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Em Questão

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Décio Bragança 09/02/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

 

Professor Décio Bragança Silva

decio.braganca@uniube.br

 

 Ponto de partida

Há uma semana começaram as aulas. Ano novo, vida nova. Para muitos, nada muda. Tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Para outros, o ano de 2014 não existirá, porque dizem que o ano começa depois do Carnaval. Só que depois do Carnaval vem a Copa do mundo. E depois da Copa, as eleições. E depois das eleições, já é Natal. E o ano acaba. De qualquer forma, as aulas começaram e com o começo, retomo novamente as minhas atividades que sempre me dão muita alegria e prazer. Uma delas é escrever refletindo e refletir escrevendo. O Jornal de Uberaba me dá essa oportunidade – o que agradeço muito. Como professor há mais de quarenta anos, sinto necessidade de me expressar. Em tese e por opção, não gosto de comentar sobre os fatos diários ou ainda citar nomes de pessoas, mas, como utópico e ideólogo, professor e sonhador, desejo sempre um mundo muito mais alegre e feliz, mais humano e gostoso, cheio de gente muito mais alegre e feliz, encantada pela vida. Outro mundo é possível!

 

Pisar areias inexploráveis

O mundo globalizado economicamente nos transformou a todos em objetos do mercado, mercadorias de venda e de troca, produtos descartáveis. Há uma sensação de anonimato e de reificação, ou ainda de que nada nos pertence e não pertencemos a ninguém e a nada. Estamos soltos no ar, sem chão firme, sem terra sólida, sem alicerces profundos. Além disso, com a onda neoliberal mundializada, o dinheiro não tem pátria, o lucro é dos investidores das bolsas de valores, sem que nada produzem. Palavras como amor, pátria, família, democracia, política, sociedade, comunidade... perderam sentido para dar lugar ao sucesso, à fama, ao consumo, ao dinheiro, ao lucro a todo preço. O homem está jogado à própria sorte, ou às traças, sem rumo e sem saídas, qual uma nau, qual um beco.

 

Cravar os pés no chão

O poder político se subordinou ao poder econômico e por isso a sociedade, hoje, se conforma em consumir, manipulada pelos meios de comunicação. Vivemos a era da tecnociência, ou a ciência entendida como serviçal, a serviço dos interesses e das intenções do capital. Daí, nasce a ilusão das luzes e cores e sabores da solução dos problemas humanos e sociais. As crianças e os jovens perderam, não por acaso ou obra do destino, sua capacidade de indignar-se contra as injustiças sociais, produzidas por um sistema massificante e massificador da ideologia única: a voz e a vez do mercado. A escola sofre essas mesmas influências e os professores – construtores de personas e de cidadania – têm de, em conjunto, decidir a missão da escola, os objetivos da escola, as metas da escola, os critérios de avaliação da escola.

 

Sonhar um sonho impossível

É inadmissível que na escola haja improvisação. Na improvisação, a humilhação e a exploração das pessoas, a repetição e a confirmação dos modelos sociais. Os propósitos da escola são os propósitos, principalmente dos professores. Exemplificando com a disciplina Língua Portuguesa. Há três maneiras, jeitos, modos de os professores ensinarem a língua-mãe, a partir do que eles próprios entendem sobre o seja a linguagem: a linguagem vista como expressão de ideias; a linguagem vista como meio de comunicação; a linguagem vista como ação transformadora.

 

Resistir quando é fácil ceder

Dependendo da escolha, a aula será totalmente diferente uma de outra. Se você escolher a primeira opção, estará associando as palavras, as frases, a construção de frases à lógica, à precisão, à gramática, à correção... Se você escolher a segunda opção, estará admitindo quaisquer palavras, frases, construção de frases, livremente, sem nenhuma restrição, já que o mais importante é a comunicação. Se você escolher a terceira opção, estará entendendo as palavras, as frases, a construção de frases como instrumentos de transformação, de libertação, de saída de um ponto a outro, num processo revolucionário. Qualquer opção feita por você, professor, exigirá de você o compromisso com o ensino da Língua Portuguesa.

 

Lutar quando é fácil entregar

O que significa saber uma língua? Não é difícil responder a essa pergunta, mas é muito difícil a prática, o ensino destas habilidades: escrever – ler – falar – ouvir. Nós, professores, enfrentamos um outro desafio: saber ler, saber escrever, saber falar e saber ouvir é estar-no-mundo, é estar-com – mais do que simplesmente um bem cultural. Em outras palavras, não mais se deseja aprender o uso correto da Língua Portuguesa, porque o que importa é ter vez e voz, é tornar-se palavra. Na verdade, existem várias línguas portuguesas para os mais diferentes situações, momentos e lugares, para as mais diferentes pessoas e comunidades. É bom e necessário que, na escola, trabalhemos todas as línguas portuguesas, inclusive a língua-padrão, que, no fundo, é a língua do patrão. E como ensinar a língua-padrão? Essas línguas se nos oferecem como possibilidade de libertação da ignorância e mediocridade, de libertação econômica, política, cultural. Quando se fala em libertação, está-se falando de independência, autonomia, cidadania.

 

Voar no limite improvável

Os teóricos da linguagem nos ensinam que não há acaso. Tudo que fazemos e dizemos está preso nos para quês fazemos e falamos. A partir daí, podemos sinteticamente entender as intenções e os interesses em três níveis: interesses e intenções lúdicas, polêmicas e ideológicas. As lúdicas: falar, escrever, namorar, amar... pelo simples prazer de falar, escrever, namorar, amar... porque escrever é bom e faz bem à saúde do corpo e da alma, falar é bom e faz bem à saúde do corpo e da alma, namorar é bom e faz bem à saúde do corpo e da alma, amar é bom e fazer bem à saúde do corpo e da alma. Atividades lúdicas podem ser entendidas com as primeiras intenções e primeiros interesses, prenhos de pureza e prazer e encantamento, sem subterfúgios alguns. Muitas obras de arte, músicas, canções, poesias, por sua inutilidade, por seu desinteresse econômico, são consideradas lúdicas. Faz-se X para atingir X. É ser para ser. É viver para viver. É admirar-se, é encantar-se de estar sendo e vivendo.