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Décio Bragança 09/06/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Amor de graça

Dia dos Namorados, Dia do Amor. Que tudo tenha se transformado em mercadoria, ninguém duvida. Mas será que também o amor virou mercadoria colocada à venda? Muitos sociólogos, filósofos, psicólogos, psicanalistas, cientistas de toda a ordem, tentaram entender através de muitos estudos e pesquisas o amor entre os homens, além de seus aspectos instintivos e de caráter animal. O amor entre os homens é um desafio, porque sempre estará na presença do outro e o outro sempre será um problema para os homens – a questão da alteridade. Sartre já nos ensinou que “o inferno são os outros”. O amor é uma relação com o outro. Como toda relação, há um caráter altamente subjetivo, ou ainda um verdadeiro encontro de subjetividades. Claro, o amor deve ter um caráter físico, químico, biológico, psicológico, espiritual, ontológico, por isso misterioso e inexplicável, sem razão e sem motivo.

Amor que faz doer
Os poetas deliram diante do amor. Vejamos alguns exemplos: Carlos Drummond de Andrade - As Sem - Razões do Amor: “Eu te amo porque te amo. / Não precisas ser amante, / E nem sempre sabes sê-lo. / Eu te amo porque te amo. / Amor é estado de graça / E com amor não se paga. // Amor é dado de graça / É semeado no vento, / Na cachoeira, no eclipse. / Amor foge a dicionários / E a regulamentos vários. // Eu te amo porque não amo / Bastante ou demais a mim. / Porque amor não se troca, / Não se conjuga nem se ama. / Porque amor é amor a nada, / Feliz e forte em si mesmo. / / Amor é primo da morte, / E da morte vencedor, / Por mais que o matem (e matam) / A cada instante de amor.” 

Amor que faz chorar
Passamos, agora, Luís Vaz de Camões: Amor é um fogo que arde sem se ver, / é ferida que dói, e não se sente; / é um contentamento descontente, / é dor que desatina sem doer. // É um não querer mais que bem querer; / é um andar solitário entre a gente; / é nunca contentar se de contente; / é um cuidar que ganha em se perder. // É querer estar preso por vontade; / é servir a quem vence, o vencedor; / é ter com quem nos mata, lealdade. // Mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade, / se tão contrário a si é o mesmo Amor?” Outro poema de Camões: “Busque Amor novas artes, novo engenho / Pera matar-me, e novas esquivanças, / Que não pode tirar-me as esperanças, / Que mal me tirará o que eu não tenho. // Olhai de que esperanças me mantenho! / Vede que perigosas seguranças! / Que não temo contrastes nem mudanças, / Andando em bravo mar, perdido o lenho. // Mas, enquanto não pode haver desgosto / Onde esperança falta, lá me esconde / Amor um mal, que mata e não se vê, / / Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como e dói não sei porquê.” 

Amor que faz sofre
Vamos ler só mais um poema de Vinicius de Moraes, em seu Soneto de Fidelidade: “De tudo ao meu amor serei atento / Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto / Que mesmo em face do maior encanto / Dele se encante mais meu pensamento. // Quero vivê-lo em cada vão momento / E em seu louvor hei de espalhar meu canto / E rir meu riso e derramar meu pranto / Ao seu pesar ou seu contentamento // E assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama // Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure.” 

Amor que faz gozar
Para os poetas, impossível imaginar que o amor possa ser mercadoria, como querem as pessoas da pós-modernidade, vivendo no mundo de um novo deus: o mercado. Há no mundo muitas doenças, umas mais graves e outras menos graves, provocadas pelo desejo de amar e ser amado. Nesse sentido, os psiquiatras nadam de braçadas que tentam de forma explicar o amor em todos os seus aspectos e manifestações. Uns têm a certeza de que são amados e cometem crimes bárbaros; outros eternamente insatisfeitos e deliram. Uns amam sozinhos porque têm certeza de não serem amados, pensando que tudo conspira contra ele; outros amam a muitos, porque têm a certeza de todas as pessoas existem para ele, somente para ele. Uns amam, odiando; outros odeiam, amando. Uns são infiéis para continuar amando; outros não traem e se enchem de ciúmes. Uns assumem a sua homossexualidade; outros se defendem com unhas e dentes para não se aceitarem homossexuais e partem para a homofobia. A verdade é que a construção da ideia amorosa foi, é e será uma construção de delírios e de suspiros e de sussurros. 

Amor que faz rir
A história da Humanidade está repleta de histórias de amor fascinantes, retratadas em romances, filmes, novelas. A título de exemplificação vale a pena ler, ouvir, assistir as histórias de amor de Romeu e Julieta, Cleópatra e Marco Antônio, Lancelot e Guinevere, Tristão e Isolda, Paris e Helena, Orfeu e Eurídice, Napoleão e Josefina, Camões e Dinamene, Otelo e Desdêmona, Sansão e Dalila, Odisseu e Penélope, Paolo e Francesca, Scarlett O’Hara e Rhett Butler, Eros e Psiquê, Jane Eyre e Rochester, Layla e Majnum, Bonnie e Clyde, Eloise e Abelardo, Píramo e Tisbe, Elizabeth Bennet e Darcy, Salim e Anarkati, Lenon e Ono, Pocahontas e John Smith, Shah Johan e Mumtaz Mahal, Rainha Vitória e o Príncipe Albert, Eduardo VIII e Wallis Simpson, Marie e Pierre Curie, Adão e Eva, São Francisco e Santa Clara, Lampião e Maria Bonita, Dante e Beatriz...

Amor que faz viver
O amor foi, é e será sempre um pedido de amor e de socorro, porque, no fundo, o outro é o próprio desejo e objeto do amor. Se há desejo há uma sensação de incompletude, de falta, de carência. Ninguém deseja o que já tem. A expectativa de quem pede alguma coisa será sempre maior do que a resposta ao pedido. Daí, muitos entenderem o amor como algo inalcançável, inatingível, intangível, utópico, como aquela estrela idealizada por Manuel Bandeira. “Por que de sua distância não baixava aquela estrela? E ela me respondia que assim fazia para tornar mais triste o final do meu dia.” A resposta de um pedido amoroso será sempre um fracasso, muito menor do que a menor expectativa amorosa. 

Amor que faz morrer 
Nesse sentido, exigimos muito do outro, mas também o outro exige muito de nós. O pedido amoroso será sempre uma relação impossível, uma unidade impossível. O problema é que não há roteiros, caminhos pré-estabelecidos, receitas, mapas da mina, nem GPS para a realização dos encontros amorosos. Os encontros, felizmente para alguns e infelizmente para outros, são fortuitos, contingenciais, circunstanciais que podem ou não durar. A escolha do parceiro dependerá muitos mais da criatividade e capacidade inventiva de quem deseja e pede o amor.