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Décio Bragança 21/07/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Um novo jeito de educar pra ser feliz

O fato é que os pobres sofrem muito neste mundo de meu Deus. Ser pobre não é fácil! A injustiça ou a sensação de que se está sendo injustiçado pode invadir, minar, destruir os espaços urbanos da boa convivência. Hoje, rouba-se por um tênis de marca, uma roupa de grife. Novamente, as religiões propõem a acomodação, o comodismo, a calma para os pobres: “Felizes os pobres, porque deles é o reino dos céus!” (Mateus 5, 3). O interessante é que sempre haverá uma palavra para trazer a calma aos que sofrem todas as formas de injustiça. Felizes serão do lado de lá da terra, depois da morte. Será que esse reino dos céus não provoca inveja nos ricos? Será que os ricos também não querem o reino dos céus? Claro, que não!

Tem tanta gente sem direito de estudar
As repúblicas e a democracia existem para distribuir os maiores benefícios possíveis para o maior número possível de pessoas. Enquanto continuarem esses disparates, essas desigualdades, essas contradições, esses senões, esses desaforos não haverá nem democracia, nem república. Muitos pensadores e filósofos, como Thomas Malthus, David Ricardo, entendem que os pobres são mais férteis, porque pobres; portanto, a culpa é deles mesmos! Para que e por que têm tantos filhos? Por que eles não se controlam, ou não controlam os seus instintos mais animalescos possíveis, não controlam essa fertilidade exagerada? Claro, esses pensadores assim argumentam para tirar a culpa dos ricos e jogá-la aos pobres, porque também é bom viver sem culpa. Malthus chegou a dizer que os ricos não podem controlar a cama dos pobres, por isso não têm responsabilidade nenhuma com a pobreza e com a miséria, com a fome e com a desgraça. Quanta insensatez e estupidez!

Outro mundo é possível
Muitas teorias, umas responsabilizando e culpando a maneira da própria organização humana, outras responsabilizando e culpando individualmente as pessoas, aparecem nos últimos séculos, do século XIX para cá. Até Charles Darwin – adepto do evolucionismo biológico – é usado para justificar o evolucionismo social. Assim, como só sobrevivem os mais fortes, os mais inteligentes, os mais adaptáveis ao reino natural e biológico, também em sociedade devem sobreviver os mais inteligentes, os mais espertos, os mais ricos, os mais fortes. Essa é a lei da sobrevivência, essa é a lei da seleção natural. Hitler também, na prática, usou essa teoria: a eliminação dos mais fracos, dos menos inteligentes, dos pobres era ou seria uma maneira de purificar, melhorar, aprimorar a raça humana. Quanta insensatez e mediocridade!

Juntar as forças
No fundo, é preciso impor sacrifícios aos trabalhadores para aprimorar a economia, pensam alguns. É preciso podar alguns ramos e galhos para fortalecer, fortificar a árvore e seus frutos. Em outras palavras, a organização social, política, econômica deve privilegiar alguns poucos em detrimento de muitos. Todo privilégio é odioso! Todo privilégio é uma injustiça, contra todos os deuses de qualquer fé. Difícil é falar de um projeto divino para os homens, vivendo esta situação degradante a que estão submetidos 1,5 bilhão de pessoas no planeta (quase um quinto da humanidade) vivendo abaixo da linha da pobreza – menos de um dólar por dia. Não se trata de instigar raivas e ódios, mas a tentativa de construção de uma terra sem males e sem injustiças. Não se trata de provocar conflitos e criar problemas entre as pessoas, mas desejar que cada um e todos possam ter um mínimo de dignidade, em clima de paz e harmonia, de tranquilidade e sinergia. Não se admite tanta violência, tanta ameaça, tanta monstruosidade, sob os nossos pés, diante de governos incompetentes e a serviço de privilégios. Nada é feito, construído da noite para o dia, mas é preciso começar um movimento de consciência social, um bom espaço de vivência e convivência humana. É preciso proteger a vida, em geral, e proteger a vida das pessoas. Quanta arrogância e prepotência!

Segurar de mão em mão
De tempos em tempos, as propostas vêm recheadas de palavras como “austeridade” – “honestidade” – “compromisso” – “responsabilidade”. Resumidamente, os políticos e os candidatos a cargos políticos, influenciados pelo grande capital e seus capitalistas, estão querendo é a eliminação de direitos adquiridos com muita luta e conquistas, como os direitos dos aposentados, redução e privatização da assistência médica, diminuição de gastos com educação – como se isso fosse uma torneira aberta da gastança. Esse discurso agrada a todos de forma ideológica, fazendo uma “lavagem cerebral”. Querem a menor interferência dos governos dos municípios, dos estados e do país nos assuntos econômicos. Sem propostas e intervenção dos governos, alguns nadam de braçadas, decretando o empobrecimento progressivo das pessoas. Por isso, de modo geral, todos nós somos contra “Bolsa-Família” – “Bolsa-Estudo” – “Bolsa-Cultura” – “Bolsa-Esporte” – “Cotas para negros e para estudantes de Escola Pública” – e tantas outras políticas públicas do governo. Queremos uma sociedade meritocrata, mas as condições de vida são muito desiguais. E assim, os méritos só ficam nas mãos dos maiores e dos mais fortes.  

Uma corrente em prol da educação
No mundo natural, claro, a natureza tem suas leis, sua possível harmonia, dançando num próprio ritmo. O problema é que os seres humanos não são árvores, não são animais simplesmente, não são pedras. Têm sensibilidade, cabeça, símbolos, ideias, sonhos, ideais e trazem a utopia como meta – o que não acontece teoricamente com nenhum outro ser. O ser humano é o único ser em expansão, é o único ser em construção, por opção e vontade de ser, de ser-mais, de ser-melhor. Isso para dizer que ultrapassam os limites dos instintos determinantes do mundo físico e biológico. Mesmo com a insistência de muitos pensadores, filósofos, teólogos, antropólogos, sociólogos, é preciso libertarmo-nos, livrarmo-nos de algemas naturais, de amarras darwinianas, de correntes do determinismo. Essa é a melhor maneira de expressarmos geometricamente o ser humano: uma espiral sempre em expansão e em construção. Construção aqui tem a dimensão de todos os sentidos: social, político, econômico, cultural, religioso, familiar, jurídico, acadêmico, profissional... Na verdade, a vida do homem em sociedade não pode ser, mínima e simploriamente, entendida com a vitória e a seleção dos melhores, dos mais fortes, dos mais ricos. Será que estamos fadados a devorar, explorar, espezinhar, humilhar, pisar os mais fracos, os mais pobres, os piores, os mais frágeis?