ColunasReflexões

A dívida moral e social da Vale

“Se a Vale sabia dos riscos e não tomou
providências, tudo fica mais grave.”

(Senador Carlos Viana)

A historieta narrada na sequência, buscada nas ladeiras da memória, desenrolou-se numa reunião transcorrida anos atrás em importante entidade representativa da categoria empresarial. Anunciou-se, de repente, à margem da agenda dos debates em curso, que acabara de ser concluído o leilão alusivo à momentosa privatização da Companhia Vale do Rio Doce, trombeteada semanas a fio em vistosas manchetes.
Pela proposta vencedora, o colossal acervo de ativos da empresa, a maior do mundo no setor de mineração e a segunda em importância na lista das organizações produtivas nacionais, passaria às mãos dos novos donos, porteira fechada, pela bagatela de 6 bilhões de dólares. Os números divulgados foram recebidos com certa incredulidade. Confirmados, deixaram um rastro de espanto nos semblantes. No entendimento geral, um ato negocial de tamanha envergadura, admitida a razoabilidade da privatização, que vinha sendo alvo de candente contestação, só poderia encontrar justificativa com base no desembolso, pelos adquirentes, de grana equivalente a uma soma, talvez, 30 vezes superior à indicada no lance que levou o leiloeiro a bater o martelo. E olhe lá!…
Alguém do grupo, na reunião mencionada, empresário de porte médio do setor eletromecânico, admirado pelos pares devido ao arrojo empreendedor, sentiu-se à inteira vontade para largar jocoso comentário: – Se a gente tivesse ficado sabendo com antecedência que a Vale poderia ser vendida por ninharia, até que teria cogitado de entrar com alguma proposta melhor que essa na hasta pública! A observação foi acolhida com risos, palavras, gestos e gracejos concordantes.
O que aconteceu, noutras palavras: o governo sucumbiu à sanha privativista reinante naquela ocasião. Deixou-se levar pela estridente cantilena midiática que apontava a desestatização como dogma de fé. A venda da Vale do Rio Doce, um processo de privatização apelidado por muitos de “privataria”, escudou-se nos “convincentes argumentos” de que o negócio representava a “salvação da lavoura”. O negócio significava “inteligente solução”, do ponto de vista técnico e administrativo, para se alcançar, finalmente, o almejado equilíbrio das contas públicas, etecetera e tal… A Vale do Rio Doce, preciosíssimo patrimônio nacional, empresa desde a implantação economicamente próspera, ostentando balanços de excelente rentabilidade, com legendária história de participação econômica e social no desenvolvimento do país, estava sendo intimada, então, a transferir à sucessora, Vale, de mão beijada, seu gigantesco complexo de equipamentos, suas jazidas de incalculável extensão com veios minerais inextinguíveis espalhados por porções consideráveis deste nosso território continental, seus estoques fabulosos de produto pronto para embarque, sua frota de navios, suas composições férreas de razoável extensão, isso sem falar na capacidade tecnológica adquirida ao longo de seu itinerário, mundialmente reconhecida. Os bilhões de dólares da transação, a se levar em conta as proporções da empresa – que conservava em caixa, segundo pasmosa informação circulante na época, numerário superior ao valor apurado no leilão –, passaram pra muita gente a penosa e desagradável sensação de que a venda foi feita por preço de banana nanica de sacolão de arrabalde que exibe na prateleira artigo refugado na Ceasa.
Este relato faz-se bastante oportuno no momento em que, tomada de aturdimento e inconformismo, a sociedade e as lideranças nacionais colocam no foco prioritário das atenções a atuação da Vale, conscientes da inocultável culpabilidade da empresa, de seu irresponsável desmazelo técnico-administrativo, dos estratagemas de que a mesma, desde sempre, se vale (o trocadilho saiu sem querer) para escapulir de responsabilidades nas tragédias que enlutaram e apavoraram as Minas Gerais e o Brasil. Aos dados acima alinhados cabem ser acrescidos outros sugestivos números. Ajudam a revelar, de forma exuberante, a descomunal dívida moral e social que ela, Vale, por óbvias e ululantes razões, contraiu com a comunidade. Dívida que carece ser paga com inadiável urgência, de maneira a amenizar um tanto os efeitos devastadores dos malefícios praticados.
Aqui estão, aleatoriamente pinçados, alguns números: os lucros anuais acumulados pela Vale ficam, invariavelmente, a cada exercício, sempre próximos do valor da “arrematação”. Em 2017, por exemplo, o resultado positivo foi superior a 4 bilhões de dólares. Em 2016, foi também assim. Em 2018, idem com a mesma data. A sempre desejável pujança da empresa (comprada em “negócio de pai pra filho”), projetada em todos os períodos, está traduzida até neste instante em que as adversidades de todos conhecidas acabam, naturalmente, sendo de molde a afetar o negócio. A perda de 71 bilhões de reais no mercado acionário em um único dia equivale, vejam bem, a quase a metade do dinheiro apurado na privatização. E isso não abalou a empresa a ponto de ameaçar sua estabilidade econômica, o que é altamente positivo, afinal de contas, pra todo mundo.
Tudo isto dito, afigura-se legítimo, a partir de agora, aguardar por decisões, legalmente impostas ou espontaneamente adotadas, que promovam, em ritmo acelerado, sem interrupções danosas a qualquer título, os pagamentos das indenizações, dos ressarcimentos, das restaurações ambientais, das reconstruções que precisem ser feitas, enfim de todas e quaisquer reparações que a comunidade tem o sagrado direito de exigir dos causadores das calamidades que a alvejaram tão impiedosamente. Sem deixar no esquecimento que eles são, também, carregando nos ombros os ônus das soluções, responsáveis por uma (outra) avalancha de problemas que a mantém sobressaltada.

Cesar Vanucci – Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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