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Em Questão

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Décio Bragança 18/09/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

LIATRIS - Há muitos estudos e pesquisas que propõem uma escola alegre, feliz, prazerosa, sedutora, muito além da sala de aula e muito além dos muros da escola. Muitos professores ainda “enquadrados” num sistema burguês e conteudístico se assustam com a liberdade de ser e de aprender, com o uso de tecnologias educacionais modernas. Professor não é repetidor de conteúdos já estratificados, mas construtor do futuro, um construtor social. Ludicidade vai mais além de um simples hedonismo – o prazer pelo prazer – mas um prazer para.

 

LILAC - Ludicidade, aqui, significa Prazer para. Mas, prazer para quê? Para a construção social, da cidadania, de valores humanamente sociais, de valores socialmente humanos. Estamos perdendo o encanto pela vida, o deslumbrar-se pela ciência e arte, o Eureca de Arquimedes, o assombro pelo conhecimento e estudo, o estalo de Vieira, a conversão de Saulo, a libertação de Boff, o experimentalismo de Sabin e Pasteur, a criatividade de Israel Pedrosa, o conhecimento de si mesmo e de todos os seres vivos e não vivos, o panteísmo de Francisco de Assis.

 

ALLIUM - A instrução programada – infelizmente está de volta a todo vapor –cria robôs, autômatos, marionetes, consumidores, fascinados pelo brilho, cores, luzes e sons dos centros comerciais. Nesse sentido, a escola poderia até ser um centro de resistência a tudo isso. Agora, inventaram uma tal de meritocracia – essência da exclusão. Estamos perdendo tempo e adiando a descoberta do outro e de si mesmo no mundo.

 

AMARILIS - O mais importante na escola é a convivência – conviver para ser. Para ser mais. Para ser melhor. O encontro com o outro – alteridade – será sempre um problema, mas que pode tronar-se a salvação e a libertação. Problema, aqui, significa colocar em xeque a própria identidade e a identidade do outro. Seremos sempre comparados e negados. A escola assim é o grande laboratório de trocas, de experiências, de vivências. “O outro pode ser o meu limite” porque, segundo Sartre, está sempre disposto a dizer NÃO a meus projetos, a meus desejos, a meus sonhos, a minha utopia.

 

BOUVARDIA - Essas negativas do outro – NÃO PODE – NÃO VAI – NÃO DEVE -  nos levam ao desânimo ou ao desespero, ao comodismo ou à inveja. A possibilidade de amor e paz entre as pessoas e principalmente entre alunos e professores vai ficando cada vez mais difícil e desafiadora. A construção do caráter e da personalidade não implica a destruição do outro, o rebaixamento do outro, mas essencialmente construir-se com o outro.

 

CENTAUREA - Diferenças não significam desrespeito, humilhação. Nas diferenças, vamos nos construindo. Gostamos de expor o outro ao ridículo, vendo sempre os seus defeitos como se não os tivéssemos. “Burro é você” – “Estúpido é você” – “Vagabundo é você” – “Sem vergonha é você” – “Pobre é você” – “O capeta é você” – “Você é meu inferno”.

 

CRISANTEMO - Preconceitos de toda a ordem são vivenciados nas escolas, chegando, às vezes, a agressões. Infelizmente, as escolas estão mais preocupadas com as provas e os exames, com as avaliações e as estatísticas, impulsionadas pelo desejo dos governos, manipuladas pela mídia, infelizmente. O interessante, não sem razão, a mídia sempre estar[a de olhos muito abertos nos serviços públicos para pichá-los. Execrá-los. Assim também com as escolas públicas, impondo a ideia de que tudo o que é privado é bom.  Um fato pequeno nas escolas privadas nem é noticiado, mas toma uma dimensão enorme se o mesmo fato acontece nas públicas.

 

EREMURUS - Há muitos mais interesses e intenções ocultas do que pode imaginar a nossa vã filosofia – plagiando Machado de Assis que também plagiou Shakespeare. Isso para dizer que, ideologicamente, pensamos e agimos de acordo com as posições e pontos de vista da imprensa que se submete também às posições e pontos de vista de quem a financia e patrocina. Estão todos de braços e pernas atados, porque também já taparam os ouvidos, os olhos e a boca.

 

ESTRELÍCIA - Importa quem dita as regras, traduzidas em dinheiro. Isso também vale principalmente para as escolas. O dinheiro pode mudar de mãos e, por isso, mudam-se as regras. As escolas públicas dependem de partido político que está no poder. As privadas passam por corporações nacionais e internacionais. A educação ou simplesmente o ensino não poderia estar sujeito a isso, porque não é nem mercadoria nem barganha de poder.

 

AZALEA - Um país, um estado, ou um município sério tem de ter um pacto com a comunidade com metas e linhas de ação as mais duráveis possíveis, porque construídas na comunidade e pela comunidade. Função dos governos é a garantia de recursos e dizer ou determinar o que somos ou o que seremos, ou que desejamos e queremos ou o que desejaremos. Nesse sentido, a democracia se inicia, nasce nas escolas. Há muitos controles nas escolas.

 

CRAVINA - “Sei errar sozinho” nos ensinou o professor André Coimbra. Isso para dizer que há muitos palpites nas escolas, muito controle nas escolas e qualquer senão, qualquer é culpa dos professores. Nesse sentido, os professores são os menos culpados, porque soldados obedientes numa guerra de interesses e intenções. O crime é de quem declarou guerra e não dos soldados.

 

GARDÊNIA - Como é frágil a educação no Brasil, porque está cheia de palpiteiros e amadores num jogo de cartas marcadas. A profissão de professor é a única que acolhe a todos de qualquer área, mesmo a que não esteja ligada à educação. Em sala de aula, vemos militares e religiosos, juízes e promotores, médicos e engenheiros, agricultores e artesãos... O interessante que o contrário não é verdadeiro: um militar tem de passar por uma academia militar; um religioso por um curso de filosofia e teologia; um juiz pelo curso de Direito, pelo exame da ordem, por concurso de magistratura e assim por diante.

 

GIRASSOL - Para ser professor qualquer um serve. Não tem de passar por nenhuma caserna, ou convento, ou seminário, ou concurso, ou exame. Claro, isso poderá até ser muito bom para a Educação. Falta-nos, talvez, uma regulamentação mínima e uma institucionalização mínima. E o que é institucionalização mínima? Acredito que, no mínimo, dever-se-ia conhecer a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, Lei nº 9394/96.

 

ROSA - A partir daí, discutir-se sobre os valores culturais, sobre dignidade humana, sobre o que é bom para todos e para cada um, sobre os princípios da boa convivência, repudiando sempre preconceitos e ideias fixas. Claro, cada professor vai se construindo, mesmo porque não se sabe como se é um professor ideal.  Para mim, as perguntas diárias de sala de aula que o professor poderia fazer a si mesmo são estas: Educar para quem? A favor de quem? Contra quem?

 

JARDIM - Noções de diversidade e heterogeneidade, de pluralidade e singularidade, de subjetividade e objetividade, cidadania e respeito não podem nunca ser esquecidos. Educa-se para a justiça e a liberdade, para a responsabilidade, respeitando sempre a igualdade de direitos sociais e culturais, civis e econômicos. E assim vai-se construindo a cidadania e a harmonia.