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Em Questão

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Décio Bragança 07/08/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

GOL - Começaram as Olimpíadas e todos nós estamos muito felizes. As aulas recomeçaram e muitos não estão tão felizes assim. As Olimpíadas – momento único e definidas as horas e os locais; as aulas – momento contínuo sem nenhum limite de tempo ou de espaço.

 

TRAVE - A família e a escola têm o dever de criar, de estabelecer condições para a construção da subjetividade e intersubjetividade. O desenvolvimento pessoal é feito, sim, de rupturas, de rebeldias. O problema é que os pais e professores, porque despreparados, entendem rupturas e rebeldias como raiva, ódio, desdém, desprezo, esquecendo-se de que se tornaram adultos, maduros, por causa das rupturas e das rebeldias – o que nunca significou ódio.

 

REDE - Em outras palavras, não dá para ser feliz, preso às ideias, ao domínio dos pais e dos professores. Nesse sentido, felicidade é rebeldia, é ruptura. Isso para dizer que os filhos não nasceram para os pais e os alunos não nasceram para a escola e seus professores. “Não preciso de seu corpo, de seu dinheiro, de seu domínio, de suas ideias. Por isso estou livre para dizer que te amo”.

 

CAL - A rebeldia e a desobediência, as rupturas e as birras fazem parte da adolescência – o que significa sempre indecisões e sofrimentos, muitas dúvidas e experimentações, muitas frustrações e sonhos, muitos desenganos e desejo de construir-se, muitas fragilidades e vontade de ser, de ser mais, de ser melhor.

 

ÁRBITRO - Uma infância tranquila e sempre surpreendente prepara uma adolescência menos sofrida e dolorida. Os pais e os professores estão diante de um desafio cada vez mais complexo por causa da própria complexidade humana contemporânea. Discute-se – e tem de ser assim – a responsabilidade dos professores e dos pais nos momentos de conflitos internos e externos da criança e do adolescente. Sabemos que toda crise é um momento único para as decisões, por isso, para alguns, um leque de oportunidades.

 

BANDEIRINHA - Há em algumas famílias o jogo do empurra: “Fale com sua mãe” – “Fale com seu pai”. Para a criança e adolescente, essa situação cria mais complicação na definição inclusive dos papeis de pai e de mãe, do homem e da mulher. Nesse jogo do empurra, crianças e adolescentes, confusos, demoram uma pouco mais na ordenação e organização de seu mundo interior, demoram um pouco mais na aceitação dos limites e consciência de sua finitude, de sua incompletude, de seus desejos, retardando a sua inserção no mundo adulto – plenitude da maturidade.

 

GOLEIRO - Nas escolas, esse jogo do empurra quase não acontece – o que é muito bom.  Crianças e adolescentes precisam de alicerces fortes, de bases resistentes, de caminhos sólidos para a sua independência e autonomia. Família e escola têm de ser ninho, aconchego, colo – funções primeiras – o que não significa laissez-faire – deixar que se faça tudo sem nenhum controle.

 

ZAGUEIRO - Vejamos a Parábola do Filho Pródigo! O filho tem de ter a certeza de que, aconteça o que acontecer com ele, sempre encontrará um pai, uma mãe, uma escola, à sua espera, para acolhê-lo. Família e escola são espaços de definições, de significações, de redefinições, de ressignificações de si mesmo, da própria vida.

 

LATERAL - Família e escola existem para que crianças, adolescentes, jovens, adultos, todos se sintam amados e por isso espaços que amenizam os possíveis sofrimentos físicos e ou emocionais. A passagem da infância para a adolescência é uma ruptura do egocentrismo em busca do outro, da alteridade – compromisso e existência com o outro. Essa passagem é tanto mais dolorosa e difícil quanto mais vivemos numa sociedade de consumo, do imediatismo, da rapidez, do miojo – tudo feito em apenas três minutos.

 

ATACANTE - Vivemos, sim, numa sociedade em que nada pode ser deixado para depois: “Felicidade, já – Dinheiro, já – Fama, já – Sucesso, já – Poder, já”. Vivemos numa sociedade da obsolescência e do descartável, numa sociedade do consumo e, por extensão, de jogar tudo fora, numa sociedade altamente individualista e narcisista, numa sociedade em que as aparências, as imagens e do ter valem mais do que o ser, o ser mais, o ser melhor.

 

MEIA - Essa passagem é o momento da construção da subjetividade: “Sou para mim e sou para os outros” – ideal da maturidade. Todos nós precisamos do outro para nos desenvolver. Assim, o papel do outro é condição de saúde mental, psíquica, espiritual e até física. Por causa do outro, o adolescente começa a se cuidar melhor, inclusive criando práticas de higiene: tomar banho, tratar os dentes, vestir-se melhor e com roupas limpas, corte e cuidado dos cabelos, lavar as mãos, uso perfumes e desodorantes...

 

CHUTEIRA - Os pais e os professores têm de estar atentos com as possibilidades oferecidas pelo computador, pelas redes sociais. Todos nós sabemos que há muita maldade e crueldade nesse jogo virtual da internet. Sabemos também que há muita coisa boa e de qualidade nessas redes. Acredito que os pais e professores têm a missão de orientar, de até organizar os acessos sem impor censura.

 

LUVA - A internet é fascinante e perigosa. Aliás, tudo na vida é assim. Absolutamente tudo! Uma aspirina – um medicamento – é a salvação ou a perdição. Tudo é uma questão de dose, do tempo e do espaço. É a dose da internet que nos faz bem ou mal. A virtualidade é uma coisa; a realidade é outra coisa. A criação de vínculos, sem limites e sem barreiras, nas redes, é obviamente bem fácil e sem traumas – o que pode levar as crianças e adolescentes pensarem que a vida é assim.

 

UNIFORME - As polícias, principalmente a Federal, tem monitorado essas famosas redes de pedofilias, de sítios que estimulam ou descaracterizam a homossexualidade, a bissexualidade, as drogas, as armas, o tráfico, o terrorismo. E o comércio eletrônico? Também é um outro problema. A internet, concordemos ou não, tem fomentado, incrementado, incentivado as fantasias sexuais de todos e, em especial, das crianças e adolescentes que ainda não sabem lidar com a própria sexualidade.

 

VITÓRIA - A preocupação em relação à internet – acesso livre e fácil – deve ser uma constante, porque cada dia novos sítios, novas redes, novos blogs, são postados por todos os tipos de pessoas, boas e más, com boas e más intenções e interesses. Proibir não é caminho. Melhor seria o estabelecimento de critérios de seleção – o que não é tarefa fácil, porque de um lado a curiosidade própria do ser humano e de outro, a comunicação entre os próprios colegas.

 

DERROTA - Para mim, o problema não é a internet, mas a falta de alternativas saudáveis oferecidas às crianças e aos adolescentes. Daí a responsabilidade das cidades e das prefeituras. Que projetos, programas, atividades são criados para as crianças e adolescentes?