André Borges Lopes - Binóculo ReversoColunas

A IGREJA DOS NEGROS QUE DESAPARECEU

Muitos uberabenses pensam que a bela igrejinha de Santa Rita, no morro defronte ao Mercado Municipal é a igreja mais antiga de Uberaba. Construída em 1854 e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico (IPHAN) desde 1939, a Santa Rita é a única sobrevivente das igrejas da época do império. Mas antes dela existiu a pioneira Capela de Santo Antônio e São Sebastião de Berava, erguida em 1818 na região onde está a praça Frei Eugênio, a primeira matriz da paróquia. E também a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que foi construída entre 1839 e 1842 no lado direito da Rua do Comércio, na época a principal rua da cidade, atual Artur Machado. Era uma igreja de duas torres em estilo colonial, relativamente grande e bonita, erguida encostas do morro onde hoje está a Av. Presidente Vargas.
A devoção a Nossa Senhora do Rosário é muito antiga. Teria surgido na Europa, entre os dominicanos, ainda na Idade Média. A primeira irmandade do Rosário foi criada em Colônia (Alemanha), em 1408. A ordem chegou ao Brasil em meados do século XVI, sendo a Irmandade dos Homens Pretos de Olinda a mais antiga do país.
Durante o período da escravidão, brancos e negros não podiam frequentar as mesmas igrejas – uma segregação que, na prática, persistiu por décadas, mesmo após a abolição em 1888. A pesquisadora Marina de Mello Souza, autora do livro “África e Brasil Africano” conta que, no tempo dos escravos, e ensino e a catequese de todo africano escravizado era de obrigação dos seus senhores. Com apoio desses proprietários, as comunidades negras se reuniram em irmandades leigas de devoção. Tanto a igreja católica quanto a administração colonial usavam a conversão à fé católica como instrumento de controle sobre a população negra, seus costumes e suas crenças – procurando “desafricanizar” a identidade cultural dos escravos.
Cabia aos membros das irmandades cuidar das festas de seu padroeiro, enterrar os irmãos mortos e ajudar as famílias dos falecidos que não possuíssem recursos. Os principais santos de devoção das irmandades dos “homens pretos”, segundo Souza, eram Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito.
Uberaba contava com uma grande quantidade de negros, escravos e libertos, no século XIX. O historiador Borges Sampaio relata que, no censo realizado em 1955, a vila de Uberaba tinha 1923 habitantes, sendo 1391 pessoas livres e 532 escravos, de ambos os sexos. A população do município era maior, pois a maioria dos habitantes vivia na zona rural. O censo de 1868 encontra 7681 moradores em toda a paróquia, sendo 1636 escravos. Entre os homens livres, havia significativa quantidade de mestiços e negros libertos.
Em 1839, coube ao padre Zeferino Batista Carmo (de quem já falamos aqui na coluna) propor que se erguesse na cidade uma igreja que atendesse a essa população, proibida de frequentar a Matriz. Construída com a mão de obra dos próprios negros, ela foi inaugurada oficialmente em 1842. Depois da Lei Áurea, a Igreja do Rosário continuou reunindo a comunidade negra, servindo de palco para as festas do 13 de Maio. Entre as comemorações que aconteciam na igreja no início do século XX, Borges Sampaio destaca “a festa anual dos pretos” e a “missa com ladainha em todos os sábados”, eventos que contavam com a participação da conceituada banda de música “União Uberabense”.
O surgimento de novas igrejas no bairro, como a Santa Rita e a São Domingos (1904) causou um lento abandono da igreja do Rosário. A Cúria Metropolitana deixou de cuidar da sua manutenção e o prédio entrou em decadência, num momento em que a Rua do Comércio vivia seu apogeu – não apenas como centro de negócios, mas também como porta de entrada da cidade para quem chegava pelo trem da Cia Mogiana. Seria preciso fazer uma obra cara de restauração, para a qual não havia recursos.
Diante dessa situação, o então prefeito Leopoldino de Oliveira decidiu demolir o antigo templo. Em 1927 a velha igreja foi removida para dar lugar a um largo e um jardim. Restaram dela poucas lembranças. Há apenas três fotos conhecidas: uma feita à distância por volta de 1895, do alto da Santa Terezinha, onde aparece de frente. Outra mostra apenas a escadaria que dava acesso às portas principais. Na última, ela é vista por trás, do alto do morro, já em mau estado de conservação, pouco antes de ser demolida.

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