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Décio Bragança 15/09/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Os conteúdos escolares não são mercadorias à venda,

nem os professores seus vendedores. Talvez, esse seja o nosso maior mal: tudo está virando mercadoria: a educação, a saúde, o amor, a justiça, tudo, até Deus. As igrejas estão virando shoppings cujos produtos são a salvação eterna, a alegria do reino do céu, o canto desafinado dos anjos e arcanjos, a imagem de um Deus morto. Há escolas, hoje, que estão nas Bolsas de Valores, vendendo e/ou comprando ações, anonimamente. E muitas delas trazem a chancela de instituições filantrópicas, sem fins lucrativos. Não é de se estranhar que cooperativas de médicos patrocinam times de futebol, enquanto médicos e hospitais pedem socorro.  Saúde e educação estão às traças porque assim deseja o neocapitalismo, a pior forma de capitalismo, a mais selvagem de todas.  

Educar é causar 
Escola é o lugar privilegiado das interrogações e dúvidas, dos senões e dos talvez. Quanto menos certezas, mais sabedoria. A sabedoria detesta a arrogância. Quanto menos arrogância, mais aprendizado.  Daí, a importância das incertezas. Procuro saber amanhã o que não sei hoje e assim por diante. A incerteza é o nosso horizonte. O conhecido nos inquieta, nos angustia, já que o saber quer mais e mais, melhor e melhor. A consciência de se estar preso é o que nos impulsiona para a libertação. Saber o conhecido é o que nos empurra para o desconhecido. Saber o conhecido significa que estamos abertos ao novo, ao diferente, ao ainda não vivido. Nesse sentido, educação é a busca do desconhecido, do ainda não experimentado. Por isso, também é possível uma nova nação, um novo país.

Educar é duvidar
A educação nasce do desejo de saber. Daí, a importância de pesquisa nas escolas. Pesquisar absolutamente tudo. Nada há que não possa ser pesquisado profundamente. As escolas, mesmo as de nível superior, investem muito pouco em pesquisas. Quantos celulares são brasileiros? Quantos computadores são brasileiros? Quase nada é produção nossa, é criação nossa. E por quê? Porque não temos pesquisas, não há investimentos em pesquisas. A pesquisa é o caminho do conhecimento, para conhecer o que ainda não se conhece.  Não há educação sem pesquisas, sem ciência. Educação é busca incansável. Todas as novidades nascem nas escolas. Todos sabem disso, menos os nossos políticos. Independência de pesquisas ou para as pesquisas é que nos faz um país sério. 

Educar é buscar
O desejo de saber, de pesquisar caminha nos trilhos da dignidade e do respeito. Sem medo de errar, posso afirmar que, muitas vezes, a escola se transforma num verdadeiro antro porque os alunos nada têm para fazer, para pesquisar. É inato o desejo de saber, a curiosidade de fazer. Cada escola tem de definir o que pesquisar. Pesquisar principalmente os problemas em seu redor. Quantas violências e violações! Quantos amores e estupros! Quantos lixões! Quanta poluição do ar, das águas, do solo! Quantas doenças que poderiam ser evitadas! Escola que não se preocupa com seu entorno não é escola. Podemos, individualmente, até dizer que nada podemos fazer ou o que é que temos com isso. Mas a escola não pode fechar os olhos para sua realidade. A escola não é um partido político, mas será necessariamente política, porque cheia de gente e onde há gente há política – um jogo de interesses e intenções. Daí, a obrigação de se perceber o bem comum – o bem-estar de todos e de cada um. 

Educar é viver
A escola vence a ingenuidade. A ingenuidade se confunde com a cultura deste povo brasileiro que sempre se deixou oprimir, escravizar. Libertação é o caminho da educação. Libertar-se da ingenuidade! Darci Ribeiro - um dos maiores educadores - dizia que o maior problema do brasileiro não é pobreza, fome e miséria, mas é a ingenuidade - crença no que os outros dizem sem nenhum questionamento. Ingenuidade é uma fé cega, surda e muda. Os políticos com os seus marqueteiros sabem que ganham uma eleição trabalhando essa ingenuidade das pessoas. Não só os políticos, claro, mas também os muitos pastores e padres, enganadores e vendedores do Reino de Deus. Educação é a possibilidade de criticar. É deixar de ser ingênuo. Nesse sentido, educação é ruptura, é superação, porque destruidora de mitos e de mentiras, apresentadas como verdades inquestionáveis. 

Educar é ser
A escola deixou, não por acaso, de ser um Jardim, uma sementeira. Pouco se brinca nas escolas. São muitos bigodes cerrados e testas franzidas: isso não pode, aquilo é proibido. Conseguiram tirar a beleza das flores, o verde das frutas e das verduras, a alegria de brincar e jogar das escolas. Por isso, é proibido nas escolas fazer comparações, dar valor a quem e a que realmente tem valor, intervir quando necessário, escolher e decidir, aceitar ou romper. Isso é independência. Obedecer é amesquinhar, é banalizar os desejos humanos.  A educação quebra qualquer forma de farisaísmo. Professores que dizem: “Façam o que mando” não são professores. São policiais, são domadores e para tanto recebem um salário muito maior do que merecem. Aqueles que dizem “façam o que o faço!” recebem muito menos do que merecem, porque são libertadores, o abre-alas de novos mundos.  

Educar é ser-mais
Muitas escolas estão matando os sonhos das crianças e dos jovens. Foi feita uma pesquisa em algumas faculdades de medicina e o resultado foi assustador. Ao entrarem no curso, os alunos responderam a diversas perguntas e as respostas eram maravilhosas: “Faço medicina, porque quero ajudar as pessoas; porque vou salvar muitas vidas; porque estarei à disposição das pessoas; porque quero mostrar às pessoas o lado bom e bonito da vida...” Seis anos depois, no momento da formatura, foram feitas as mesmas perguntas e as respostas foram ainda mais surpreendentes: “Agora quero fazer uma residência, vou fazer uma especialização, vou montar um consultório, vou fazer meu pé de meia, vou investir na minha profissão...” Como as faculdades destroem os sonhos. Depois do curso, a maioria dos formandos se esquece das pessoas, dos desejos que tinham ao iniciar o curso. Que desgraça de curso superior é esse que mata os sonhos de nossas crianças, adolescentes e jovens! E também essas universidades continuam impunes. 

Educar é ser-melhor
A maioria dos formandos em curso superior diz sem nenhum constrangimento e cheio de raiva: “Até que enfim!” Claro, não são culpados. São vítimas de um sistema desumano, discriminatório, reacionário, vingativo, opressor, castrador e torturador. Isso não é libertação. É fuga da cadeia ou do hospício. Pior de tudo é o caráter competitivo imposto às escolas. Os jornais se deliciam quando o próprio governo classifica as suas escolas. Os meios de comunicação oferecem descontos publicitários às melhores classificadas. Em contrapartida, fazem reportagens irresponsáveis sobre as piores, como se tanto umas quanto outras existissem fora de uma realidade social e econômica. Nunca se perguntam em que condições funcionam determinadas escolas.