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Décio Bragança 16/06/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Ainda o amor

Toda escolha é sem motivo racional, será sempre um enigma. As pessoas amam sem razões – o que nos torna frágeis e ridículas, como entendia Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa: “Todas as cartas de amor são / Ridículas. / Não seriam cartas de amor se não fossem / Ridículas. // Também escrevi em meu tempo cartas de amor, / Como as outras, / Ridículas. // As cartas de amor, se há amor, / Têm de ser / Ridículas. // Mas, afinal, / Só as criaturas que nunca escreveram / Cartas de amor / É que são / Ridículas. // Quem me dera no tempo em que escrevia / Sem dar por isso / Cartas de amor / Ridículas. // A verdade é que hoje / As minhas memórias / Dessas cartas de amor / É que são / Ridículas. // (Todas as palavras esdrúxulas, / Como os sentimentos esdrúxulos, / São naturalmente / Ridículas.)”

Ainda a sedução
A fragilidade amorosa é que nos impele à sedução, ao cuidado da pessoa escolhida e amada. O mistério, o desafio, o enigma são tão grandes que afirmamos quase sempre: “O destino nos uniu” ou “Encontrei minha alma gêmea”, porque não acreditamos que fomos capazes de escolher alguém e amar alguém. O interessante que o amor não exige reciprocidade, como o exige a amizade. Não existe amizade sem reciprocidade. Pode-se amar alguém que se recusa e se fecha ao amor, mas é impossível ser amigo de alguém que recusa a amizade. Essa reciprocidade é que permite a liberdade de expressão, a autonomia do pensamento, o livre dizer as coisas e os sentimentos. Se no amor há muitas coisas inexplicáveis e enigmáticas, porque inconscientes, na amizade, há mais clareza de propósitos, objetividade de interesses, coerência de intenções. Em outras palavras, o jogo é melhor jogado, porque com regras definidas. Chora-se um amor perdido, mas raramente chora-se a perda de um amigo. Isso porque na amizade a liberdade é tamanha que é permitida até a separação, a perda, a presença de terceiros e muitos terceiros, sem ciúme e sem posse, sem exclusividade e disputa de poder. 

Ainda o prazer
O amor também é um aprendizado. Aprendemos a amar primeiramente nosso papai, nossa mamãe, nossos irmãos – primeira experiência importantíssima na vida de todos e de cada um. Essa experiência, segundo estudiosos e cientistas, cria laços e determina o ritmo de vida amorosa futura – razão de existir. Sair para o mundo, pegar estrada é romper com essa primeira experiência. A ruptura também é um aprendizado. Cada ruptura é um passo em frente, um passo a mais. Para os pais, a ruptura traz uma sensação de abandono, de desprezo a tudo aquilo que ensinaram a seus filhos. Para os filhos, ruptura significa libertação, abertura escancarada ao outro e muitos outros. 

Ainda o outro
O problema é que os pais criam muitas expectativas em relação aos filhos, que, para eles, não correspondem aos seus desejos. O interessante é que os próprios pais já experimentaram na própria carne quando também produziram a ruptura com os pais deles. “Não façam o que fiz, façam o que eu falo para fazer”. Essa ruptura – meio que desobediência e rebeldia – um novo parto – é, sem dúvida, um xeque-mate à autoridade dos pais. “Cuidem de sua vida, porque eu já sei cuidar da minha!” E assim vão acontecendo muitos partos na nossa vida. O amor – esse grande enigma – muitas vezes provoca reações das mais inusitadas possíveis, até um amante matar o outro. 

Ainda a arte
A literatura e o cinema, o teatro e as poesias estão recheados de grandes enigmas. O ciúme, o adultério, as estratégias amorosas, o sofrimento e a dor do amor, a solidão dos amantes... são temas retratados em textos bíblicos e sagrados, laicos e demoníacos, em todos os tempos e lugares. Assim como a história de Romeu e Julieta – símbolo do amor maior, porque venceu todos os obstáculos – Willian Shakespeare nos traz também o símbolo do amor maldito, provocado pelo ciúme: Otelo, que não acredita na verdade e na fidelidade de sua amada Desdêmona, mas acredita no fofoqueiro Iago. Como a fofoca faz mal ao amor! Como o ciúme faz mal ao amor! Existem muitos Otelos! E como existem Iagos!

Ainda a canção
Há, na realidade, uma diversidade de amores, porque há uma diversidade de emoções e reações. O que importa é a satisfação e o prazer que possamos oferecer gratuitamente ao outro. Se o amor não for gratuito, não é amor. O preço do amor é a possibilidade de sofrimento da ruptura. Como o amor não exige cumplicidade nem reciprocidade, claro, a possibilidade de sofrimento é muito maior do que a amizade. Vamos ler o poema, cantado por Simon e Garfunkel, com tradução livre, só para me lembrar de minha adolescência e juventude: “Um dia de inverno, num dezembro profundo e escuro, eu estou sozinho, olhando da minha janela para as ruas abaixo. Nesse silencioso manto de neve, eu sou uma pedra, eu sou uma ilha, onde eu construí paredes, uma profunda e poderosa fortaleza, que ninguém pode penetrar. Eu não tenho nenhuma necessidade de amor; o amor provoca dor. Desprezo quem ama. Eu sou uma pedra, eu sou uma ilha. Não fale de amor. Já ouvi essas palavras antes. O amor está dormindo na minha memória, por isso não vai perturbar o sono dos sentimentos que morreram. Se eu nunca tivesse amado, eu nunca teria chorado. Eu sou uma pedra, eu sou uma ilha. Tenho meus livros e minha poesia para me proteger. Eu estou protegido na minha armadura. Escondendo em meu quarto, estou seguro dentro de mim mesmo. Não toco ninguém e ninguém me toca. Eu sou uma pedra, eu sou uma ilha. E uma rocha não sente dor, e uma ilha nunca chora.” Como é contraditório o amor! Diante de tanto sofrimento, vale a pena ainda amar? Será que para se fazer sexo é mesmo necessário amar? Quem pratica sexo, ama? Quem ama, pratica sexo?

Ainda a entrega
O amor é uma subordinação de um desejo ao desejo do outro – esse é o grande desafio: ser-com-o-outro. O cientista político e social, fundador do psicodrama, professor Jacob Levy Moreno (1889 – 1974) nos deixou uma pérola: “Um encontro entre dois: olho a olho, cara a cara / E, quando estiveres perto, arrancarei teus olhos / E os colocarei no lugar dos meus / E tu arrancarás meus olhos E os colocarás no lugar dos teus Então te olharei com teus olhos / E tu me olharás com os meus.” O problema do amor é que não conseguimos ver o outro com os olhos do outro. Queremos ver o outro com os nossos olhos, exigindo que tenha, pense, seja, esteja, comporte-se, ame ou odeia do mesmo jeito que pensamos, amemos ou odiamos. Que bela é a violência do amor: arrancarei teus olhos e tu arrancarás os meus olhos. Que experiência de vazio existencial maravilhosa: eu te verei com os teus olhos e tu me verás com os meus olhos. Abro mão de mim, abrindo mão de meus olhos. A maravilha é que no lugar dos meus os teus. Assim, não há espaço vazio: teus olhos ocupam o lugar dos meus. Assim, o outro me enche, me ocupa todos os lugares que eu, voluntariamente, abri mão.