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Décio Bragança 01/09/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Jeito de amar

No amor, os papéis não estão nem podem ser definidos. Tem-se apenas a consciência de si mesmo e a consciência do outro. Que espetáculo: "Tenho o outro em mim e eu estou no outro!" Para mim, quem mais entendeu e melhor escreveu sobre o amor foi o filósofo Martin Buber (1878 - 1965). Deixou-nos: "Eu e Tu" - "Socialismo Utópico" - "Do diálogo ao Dialógico" - "O eclipse de Deus" e outras menos conhecidas, mas não menos importantes. Para Buber, eu e tu são um unidade - são duas pessoas numa só, sem limites definidos ou pré-estabelecidos. Esse é o caos absurdo do amor, porque são sujeitos que fazem, constroem uma história, só deles - o encontro. O amor não se enquadra em modelos e ou paradigmas. O que acontece com um casal de amantes necessariamente não acontece com outro. Cada história é inédita, irrepetível, intransferível, insubstituível. Por isso também o amor está acima dos aspectos culturais, políticos, econômicos, sociais, porque de uma certa forma tudo isso bloqueia a realização, a efetivação, o avanço do amor. A figura feminina, desde Eva, passando por Lillith, Psiquê, Afrodite, Vênus, no amor, vista e entendida como frágil, bela, vulnerável, dissimulada, é a desvendadora da fantasia e da curiosidade, desatadora dos nós do poder, do domínio masculino e das regras constituídas. Trocando em miúdos, Eva teve a coragem de quebrar, de romper com o estabelecido, com o proposto e imposto, mesmo que tenha sido por Deus. Não teme castigos, nem punições, nem condenação ao fogo dos infernos, porque o que importa é o amor, ser amada. A figura masculina tem medo do rompimento e ou da rejeição. Um homem rejeitado é um homem violento, agressivo, incontrolável. Por isso, não quer e não aceita o desafio de desobedecer. No amor, desobedecer é preciso. Sem desobediência desses padrões e modelos, não há encontro, não há amor.

Espera do amor
Para o grande filósofo Nietzsche, o amor não se sustenta por si só. Um casal que vive junto por algum e ou muito tempo vive junto não porque os enamorados se amam, mas porque são amigos. A amizade é mais imprescindível, é mais necessária, é mais importante do que o amor. Dificilmente conseguiríamos viver sem amigos, mas é possível vivermos sem amar ninguém. O amigo é parceiro, companheiro - come o pão que o diabo amassou junto. O amor é por si só um caos e a amizade tenta organizar, administrar esse caos. Nesse sentido, vão se renovando as idealizações de famílias, de casamento. Agora, vivendo a globalização, com a tecnologia de redes, experimentamos muitos amores, tantos quantos os acessos. Muitos habitam em nós e nós habitamos em muitos, dando vida real e até virtual a vários personagens. A Internet nos dá uma sensação de que não mais nos pertencemos: sou de todos e todos são meus; ou ainda, ninguém é de ninguém ou todos são todos. Alguns entendem que essa situação poderá trazer um vazio nunca experimentado antes. A isso se chama "amor líquido" - flying love - sem energia e sem massa e sem forma, sem solidez e sem alicerces. "Eu te amo aqui e agora. Se continuarei te amando, não sei. Possivelmente, não". Os jovens, já há algum tempo, entenderam o recado, por isso inventaram o tal de "Ficar". "Eu sou ficante de fulano". Agora, estão inventar o "Pegar". "Eu sou pegante de beltrano". Assim, podemos entender a fugacidade e a rapidez, e, ao mesmo tempo, a fragilidade e inutilidade do amor. Romantismo? Nunca mais! Para os jovens, o amor que não for sexuado não é amor. Por isso, a precocidade das relações amorosas, o erotismo nas mídias, o viagra, as preocupações com as performances sexuais. Só há um problema: a gravidez indesejada - isso é assunto de outras reflexões e análises.

Assim o amor
O ficar e/ou o pegar dependem da escolha de um parceiro facilmente descartável. O descarte não exige confiança e afeto, entrega e partilha, compromisso e cumplicidade, ternura e comunhão, companheirismo e acordo, amizade e aceitação. Por isso, também menos profundos, menos íntimos. Alguns estudiosos falam em banalização do amor e do sexo. Será mesmo? A prostituição, o estupro, o rapto, o sequestro, a pedofilia, até o incesto... sempre estiveram presentes na história da humanidade. Talvez, o que esteja acontecendo é que nada mais se faz às escuras, em segredo. Tudo está escancarado! A família já foi uma instituição forte, por causa das agressões e opressões e punições e repressões. A família, hoje, tem outra cara. Umas pessoas vão e outras vêm. Parece-me que as perdas são menos doloridas e sofridas. Ninguém é substituível, mas num mundo descartável a substituição alivia o sofrimento. Na verdade, o amor exige que deixemos o outro livre. Perder e ganhar são também um aprendizado.

Nome do amor
A melhor metáfora interpretativa do amor vem dos estudiosos e teólogos tentando explicar a Unidade Trina ou a Trindade Una de Deus. Deus uno e trino. Sendo Deus, porque absoluto, se basta a si mesmo e não precisaria de três pessoas. A questão é que somente UM - inteiro, pleno, completo, todo e tudo - pode multiplicar-se: 1 X 1 X 1 X 1 = 1. Nesse sentido, Deus poderia ter infinitas possibilidades de multiplicação de Si mesmo, porque UM. Para Einstein, só existe o UM - o que existe - o TUDO - e o ZERO - o que não existe - o NADA. Daí, a ideia de multiplicação, a multiplicação do amor, ou ainda só é possível multiplicar-se pelo amor, com o amor, para o amor. Por isso, o melhor sinônimo de Deus é o Amor. Claro, nunca vamos entender essa Unidade Trina ou a Trindade Una, produzida pelo amor também em grau absoluto. Tudo em Deus tem de ser absoluto, caso contrário não seria Deus. Daí, podermos perceber a nossa impossibilidade de entendê-lo. E o amor continua sendo algo transcendental e misterioso. Porque somos finitos, é-nos impossível entender algo infinito. Porque somos relativos, é-nos impossível compreender algo absoluto. O nosso amor, o amor dos homens a Deus, quebra as barreiras do relativo e absoluto, do finito e do infinito.

Então o amor
Assim, Deus não enfrenta o desafio do outro, porque o Outro é Ele Mesmo. O outro é o meu limite e a minha libertação, o meu céu e o meu inferno, ao mesmo tempo. Só não é possível amar sem amor. O outro é a minha possibilidade ou impossibilidade de amar. Para tanto, o outro tem de estar aberto ao amor. Ele tem de ser amável e eu, amante - a fonte. O amante ama o amável e é-lhe impossível amar a si mesmo. O amante não traz o amável dentro de si mesmo, porque é uma entidade externa que não é coisa, não é objeto. Esse é o jogo das subjetividades - a intersubjetividade. Na intersubjetividade, o jogo de interesses de um e de intenções do outro. Daí, o sofrimento de quem ama e não é amado. Para o teólogo Nicolau de Cusa (1401 - 1464)), um dos mais importantes escritores católicos, assim entende Deus e seu amor: "Deus-Pai como amante não poderá odiar ninguém, Deus-Filho como amável ama tudo que é amável, Deus-Espírito Santo derrama seu amor sobre todas as criaturas." Isso porque em Deus tudo é absoluto.