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Décio Bragança 23/06/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Primeiro a paz, depois a ordem

Nesses últimos dias, o Brasil inteiro está nas ruas. Na quinta-feira última, dia 20, mais de um milhão de pessoas em mais de cem cidades estavam nas ruas e avenidas, protestando, exigindo novos tempos, nova ordem política, nova ordem econômica, nova ordem jurídica. Outro mundo é possível! Existem vários modelos de desenvolvimento e, talvez, nós tenhamos escolhido o pior de todos, que é o modelo estadunidense: consumo desnecessário de mil e uma futilidades, individualismo exacerbado e excludente, pouca participação do Estado, domínio total e absoluto do mercado – bezerro de ouro. Em outras palavras, os três poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário – vivem submetidos ao mercado. Tudo virou mercadoria. Até a dignidade. Até o amor. Até a fé. Até a paz. Até a justiça.

Primeiro a saúde, depois hospitais
É plataforma de muitos governos – municipal, estadual, federal – a construção de hospitais, muitos hospitais. Hospital é para tratar doenças, cuidar de doentes. Não precisamos de doenças, precisamos, sim, de saúde – prevenção de doenças. Para tanto, saneamento básico, esgoto tratado, água encanada, ruas e avenidas urbanizadas, diminuição de produção de lixo, coleta seletiva de lixo... e tantas outras medidas urgentes e necessárias. Outro mundo é possível! Imaginemos se fosse lei: as embalagens – latas, papelões, garrafas pet, aparelhos descartáveis, pilhas, sofás, cadeiras, tudo deveria ser devolvido às lojas, aos supermercados, aos shoppings que venderam e/ou vendem tais “lixos”. O comércio devolveria à indústria e a indústria, por sua vez, seria obrigada a criar outra indústria de reciclagem. Quem produz o lixo tem de ser responsável de resolver o problema do lixo. Sem lixo, o povo é mais saudável, menos doente. Vejam as muitas fábricas de cervejas e refrigerantes, por exemplo: inventaram as latas e as garrafas pet para não terem responsabilidade nenhuma com o lixo, apenas com o produto. Uma irresponsabilidade, uma imoralidade, uma sacanagem, porque estão transferindo responsabilidades. E assim, as indústrias e o comércio de geral.

Primeiro a justiça, depois as leis
O povo é sempre vítima. O povo é sempre responsabilizado por todas as desgraças que são produzidas pelos governos e por grandes empresas nacionais, internacionais, transnacionais. Quem produz o pneu que acumula água – lugar de reprodução do mosquito da dengue? A indústria de pneus tem de ser responsabilizada pelo “lixo” que produz. Todos os pneus têm de ser devolvidos às fábricas e as fábricas que se virem para a sua reciclagem. A indústria sacaneia e as prefeituras que se virem. Um absurdo! Claro, os políticos têm de ser responsabilizados porque não criaram nem criam leis para a proteção e cuidado do povo, das pessoas. A coleta de lixo só de produtos orgânicos: folhas de verduras, frutas, papeis, resto de alimentos. Nada pode culpar o povo. O povo é sempre vítima da irresponsabilidade dos poderosos econômicos e dos poderosos políticos. Outro mundo é possível! 

Primeiro a sabedoria, depois as escolas
Se o povo não é bem educado a culpa não é dele, porque as escolas, com raríssimas exceções, não estão fazendo nada sério em relação à educação. As escolas, infelizmente, optaram por fazer provas e exames em detrimento da ciência, cultura e arte: Enem – Enade... Um aluno universitário, por exemplo, que estudou por doze, treze anos a disciplina Língua Portuguesa, não sabe a sua língua-mãe. A culpa é dele? Claro que não. Foram doze, treze anos perdidos, inúteis, desnecessários. A violência nos corredores e nas salas de aula é consequência da inutilidade, mediocridade, futilidade – uma perda de tempo. Se nada tem para ser feito, façamos o quebra-quebra, o arrastão, o bota pra quebrar. Educação é muito mais do que fazer provas e exames. Outro mundo é possível!

Primeiro a fé, depois as religiões
As religiões criaram um governo paralelo e cobram tantos impostos quanto o governo para construírem impérios e mansões. Nestas manifestações populares dos últimos dias, não estamos vendo nenhum padre ou pastor, bispo ou cardeal, lado a lado com o povo. Passando os olhos pelos canais “religiosos” de televisão, nenhum deles e nenhum de seus apresentadores falam ou se posicionam a favor do povo. Querem, sim, doações, dízimos, sócios da nova bolsa de valores: Deus. A Igreja Católica que já teve a participação efetiva, concordemos ou não, de um Helder Câmara, Paulo Evaristo Arns, Pedro Casaldághia, Mauro. No começo, um simples olhar: olho a olho, olhos nos olhos. Com esse olhar, o outro me diz quem é e eu lhe digo quem sou. Conhece-se pelo olhar. Conhecemo-nos pelos olhares. O outro não é o meu espelho, porque quer que o veja com os olhos dele e não os meus. O meu olhar não é o olhar dele, porque realmente vive e é separado de mim, muitas vezes, até contra mim. O interessante é que cada um de nós é com o outro. Talvez, sem o outro ninguém seja. Acredito que não seja uma atitude narcisista, mas ninguém quer ser compreendido, amado do jeito do outro, mas do próprio jeito. Ser para o outro não significa ser o outro. A atração, o flerte, a aproximação, o beijo, o abraço criam laços e nós que não se desatam, por vontade e por desejo. Depois o cara a cara. Ao encararmo-nos nos perdemos no outro, à espera da reação do outro. A tristeza maior deve ser quando o outro não reage e a gente de braços abertos à espera do abraço do outro. E o outro não abraça. No fundo seria como se a gente gritasse: “Me veja, pelo menos, como eu me vejo!” o outro nunca poderá ser destruído. Caso contrário, muitos braços ficarão esperando abraços eternamente. Quanta desilusão! Quanta solidão! Não é por acaso que muitos amantes mesmo juntos, às vezes se sentem sós.