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Décio Bragança 10/03/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
"Senhor, tende piedade de nós."

Conta-nos a história bíblica que, depois de Deus ter criado tudo, criou o homem do barro, do pó. "Tu és pó e ao pó há de tornar-se". Deus soprou-o e lhe deu vida, dando-lhe a terra maravilhosa para a sua admiração, glória e deleite. Viu Deus que o homem - Adão - estava muito só e quis dar-lhe uma companheira. Adão entrou num sono profundo e Deus tirou-lhe uma costela e fez a mulher - Eva. Essa metáfora nos faz crer que assim o homem torna-se filho de Deus e a mulher, filha do homem - o que mais tarde, na história da humanidade, vai se tornar um grande problema: o homem como filho de Deus deverá dar satisfações a Deus e a mulher como filha do homem deverá dar satisfações ao homem. Estava criada a primeira verticalização perversa da futura organização social.

"Gospodine, smiluj se."
Até depois do "pecado", os castigos serão diferenciados, penalizando muito mais a mulher: o homem deverá trabalhar muito (ganhar o pão com o suor do rosto) para ser o provedor e a mulher deverá dar à luz com muita dor. Para o homem, o trabalho como sacrifício - "homem que é homem tem de trabalhar"; para a mulher, o parto dolorido - "mulher que é mulher tem de parir" - definindo bem os papéis e as funções de cada um. Por isso, raras vezes sentimos prazer no trabalho e parto sem dor. Assim, muitos, até hoje, pensam ser a mulher submissa ao homem. O homem que produz o sêmen é o semeador (etimologicamente têm o mesmo radical latino); a mulher, a terra fértil que acolhe a semente. A cada 15 - quinze - segundos uma mulher sofre violências físicas e psicológicas de seu companheiro, marido, namorado, ex-marido...

"Lordhavemercy."
A construção da imagem da mulher pelos homens, através dos tempos e lugares, foi sempre a de "pecado", porque, segundo a história, foi a mulher-Eva, quem induziu o homem-Adão, a comer o "fruto proibido". Nossos pais e avós ensinavam aos homens: "Cuidado: uma mulher poderá te levar para o céu ou para o inferno!". A literatura e as artes sempre exploraram e exploram a noção de mulher-pecado, que faz o homem sofrer, matar, suicidar. Algumas religiões, até o século XIX, não admitiam que a mulher tivesse alma, espírito; por isso, depois de morta, ia para o limbo - lugar virtual, sem felicidade, mas também sem infelicidade; sem alegria, mas também sem tristeza - um marasmo total e absoluto.

"Seigneur, prendspitié."
O homem, em praticamente todas as religiões, menos as africanas, era entendido como alguém que tem de dar satisfação a Deus, depois de morto; por isso, vai para o inferno ou vai para o céu. Tudo, em sociedade, foi e é construído a partir de um jogo de intenções e interesses, imperceptíveis e secretos, inconfessáveis e latentes.As noções de masculinidade e feminilidade, de pecado e virtude, de céu e inferno, têm de ser questionadas profundamente. Por que para algumas religiões não existe inferno, não existe pecado? Por que em algumas tribos indígenas as mulheres parem sem essa dor insuportável, como afirmam as mulheres cristãs? Por que em algumas tribos quem sente as dores do parto é o homem? Será também a dor construída cultural e socialmente? Não será real (verdadeiro/concreto) o que é virtual? Não será virtual (mentira/ ilusão/mito) o que é real? O céu, inferno, diabo, pecado são reais ou virtuais? 

"Kyrie, eléison."
O fato é que quando se fala muito em diabo, capeta, demônio, anhangá, anhanguera, anjo mau, arrenegado, atentado, azucrim, beiçudo, bicho, bicho-preto, bode-preto, bute, cafuçu, cafute, caneco, canheta, canhim, canhoto, cão, cão-miúdo, cão-tinhoso, capa-verde, capeta, capete, capirocho, capiroto, careca, carocho, cifé, coisa, coisa-à-toa, coisa-má, coisa-ruim, contra, coxo, cujo, debo, decho, demo, diá, diabro, diacho, diale, dialho, diangas, dianho, diogo, droga, dubá, ele, Espírito de porco, excomungado, exu, feio, figura, fute, futrico, galhardo, gato-preto, grão-tinhoso, indivíduo, inimigo, lúcifer, mafarrico ou manfarrico, maioral, maldito, mal-encarado, maligno ou malino, malvado, mau, mofento, mofino, moleque, moleque-do-surrão, não-sei-que-diga, nem-sei-que-diga, pé-cascudo, pé-de-cabra, pé-de-gancho, pé-de-pato, pé-de-peia, pedro-botelho, pêro-botelho (ê), porco, porco-sujo, que-diga, rabão, rabudo, rapaz, romãozinho, sapucaio, sarnento, satânico, sujo, temba, tendeiro, tentação, tentador, tição, tinhoso, tisnado (lista do dicionário Aurélio), acrescido de inferno, trevas, pecado, descarrego, despacho, condenação eterna, acerto de contas com Deus... as pessoas dessas religiões ficam ricas, muito ricas, porque "seus" fiéis ficam sempre ameaçados em vida por Deus. Vender a alma ao Diabo, como já foi retratado em Fausto, dá muito dinheiro, dá muitos dividendos e lucro.

"Señor, tenpiedad."
O fato é quando se fala muito em Deus, amor, adoração, veneração, louvor, céu, virtudes, solidariedade, afeição, amizade, partilha, carinho, ternura, entusiasmo, paixão, zelo, cuidado, carinho, salvação eterna, libertação, ressurreição, misericórdia, piedade, perdão, felicidade, alegria, harmonia, doação, pureza, humildade, resignação, compromisso com os outros... as pessoas dessas religiões ficam pobres, muito pobres, porque "seus" seguidores não se sentem ameaçados em vida por Deus. Veja os exemplos de um Chico Xavier, Madre Teresa, Gandhi, Francisco de Assis, e ainda muitos cientistas, artistas. Que jogo de interesses e intenções de muitas religiões e de seus comandantes! Inventou-se até o termo "Teologia da Prosperidade".  Quanta incoerência! A salvação ou a perdição serão sempre coletivas, porque ninguém se salva sozinho, ou ninguém se perde sozinho. Ou salvemo-nos ou percamo-nos - eis a questão!  Como é possível ser feliz no meio de tantas necessidades humanas?

"Signore, pietà."
Dom Helder Câmara - nosso grande guru - repetindo Gandhi, Madre Teresa, Dom Pedro Casaldaghia, Luther King, dizia que enquanto houver alguém passando fome e vivendo na miséria não dá para ser feliz. Pois é, a ameaça e o medo de uma condenação eterna criaram, na Idade Média, o instituto das indulgências - uma compra de um lugar no céu em suaves prestações.

"Senhor, tende piedade de nós."