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Em Questão

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Décio Bragança 25/09/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

IPÊ - Na escola, a escolha de conteúdos é um critério fundamental para o desenvolvimento de competência e habilidades, atitudes e comportamentos, valores e a utopia, responsabilidade e autonomia, pluralidade e consciência política. A educação transforma, sim, um país, porque tudo tem de ser construído coletivamente. O homem foi, é, será sempre um ser inacabado – o que proporciona a dinâmica e o entusiasmo pela educação. Sem uma postura séria e inteligente, a educação, ou melhor, a permanência na escola, muitas vezes, é perda de tempo. Daí a evasão, a repetência, a baixa autoestima, o desinteresse, a desmotivação e, para piorar a possibilidade de criação de guetos, de grupos e formação de quadrilhas. Tudo isso gera violência e cresce possibilidade de agressões, de exclusões, de discriminações. Na escola, todos têm de sentir que vale a pena a educação, as escolas. Tem de ser para valer!

 

SIBIPURUNA - Escola que não se preocupa com a qualificação profissional atrelada à construção da cidadania realmente vale a pena! Sem isso, vem o crescimento assustador no Brasil do chamado analfabetismo funcional – “sei ler, mas não sei o que li” – “sei escrever, mas não sei o que escrevi” – “ouvi um poema, mas não sei dizer o que ouvi” – e assim por diante. As estatísticas não são muito confiáveis, mas no Brasil já se falou de 75% de analfabetos funcionais no universo dos alfabetizados. Pouco se pesquisa nas escolas e por isso praticamente somos os mesmos na entrada – início de um curso – e na saída – fim de um curso. Em algumas situações, muitos saem piorados. No mínimo, com menos sonhos e utopia. Escola existe para ampliar sonhos e utopia para valer a pena.  Já ouvi uma comparação interessantíssima: o conhecimento vai se ampliando, iniciando-se no sujeito, sua casa, seu bairro, sua cidade, seu estado, seu país, até se chegar ao mundo; a cidadania – a consciência política e social – parte do mundo, vai passando por seu país, seu estado, sua cidade, seu bairro, sua casa, até se chegar no sujeito.

 

JUÁ - Não vale a pena uma escola que prepare seus alunos para a Prova Brasil, ENEM, ENADE, além de, por exemplo, Exame da OAB e de outros profissionais. Em qualquer fase da vida dos estudantes, caso seja obrigado a parar de frequentar aulas, estar nas escolas, eles têm de ter condições de viver, conviver e sobreviver com dignidade. O ideal é que ninguém tivesse ou fosse obrigado a parar de estudar, já que estamos aptos a aprender até o último da vida. Mais uma vez: a escola tem de valer a pena! Experimentamos criar escolas e universidades, por exemplo, para as pessoas da chamada terceira idade. Poucas ainda existem, porque não valiam a pena, não acrescentavam nada aos idosos que preferiram continuar a ficar à toa. Semelhante situação com as escolas quilombolas, indígenas e agrícolas. Poucas ainda há. As escolas não valiam a pena! Aliás, tudo na vida tem de valer a pena! A título de exemplificação: há muitas vagas ociosas em todas as escolas quilombolas, indígenas, agrícolas, no Pronatec.

 

SIRIGUELA - Não gostamos de investir em educação, nem de que se gaste dinheiro com educação. Nunca vimos um banco, uma loja, um shopping sem cadeiras, sem ar condicionado, sem esgoto, sem sanitários, com gente mal alimentada e mal vestida. Pois é: existem milhares de escolas nessas situações. Por isso, também estamos longe, muito longe da democracia. Os governos – municipal, estadual, federal – escolas de iniciativa pública e privada estabelecem diretrizes e normas e leis e regulamentos esquecendo-se da multiculturalidade, da plurietnia, do respeito aos direitos legais, da valorização de identidades. Por isso também estamos longe, muito longe, da democracia. A onde agora é a tal meritocracia – escola sem partido – que aumenta ainda mais as desigualdades e injustiças, as exclusões e discriminações, mantendo privilégios, aumentando a violência. Esse discurso nos afasta ainda mais do que se propõe a democracia.

 

GRAVIOLA - O desenvolvimento, como sabemos, em vez de resolver os problemas de desigualdades sociais, acentua-os. Em vez de resolver os problemas de desemprego, desorganiza a vida agropastoril, aumenta o desemprego e cria, ainda, inúmeros cinturões de favelas ao redor dos grandes centros urbanos. Em vez de reduzir a distância entre os países chamados industrializados e os subdesenvolvidos, faz os países ricos ficarem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Em verdade, o modelo de desenvolvimento, escolhido por nós, retira dos campos e das fazendas os homens e mulheres e os leva para a cidade, forçando-os a viver numa miséria absoluta e coletiva, agravando ainda mais as desigualdades entre a vida da cidade e do campo. Esse modelo produziu e produz uma industrialização muito rápida, provocando problemas sérios de urbanização.

 

PITANGA - Não sei por que temos a mania de grandeza. Uberlândia, por exemplo, se orgulha de, em 1940, ter apenas 25 mil habitantes e hoje, só 70 anos depois, está ultrapassando os 600 mil. Não importa a quantidade de bens, importa a qualidade de vida. Por que não se inverter o quadro? Será que não é possível construírem-se agrovilas? São tantos conjuntos habitacionais nas cidades, por que não construí-los fora das cidades, nas fazendas, nos campos, dando a seus habitantes o conforto, o lazer, a educação, a assistência médico-hospitalar e religiosa das cidades, com independência administrativa? Por que não, em cooperativas, os habitantes das agrovilas produzirem os alimentos necessários a todos e serem bem remunerados por seu trabalho? Os agricultores e os camponeses têm capacidade de se organizarem em defesa contra as intempéries, através de trabalhos coletivos de irrigação, em tempos de sequidão. São capazes de produzirem energia com a luz do sol, com a força dos ventos, com o biogás... São capazes de construir rodovias para a escoação da produção. São capazes de abrir canais e poços e cisternas.

 

CRAVO - São capazes até de se organizarem politicamente contra os grandes senhores de terra, contra a tirania dos grandes proprietários, quase sempre especuladores e parasitas, contra a ditadura insuportável e desumana da posse e do poder. O que faz as pessoas ficarem nas cidades? A televisão? Isso hoje não é mais problema! Os salários ilusórios? Que se paguem salários reais aos camponeses e agricultores! O clube? A escola? O hospital? Que se leve tudo isso para os campos e para as fazendas. Façamos um esforço de imaginação: imaginemos o Triângulo Mineiro com cem agrovilas! Imaginemos se, cada cidade ao atingir cem mil habitantes, fosse obrigada a construir uma agrovila com no máximo dez mil habitantes e dessa independência administrativa, política e técnica a ela! Imaginemos se, através de leis agrárias e política agrícola, acabasse a dominação dos grandes proprietários de terra – usurários de terras – e houvesse uma distribuição de terra para o uso e não posse!

 

CANELA - O Brasil tem, em seu território 60% de terras cultiváveis. O Brasil, em relação ao mundo inteiro, tem 10% de terras cultiváveis. É muita terra para tão pouca produção e tanta gente ainda passando fome. Imaginemos um povo, vivendo decente e dignamente, com alimentos, roupas, moradias, educação, saúde! Imaginemos agricultores e agrônomos e veterinários e engenheiros e fazendeiros e gente auxiliando-se mutuamente, em busca de interesses comuns, em cooperativas, dividindo lucros, levando-se em conta os instrumentos, o trabalho, a quantidade e qualidade do que foi produzido! Imaginemos, depois da matéria bruta produzida, as pequenas primeiras indústrias, implantadas nas agrovilas, agregando valor ao produto porque economizaria no transporte das mercadorias. O homem é um ser de decisões. Os nossos problemas não são resolvidos por absoluta falta de vontade política dos nossos políticos.