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Décio Bragança 30/06/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Fim de semestre

Tudo muda. Tudo passa. “A mesma água não passa pela mesma ponte duas vezes” – “Águas passadas não movem moinho” – ensinaram-nos nossos avós. O universo está em expansão e tudo que nele é está em expansão. O ser humano vive num eterno movimento de renovação, de conversão, de libertação, de revolução. E essa dinâmica, esse movimento, esse caminhar e pegar a estrada é que nos atraem e nos levam, todos juntos, para frente. A caminhada tem muitos obstáculos e pedras. Muitos cansados, desiludidos, frustrados, escutam o canto da sereia e se lançam ao mar em busca de fama, de sucesso, de riquezas, de poder, do consumo desenfreado, do individualismo exacerbado e desumano. Há muitas sereias à espera dos navegantes e dos estradeiros. “Navegar é preciso. Viver não é preciso” – nos ensinaram os portugueses. A estrada é a esperança. O mar é sedutor. O futuro é possível. 

Fim de mês
O futuro dá força nos braços e nos pés. Incendeia e faz explodir os corações. Os desejos inspiram os movimentos, minimizando as desilusões e maximizando o alvorecer. Muitos há que se abismam na imoralidade e na raiva, se aprofundam na mediocridade e no rancor, se embrenham na futilidade e no ressentimento, mergulham na desgraça e no remorso, se sujam nas merdas da luxúria e das rusgas. A utopia renova as bases da Justiça, do Trabalho, do Amor, da Ciência, da Fé – todas com letras maiúsculas em contraste com as letras minúsculas: leis e punições e castigos; empresas e horários e salários; casamento e família e herança; escolas e provas e reprovações; religiões e dogmas e pecados. Sem muitos limites e dogmatismos, é possível a construção de um novo mundo com novos homens e novas mulheres, aumentando a felicidade individual e coletiva, diminuindo as dores e sofrimentos pessoais e sociais. 

Fim de semana
As pessoas que não tiveram adolescência nem juventude, caracterizadas pela rebeldia, pela desobediência, pela subversão, pela libertação, por um novo parto, se enraizaram nas tradições, nos mitos, nas mentiras, nas ideologias e disputa de poder. Essas querem satisfações imediatas, presentes, urgentes e individuais – benesses do poder constituído. Esse é o prêmio da subserviência e escravidão voluntária, da humilhação e domesticidade. Não há razões para a construção de um ideal a não ser querer estar bem, estar melhor, ser mais e ser melhor. Alguns perdem a vida no afã e desejo de buscar um sentido para a vida pessoal e coletiva. O sentido e as razões da vida estão na própria vida – o que constitui um direito. Qualquer sentido e/ou razão fora dos direitos são caminhos tortuosos que nos levam ao mesmo lugar - correndo atrás do próprio rabo. Sem ousadia e sem dor não há caminhos possíveis que sirvam a nobres ideias. Mais vale um ideal do que os arranjos, as falcatruas, a impunidade, a sonegação, a corrupção, os paraísos fiscais, o caixa dois – o que hoje chamam de governabilidade. 

Fim de dia
Há muito mais partos que devem ser realizados. Um dia, a mulher, nova mãe, nos expulsou do seu útero – melhor lugar que já experimentamos. Mesmo assim, ela nos expulsou, porque, apesar de suas contrações e dor, foi preciso para o bem dela e principalmente para o nosso bem. Sofrimento e dores da mãe, sofrimento e dores do filho. Nascer é isso. Para nascer, é preciso ser expulso e colocado no mundo. Viver, então, é estar no mundo das coisas e das pessoas. Estar consigo mesmo e estar com os outros. Precisamos, sim, de parir. Parir para libertar-se e libertar o outro. Parir para viver consigo mesmo e com o outro. Mesmo se esse outro nos seja contrário, adversário, não concorde com a gente. “Eu não concordo com a sua vida, não concordo com nada em que você pensa e diz, mas lutarei até a morte por sua vida, por suas ideias e por suas palavras”.

Novo semestre
Ficar parado é covardia, porque à espera do que poderá ser conseguido e se beneficiar das conquistas e vitórias das quais não participou. Muitos, por exemplo, dão a cara a tapa nas greves, nas manifestações, nos movimentos sociais... Se presos ou processados ou indiciados, respondem individualmente. Se vitoriosos, os benefícios são de todos. “Queremos o bônus e deixamos o ônus para os outros.” Pela minha experiência, sei que muitos que brigam pelos benefícios conquistados com muito sangue, com muito suor e com muitas lágrimas, não derramaram sequer uma gota de sangue, de suor, de lágrimas. Viram o cortejo passar. Nem sequer um apoio e força coletiva. Não foi Verônica, nem Cirineu.

Novo mês
A capacidade de decidir é o segredo dos grandes empreendimentos. Quem não quer voar, se arrasta – mais ou menos é o que nos ensina Leonardo Boff, no seu grande livro “A águia e a galinha”. Os desejos se efetivam na ação, no dia a dia, agora e aqui. Os covardes sempre dizem: “Eu queria... eu podia... eu faria... eu seria...” Quem não realiza seus desejos tem medo de viver, de conviver, até de sobreviver. Parasitas, acomodados, parados são sementes, germes, bactérias, vírus da miséria e desgraça moral. Cruzar os braços é morrer a cada dia um pouco mais. Os caracóis diante do perigo entram em suas próprias casas. Os avestruzes diante de qualquer ameaça enfiam sua cabeça nas areias. Os camaleões diante de um obstáculo, mudam sua cor para ficar parecendo com outra coisa. Há ainda muitos caracóis, camaleões e avestruzes. 

Nova semana
A vida não se apaga. Todos juntos é que aramos a própria terra para lançar as sementes. “Quem não serve aos grandes ideais e sonhos, não serve para viver. Quem não serve aos outros, não serve para viver.” Não existe salvação individual, como também não existe perdição individual. Ou nos salvamos todos juntos, ou nos perderemos todos junto. Somos cúmplices do bem e do mal. Não há limites entre as pessoas, uns estão nos outros, como nos ensina a ética, a história da humanidade. Basta observarmos a genética: na minha carteira de identidade trago o meu pai e minha mãe; na minha certidão de nascimento trago meus pais e os quatro avós; na vida, trago todas as pessoas dentro de mim e todas as pessoas me trazem dentro delas.
 
Novo dia