades romanas que servem de modelo até hoje quando se planeja uma cidade, nascem de duas ruas cruzadas: uma de norte-sul, chamada de CARDO; outra de leste-oeste, chamada DECUMANUS. Isso para dizer que a construção de casas também deveria ter a orientação do sol. No cruzamento dessas duas linhas o centro da casa, do terreno, da cidade, do país que, de uma certa maneira, sofrem fortes influências do sol e de todos os astros.

 

Olho no olho - A sociedade moderna, aqui e agora, só pensa nas coisas úteis, nos utilitários. As artes não fazem mais parte do nosso cotidiano, porque, pelo contrário, não fazem, não criam, não vão fazer coisas inúteis. Isso para dizer que uma obra de arte (pintura, escultura, música, dança, poesia...) quanto mais inútil, menos utilitária, maior o seu sentido estético, aproximando-se da Beleza.

 

Cara a cara - Além do esquecimento da humanidade desse lado estético-artístico, temos de pensar que vivemos numa cidade onde trabalhamos, descansamos, mormos, satisfazemos nossas necessidades... Tudo isso são problemas sociais que pouco importam aos políticos, aos prefeitos. E os problemas se ampliam até interferirem no clima do planeta inteiro. Insistimos na emissão dos gases tóxicos porque insistimos na geração de energia via fósseis. A energia limpa, pensamos, não é problema nosso, é problema para as futuras gerações.

 

E quando estiveres perto - Uma vez, o grande Jaime Lerner, em Uberaba, conversando com políticos e planejadores urbanos, disse que carro é como sogra: você deve ter um bom relacionamento com ela, mas não pode deixa-la governar, mandar na sua casa. Pois é, estamos desobedecendo a ele, deixando a sogra mandar.

 

Eu arrancarei os seus olhos - Os prefeitos, em geral, só pensam em alargar as ruas e avenidas, desapropriar terrenos e prédios, derrubar e incendiar favelas e casarões do centro da cidade para facilitar o fluxo de carros. As cidades expulsaram e expulsam as pessoas de seu ventre. E tudo feito em nome do desenvolvimento.

 

E os colocarei no lugar dos meus - As cidades vão se formando sem se pensar nas pessoas, porque nossos prefeitos as administram para a tragédia, para a morte: cobrem córregos, contêm suas águas, jogam esgoto doméstico e industrial nos córregos, vêm as chuvas, enchentes, inundações e mortes. E a culpa? É de São Pedro. E assim avançam as indústrias, o comércio, sempre predadores.

 

E tu arrancarás - Por que será que o símbolo da justiça é uma deusa cega? Será que é para não ver nada do que acontece ou o que fazem os poderosos – donos das coisas e das pessoas? Por que será que os juízes se vestem de preto – ausência total de cores e luzes? Será que não estamos precisando justamente é de luzes e de cores?

 

Os meus olhos - Há alguns dias, num programa de televisão, foi mostrada uma parte do Oceano Pacífico. Quanto lixo! Quanto plástico! E quantos peixes mortos! A certa altura, o repórter disse que parecia uma enorme latrina sem descarga. E a culpa? É o preço do progresso! E como o mundo e as cidades estão ficando feios! Quanta poluição visual! Outdoors não trazem felicidade, nem encanto pela vida.


e os colocarás no lugar dos teus - Se moramos numa rua, num bairro, numa cidade, tudo tem de ser muito bonito, inclusive para levantar a autoestima, para esquentar o ânimo e o entusiasmo. Afinal, nascemos para nos encantar em todos os lugares durante todo o tempo. Quantos espaços sendo degradados ou simplesmente destruídos, em nome do progresso. Quantos prédios e casas vazias nos centros das cidades. Passado algum tempo sem uso, tudo vira estacionamento. Vivam os carros! E tudo permitido pelas prefeituras!

 

Então, eu te olharei com teus olhos - Não podemos viver sem esperança. A feiura – o mínimo que faz – é tirar-nos a esperança de um futuro bom e bonito. Num ambiente feio não queremos viver, conviver. Fugimos do feio ou o feio não nos atrai. Não vale a pena cuidar de uma rua, avenida, praça feia. Assim vão ficando cada vez mais feias. Como é bom lembrarmo-nos da casa onde nascemos, da rua onde crescemos, da praça onde convivemos.

 

E tu me olharás com os meus - As praças, hoje, são espaços, lugares em que não queremos ficar. E aí, vamos para os shoppings – templos do capitalismo – onde é adorado o bezerro de ouro: o mercado! A um custo bem mais baixo e mais democrático, rua inteiras poderiam ser transformadas em shoppings abertos, ao ar livre. Observe a Rua Artur Machado – antiga Rua do Comércio. Quanta solidão! Quanto marasmo! Poderíamos ter seis quarteirões de um shopping aberto, tendo no meio de um grande jardim. Essa ideia não é minha. Passou por Uberaba um grande arquiteto do Rio de Janeiro e deu essa sugestão. Foi praticamente expulso de Uberaba com a alegação de que era um doido varrido.

 

E viva o amor - As cidades têm de ser bonitas. Não há maior beleza do que jardins, flores e árvores. O mínimo que as árvores fazem é um filtro da luz e dos raios solares sobre as cabeças das pessoas. O progresso não significa desmatar, destruir, asfaltar, asfaltar. Até nos campos, na zona rural, estamos desmatando. Não é raro quando viajamos por nossas rodovias avistamos algumas casas praticamente isoladas no alto de uma colina. Tão isoladas, tão sem nada, que dá até para serem vistas da rodovia. O problema é conciliar ou reconciliar as intenções e interesses dos grandes com os pequenos, da prefeitura com os seus cidadãos.