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Décio Bragança 02/06/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Onde houver ódio, que eu leve o amor

Um centavo tirado de qualquer governo é muito mais grave do que um menor de idade cometendo um crime, ou um latrocínio. Dinheiro público tem de ser usado em projetos sociais e não poderá comprar votos e apoio, ajeitamento de cargos e funções dos “amiguinhos” do poder, nem ser transportado em malas ou dentro da cueca. Ninguém nunca viu o sangue de um estupro feito por Paulo Maluf. Ninguém nunca viu o sangue de facada produzida por Daniel Dantas. Ninguém nunca viu o sangue de uma machada dada por Carlinhos Cachoeira. Ninguém nunca viu o sangue de um tiro dado pelo juiz Lalau. 

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão
Pois é. Esses, sim, são os verdadeiros bandidos e marginais, que roubam e roubaram dinheiro público, mas que não são retratados nos canais de televisão, porque o sangue produzido por eles não é visível. Sem tirar uma gota de sangue aparente, visível, televisionada ou fotografada, pensamos que as falcatruas, as propinas, os mensalões, os mensalinhos, as messalinas não são. Para nós – grande maioria – crime tem de ser de sangue, muito sangue. Fala-se, oficialmente, em 500 milhões de dólares e todos sabem que é muito maior a fortuna surrupiada por Paulo Maluf e depositada em paraísos. 

Onde houver discórdia, que eu leve a união
Só para fazermos uma comparação: os novos estádios de futebol que estão sendo construídos para a Copa, mesmo superfaturados, estão gastando quase um bilhão de reais do povo brasileiro. Pois é, só o que Maluf tem depositado no exterior construiria um estádio. É possível que tenhamos mais de 20 surrupiadores do dinheiro público que poderiam construir todos os estádios da Copa, mais um centro de convivência e de cultura, sem se gastar um centavo do “tesouro nacional”. Não adianta Geraldo Alkmin fazer campanha para diminuir a maioridade penal. Que ele faça campanha para prender esses maiores de idade. Aliás, o juiz Lalau está com 85 anos; Paulo Maluf tem 81 anos. 

Onde houver dúvida, que eu leve a fé
Voltemos ao nosso assunto: a exclusão. O limite da exclusão é a exclusão da existência humana. Muitos adolescentes e jovens se veem reduzidos a nada, a um zero à esquerda. Se a polícia exterminá-los, vamos achar bom. Quanta ironia! Quanto sadismo! Dirão os Datenas da Vida: “Eles não faziam nem fazem falta à sociedade! Podemos descartar esses caras!” A eliminação desses adolescentes e jovens é a prova mais provada da incompetência dos políticos e de suas políticas públicas. Na sociedade, não há lugar para muitos adolescentes e jovens – o que é muito triste. A questão, muitas vezes, não se restringe à privação material, de bens e de coisas, mas à qualidade de vida do cidadão, que não encontra um lugar na sociedade. Ninguém imagina que adolescentes e jovens têm desejos e sonhos, vontade e interesses legítimos. Preferem considerá-los inúteis – um estorvo. 

Onde houver erro, que eu leve a verdade 
Por definição, violência é qualquer ação realizada por indivíduos, classes, nações que ocasionam danos físicos, psicólogos, morais e espirituais a outras pessoas. Nesse sentido, são múltiplas as formas de violência e não se pode afirmar com segurança que os adolescentes e os jovens, somente eles, sejam violentos. 

Onde houver desespero, que eu leve a esperança
A ideia de exclusão está associada à ideia de falta de sustentabilidade política, falta de sustentabilidade econômica, falta de sustentabilidade social. Assim, o não acesso aos serviços de educação e de saúde, o desemprego e a falta de lazer é uma violência política, porque vitimiza muitas pessoas e muitos grupos sociais. A exploração do sistema econômico-financeiro é uma violência sem limites, produzindo a concentração absurda de bens e de riquezas. A ganância não tem limites nem controle. 

Onde houver tristeza, que eu leve alegria
O Estado tem a obrigação de interferir na organização social, porque existe para isso, enquanto as pessoas são tratadas com descaso e desdém. Daí, a insegurança de todos e para todos. O mercado é o nosso novo deus. A lei de oferta e procura controla tudo e, para os marqueteiros, o Estado nunca deve interferir. E o ser humano vai se vestindo e revestindo de indiferença e medo, hostilidade e violência. A integração mundial ou a economia mundializada exige a desregulamentação dos mercados internos para abri-los aos externos. Daí, a insegurança do próprio mercado e a insegurança no mundo do trabalho. 

Onde houver trevas, que eu leve a luz
Competição não combina com solidariedade e amor. Produtividade não combina com desenvolvimento social e humano. Hoje, os Estados não se incumbem de regulamentar o mercado e, com isso, sem compromisso com as pessoas, descuidam-se de sua função de provedor de serviços essenciais e sociais e mediador de conflitos.