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Décio Bragança 29/09/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Não é tarefa fácil fazer

a expulsão interna do opressor, porque também fomos aculturados para obedecer. Só sabemos obedecer. Só aprendemos a obedecer. Só queremos obedecer. Por isso, também gostamos de ser escravos. As mulheres deram passos significativos na conquista de seu espaço no momento em que disseram NÃO! Não vou obedecer! Não quero obedecer! Aprender a desobedecer é necessário e importante para nós mesmos. É como uma situação de parto: o bebê já não aguenta mais ficar ali, apertadinho, exprimido, esmagado e sai e grita e esperneia e começa a viver separado da mãe. Esse é só o primeiro parto. Outros partos devemos provocar em nossa vida, mesmo que seja doloroso. 

Comece fazendo o que é necessário
Parir é preciso, obedecer não é preciso. Sala de aula é o lugar privilegiado das perguntas. Plagiando a TV Futura: “São as perguntas que movem o mundo.” Perguntar não ofende. Nem todas as perguntas devem ter uma resposta. A escola deve fazer mais perguntas do que buscar respostas. O pior é que as nossas escolas só trabalham as respostas já feitas há muito tempo. Daí, uma educação em que a memória é o mais importante, fazer provas e exames é o mais importante. Isso não é diálogo, é sermão, é discurso. 

Depois fazendo o que é possível
Em educação, os homens e mulheres vêm carregados de entusiasmo porque acreditam na construção de um mundo melhor, vêm cheios de dúvida, porque creem na busca de respostas significativas para a solução dos grandes problemas humanos, vêm abarrotados de esperança porque acreditam no ser humano. Assim, a responsabilidade vai tomando o espaço da libertinagem, a independência vai enchendo os espaços da submissão. Educa-se sempre para a autonomia, para a independência, para a liberdade. Nesse sentido, professor é o que dá testemunho daquilo que é importante para a vida humana, tanto individual quanto coletivamente. Não posso ensinar o que não sei. Não sou honesto, não posso ensinar honestidade. Não sei viver com as diferenças, não posso ensinar tolerância. Não sei lidar com a liberdade, não posso ensinar libertação, nem desobediência. 

De repente você estará fazendo o impossível
Isso para dizer que educação vai muito além das palavras. É o ser humano que se expõe, se abre ao outro. É estar com. Não pode haver educação sem a escola e sem que os professores vivam profundamente os problemas da comunidade em que estão inseridos. Seria a mesma coisa de dançar na chuva sem se molhar. A educação exige que entremos na chuva para nos molhar, nos lavar, nos limpar. Educar é viver com. É fazer o que se diz. Sem mentiras e sem hipocrisias. Sem máscaras e sem desdém.  Educar é indignar-se, inquietar-se, angustiar-se, resistir. Nunca acomodar e resignar-se, entregar-se e aceitar as coisas tais quais se apresentam, deixar-se enganar com as luzes e cores e sons de um capitalismo cada vez mais selvagem, porque escravo do mercado. 

Força para mudar o que pode ser mudado
Há muito mais luz atrás do muro, depois do horizonte. Cidadania, democracia não se constroem apenas com um computador para cada aluno, com a mais alta tecnologia, com o conhecimento já estratificado, com treinamentos para ocupar um lugar no mercado do trabalho, com os saberes definidos pelos senhores e donos do mundo que impõem sempre a dominação econômica. Precisamos inventar o futuro. Outro mundo é possível. Um mundo mais decente que valorize o trabalho humano educativo como algo importante para todos e para cada um. Para inventarmos o futuro é preciso que todos participem, que haja liberdade nas decisões. A educação só tem sentido, só tem valor se for a luta pela participação e pela liberdade. 

Resignação para aceitar o que não pode ser mudado
Conforme nos ensinou Paulo Freire: “A liberdade amadurece no confronto com outras liberdades, na defesa dos direitos”. É decidindo que se aprende a decidir. Ninguém é autônomo sem que possa participar e decidir. A autonomia e independência vão se consolidando, se construindo na experiência de várias decisões. Todos nós fomos e vamos nos amadurecendo todo dia, bem devagar, como também acontece com todos os seres vivos. Nesse sentido, a escola tem de ser o espaço privilegiado do amadurecimento. Isso é apostar na educação, na liberdade, na esperança, nas decisões e vontade do outro. 

Sabedoria para distinguir uma coisa da outra
Democracia é o sonho da solidariedade, da igualdade, da liberdade, da fraternidade. A educação constrói uma nação, porque acredita num novo amanhã. Amanhã não é a continuação de hoje. Não pode ser a continuidade das injustiças, da arrogância do capital, da omissão do Estado, do silêncio de um povo. A globalização reforça as injustiças e as desigualdades, apresentando um mundo de minorias poderosíssimas que esmagas, esmigalham. empilham, espremem as pessoas nos seus redutos podres e fedidos nos becos e nas periferias e nos morros e nas favelas.  A utopia ainda não morreu, porque ainda não conseguiram nos tirar a possibilidade de sonhar com uma sociedade um pouco mais sadia e encantada pela própria vida. 

O que temer? Nada
A escola existe para a libertação, para autonomia e para a independência, não para a domesticação, para o cala a boca. Para a acomodação. Ninguém pode conhecer por mim. Ninguém pode alimentar-se por mim. Ninguém pode dormir por mim. Ninguém pode amar, namorar, fazer sexo por mim. Nesse sentido, a educação torna-nos responsáveis, porque vamos assumindo o "controle" de nossa vida e da vida dos outros, como sujeitos da história. Isso para dizer que a educação, a escola não pode apenas transferir conhecimentos, como eu pudesse conhecer pelo outro. O que podemos fazer, sim, desafiar os nossos alunos para eles mesmos aprenderem o que lhes é necessário, ético, útil, bom, verdadeiro, bonito para todos e para cada um. 

A quem temer? Ninguém
Nada pode ser bom para o ser humano sem ética. Ética, aqui, tomada no seu sentido mais amplo e universal. Não existe ética no mercado, ética no lucro, ética nas empresas, porque homens e mulheres nasceram para alguma coisa maior do que mercado, lucro, fama, sucesso, dinheiro, poder e empresas. O gozo do mercado, do lucro, da fama, do sucesso, do dinheiro, do poder, das empresas, dos investidores não é o prazer das pessoas.