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Décio Bragança 08/09/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Quero, neste dia de hoje, como professor que sou há mais de 40 anos, debater as questões pertinentes à Educação como dever do Estado e Direito do cidadão. Acredito na Educação porque acredito no ser h

Não existe nação sem educação!

Temos de aprender a participar, a criticar, a negociar, a ser dono de nosso nariz, a buscar a nossa autonomia e a nossa independência em escolas, nos corredores e laboratórios, nas bibliotecas e quadras de nossas escolas, com nossos professores. A educação não pode ser um blábláblá de políticos irresponsáveis que brigam sempre por interesses corporativos e alheios aos interesses das pessoas. Que educação queremos? Para que educação? Os professores, idealistas por natureza e por opção, estão dando murro em ponta de faca em todas as salas de aula espalhadas por todo país. O progresso e desenvolvimento de um país passam necessariamente pelos bancos escolares. Por isso, tudo tem de passar por critérios e análises e reflexões críticas. Como é feita a organização de nossas escolas? A quem interessa essa educação mercantilista? Escolas existem, sim, para informar, formar e transformar, simultaneamente. Uma escola que informa é cabresto, é adestramento, é doma, é robotização das atitudes e dos comportamentos. Há muitos conteúdos desnecessários à prática formadora dos cidadãos. Há muitos conteúdos necessários à prática formadora dos cidadãos que nem passam perto de nossas escolas. E o que é mais necessário? 

Não existe nação sem educação! 
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, talvez uma das mais arrojadas do mundo, mas não tão bonita e verdadeira como a que foi proposta por Darcy Ribeiro, exige o aprendizado de Língua Portuguesa e da Matemática até o final do Ensino Fundamental. Todos, sem absolutamente nenhuma exceção, devem, porque isso é seu direito, saber a Língua Portuguesa que traz no seu bojo a capacidade de ler e escrever, falar e ouvir. Ler o mundo, ler as pessoas, ler as ideias das pessoas, depois ler palavras, ler frases. A libertação passa por essas leituras. Liberta-se quem sabe o que os outros sabem. Liberta-se para não ser enganado. Chega de sermos enganados! E o caminho para não se ser enganado é a liberdade de expressão. O homem que não se expressa ainda não chegou ao patamar da inteligência criativa e crítica. Nesse sentido, claro, o grande Paulo Freire tinha toda a razão ao afirmar que os nossos alunos, desde a menor idade possível, se assumam como sujeitos da produção do saber. O que vale não é o saber do professor, porque já é um saber estratificado, enferrujado, engavetado, anacrônico, sem sentido, sem valor. Educar não é definitivamente transferir conhecimentos, mas através deles darmos um passo a mais como numa corrida de revezamento. Professor que não cria possibilidades de crescimento de seus próprios alunos não é professor, é informante, é transferidor, é mata-borrão, é xerox, é cópia, é arremedo, é sombra, é papel carbono. Nossos alunos não são saco de pancadas, não são bodes expiatórios, não são objetos nas mãos dos professores, não são folhas em branco que devem ser escritas com letras de fome e de miséria, de sangue e de suor e lágrimas, não são a causa de nossos dissabores e desilusões. São vítimas, sim, de uma sociedade selvagem que insiste até em diminuir a idade penal. 

Não existe nação sem educação!
Vejam, a sociedade não quer resolver problemas, quer matar, quer mandar para cadeia. Senhores prefeitos, governadores e políticos, as crianças e adolescentes não querem cadeias, querem escolas que lhes abram os olhos e as mentes, os caminhos e os horizontes. Que a sociedade exija cadeia sim para todos os Daniel Dantas, todos os Lalau, todos os José Sarney, todos os Renan Calheiros, todos os Jader Barbalho, todos os Paulo Maluf, todos eles com mais de 70 anos. Sim, eles são muitos, espalhados por todas as cidades, por todos os cantos, recantos e encantos do país. São criminosos sem produzirem sangue aparentemente. Pior ainda, não roubam dos ricos para dar aos pobres, mas roubam dos pobres para dar aos ricos. Professores e alunos, em sala de aula se completam porque os dois estão num mesmo processo de ensino-aprendizagem, porque quem ensina aprende, quem aprende ensina. Ninguém é tão estúpido que nada possa ensinar e ninguém é tão sábio que nada possa aprender. 

Não existe nação sem educação!
Estão quebrando o encontro mais importante da educação: o encontro do professor com os alunos. Estão privilegiando os intermediários, os supervisores, os coordenadores, os diretores, os inspetores e tantos que trazem dores na própria profissão. O ser humano será sempre um ser inacabado, por isso até sua morte está aberto à Educação, à busca de saberes. Estão tirando os sabores e prazeres das escolas. Saber sem sabor é purgante. Saber com sabor e prazer é remédio para o corpo e para a alma. As escolas estão ficando sem alma, porque há muito mais preocupação com provas, exames, Enem, vestibulares, Enade... Os estudantes estão estudando para fazer provas e não para participar do gozo de aprender. A essa educação Paulo Freire chama de Educação Bancária: faz-se um empréstimo hoje e paga-se depois com juros e correção monetária. Fazer provas não é educar. Não há educação sem participação da vida social. Participar da vida social significa recriar-se, refazer-se para si mesmo e para os outros. Sou para mim e sou para os outros. Todos estamos de mãos dadas nesta jornada, nesta caminhada em busca de uma felicidade possível. Essa felicidade possível passa pela construção de um outro mundo. Outro mundo é possível, já que outra organização social é possível. 

Não existe nação sem educação!
Na escola, experimentamos a vida do outro e o outro se experimenta na gente e essa experiência é única, não experimentada por nenhuma outra profissão. Essa é boniteza da educação! Essa é a beleza da vida! A democracia é um dever. E como dever exige que todos se libertem, libertando o outro. Nesse processo, chega de obediência, de submissão, de subserviência, de escravidão, de dependência. O desejo de libertação nasce da certeza de que estamos presos, oprimidos, algemados, policiados. Daí, a inquietação, a angústia, o desejo de todos os professores na produção de conhecimentos. Por que devemos ensinar o que já está consagrado nos livros? Essa inquietude nos faz humildes e persistentes. Professores e alunos são os protagonistas do filme: a educação. Os outros são figurantes. O problema na Educação brasileira é que os figurantes: ministro, secretários, diretores, supervisores, coordenadores, inspetores tornaram-se os protagonistas. Ministro não está em sala de aula. Secretários não estão nas quadras de esportes das escolas. Diretores não estão nos laboratórios das escolas. Supervisores não sabem fazer por isso mandam fazer. Coordenadores não trabalham nas bibliotecas das escolas. Inspetores não estão nas portas de entrada e saída das escolas.  Em sala, a vontade de pensar. E pensar o certo. E pensar certo é pensar o país e seu povo.