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Em Questão

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Décio Bragança 17/07/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Pare o mundo - Conheci – vou omitir seu nome – um médico experiente e estudioso. Contou-me que em uma de suas participações em congressos, foram apresentados aos médicos aparelhos moderníssimos e novos medicamentos. Os participantes se assanharam e se entusiasmaram. Todos já queriam naquele mesmo dia fazer suas cirurgias e receitar os medicamentos. Na segunda parte do congresso, uma discussão sobre bioética, ética, filosofia, budismo, estilos de vida. A sala ficou completamente vazia.

 

Que eu quero descer - Há um número – tirado da internet – não sei se verdadeiro ou não – que, em média, um médico atende um paciente a cada quatro minutos. O que são quatro minutos? Será que são suficientes para ouvir os problemas conjugais, familiares, amorosos, trabalhistas, econômicos, sociais, religiosos? O médico ausculta o coração, mas não tem tempo para escutar a alma. Isso não é nenhuma acusação, mas uma defesa de todos os médicos, jogados às traças, às feras, à cova dos leões.

 

Que eu não aguento mais - Aí vêm os marqueteiros – manipuladores de ideias e comportamentos com base na mentira, na felicidade ilusória, no prazer imediato. Por incrível que possa parecer a política é, talvez, a forma mais nobre de fazer vivenciar o amor e a fraternidade, a justiça e o desenvolvimento pessoal e coletivo. Em política, tudo é filtrado pela verdade, pelo bem e pela beleza; por isso fazer política é fazer nascer a ética. Para os marqueteiros não interessa se a vitória veio aos cinquenta minutos de segundo tempo com um gol roubado e confirmado pelo juiz e por seus auxiliares.

 

Escovar os dentes - Vejamos como acontece uma transação em paraísos-fiscais: para não pagar impostos um João de Sousa Pinto deposita R$1.000.000,00 – um milhão de Reais – num paraíso: Montenegro Terry – um banco do paraíso aplica esse dinheiro em “coisas” lícitas e ilícitas. O banco paga a Terry até 15%/ano do valor depositado. Terry repassa a João S. Pinto até 10%/ano ficando com os 5% recebidos. Assim o capital inicial – 1.000.000 – rende 15% - dando um “lucro” de 150.000 que será dividido assim: 100.000 para João e 50.000 para Terry. Estamos falando de juros anuais.  

 

Com a boca cheia de fumaça - Há ainda muitos desmandos políticos, levando angústia e frustração a muitas pessoas. Nós, brasileiros, histórica e culturalmente, não estamos preparados para denunciar, mas há ainda compra de votos. E por que os candidatos querem tanto ser vereador? Ser prefeito? Todos têm clareza do que seja bem comum? O que seja democracia? O que seja colegiado? O que seja orçamento participativo? O que seja democratização do acesso à terra, à água, à habitação, aos alimentos?

 

Você acha graça - A maioria dos depositantes em paraísos-fiscais têm dinheiro “sujo” advindo de propinas, caixa dois, roubo, assaltos, de licitações ilícitas, de sonegação. Artistas, cantores, jogadores, políticos e banqueiros com dinheiro sobrando buscam os paraísos. Quanta agiotagem! Quanta ganância!

 

Porque se esquece - Raras vezes acontece um problema com essas contas dos paraísos, mas já aconteceu com alguns jogadores de futebol quando, por exemplo, se divorciaram. Um ou outro cônjuge alega na justiça a existência desses depósitos – o que também é dificílimo provar a sua existência, porque o dinheiro está em nome de outra pessoa. Daí, a certeza de Cunha: “Não tenho nenhum centavo aplicado fora do Brasil!” Cunha desafia até jornalistas na caça desse dinheiro fora do país. Os muito ricos preferem essa aventura a pagar impostos a seu país de origem. Que meus conterrâneos se virem! Que a educação, a saúde das pessoas de meu país se virem!

 

Que nasceu numa época - Com a mecanização dos campos e a prioridade para o agronegócio – mercado externo – muitas famílias estão abandonando suas chácaras e sítios e vindo para as cidades. Por que não se fortalecer a agricultura familiar, garantindo o trabalho, o alimento para o mercado interno? Em todos os serviços públicos (escolas, creches, penitenciárias, abrigos, albergues, casas-lar...) o alimento tem de ser produzido por essas famílias assentadas no campo, garantindo-lhes uma renda, criando-lhes linhas de crédito, com programas de seguro agrícola e política justa de preço mínimo.

 

Cheia de conflitos entre raças - Como tudo no Brasil é muito sombrio, dizem que existem muitos Paulos Malufs, Eduardos Cunha, Marcos Valérios, Vacaris, Dudas... Por que só eu? Por que só nós? E os outros? O que que vocês têm contra mim? Por que vocês querem que eu seja o bode expiatório? Procurem que faz isso, porque eu não faço. Para alguns analistas internacionais os paraísos-fiscais é que garantem e salvam o capitalismo.

 

Quanta ganância e desprezo – A finalidade do lucro e do poder não muda da noite para o dia, mas o que se nota é que o poder do capital está cada vez mais centralizado, mais oculto, mais impalpável, mais dominador, haja vista recente estatística do Banco Mundial: 3% das sociedades do mundo possuem mais de 75% das ações de todas as empresas do mundo inteiro.

 

Obra barata e mão de obra mais barata – Na realidade, isso prova a recolonização que os países ricos – principalmente os do G7 – impõem ao dito terceiro mundo, exigindo submissão e adaptação ao sistema. Nós, aqui, no Brasil, nos orgulhamos de exportar, por exemplo, os carros da FIAT para a própria Itália. Quanta ilusão! Fornecemos a matéria-prima e a mão de obra barata. Cada dez operários brasileiros ganham o equivalente ao salário de um operário italiano. Quanta exploração!

 

Não produzimos para nós – Somos o maior produtor de grãos de soja, de milho, de feijão do mundo. Somos o maior produtor de minerais do mundo. Matéria-prima não vale nada. Os economistas e estudiosos chegam a números assustadores: uma matéria-prima tem um valor X. Essa mesma matéria-prima industrializada, transformada em bens passa a valer 7X. No comércio, o X chega a valer 11X. E praticamente todo mundo concorda com isso. “Antes pingar do que secar”!