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Arcebispo de Uberaba lembra da Ressurreição de Jesus Cristo

O Arcebispo de Uberaba, Dom Paulo Mendes Peixoto, falou ao JORNAL DE UBERABA sobre o período da Quaresma, as principais celebrações da Semana Santa e ainda sobre a Páscoa. Ele lembra que a Páscoa é um momento privilegiado de fraternidade e de encontro das pessoas para o estreitamento de laços reais de vida fraterna.

O que a Igreja vivencia durante a Quaresma? Quais são os pontos fortes desse tempo?
Dom Paulo – A palavra Quaresma, que acontece todos os anos, está relacionada simbolicamente ao número quarenta, isto é, quarenta dias, que constitui um Ciclo Litúrgico, ou Tempo Litúrgico próprio, oportunidade para o cristão fazer uma trajetória de reflexão pessoal, de penitência, de verdadeira mudança existencial de vida e de olhar para o seu próprio interior. Ela é acompanhada por textos bíblicos, todos eles numa dimensão de transformação e de preparação para o grande momento da vida do cristão, a Ressurreição de Jesus Cristo.
O alvo a ser atingido é o coração e o interior da cada pessoa, que deve se sensibilizar em termos de vida nova e ressuscitada. O próprio Jesus diz que, quem nele crer já é pessoa ressuscitada e tem a vida eterna (Cf Jo 6,47). A Quaresma então é um processo ascendente, propício para um encontro pessoal com Jesus Cristo e de conversão. É caminho para celebrar a Páscoa, porque supõe a superação das reais fraquezas e desânimos da vida, de enfrentamento consciente das responsabilidades para a construção de uma sociedade sadia e feliz. A partir daí a vida da pessoa deve ser diferente e acreditar no novo.
Como pontos fortes da Semana Santa, as marcas principais são: A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos; a Missa da Unidade, do Lava Pés, da Instituição do Sacerdócio e da Eucaristia, na quinta-feira santa; a Cerimônia da Paixão e do Beijo da Cruz, na sexta-feira; a Missa da Vigília da Páscoa, no sábado; e o Domingo da Páscoa do Senhor.

Semana Santa: quais são as principais celebrações e seus significados?
Dom Paulo – A Semana Santa é uma realidade propriamente religiosa, que marca profundamente a vida de todos os cristãos. Como pontos fortes, podemos destacar o que segue: Nela são memorizados vários aspectos da vida encarnada e missionária de Jesus Cristo. Começa no Domingo de Ramos, com sua entrada triunfal na cidade de Jerusalém, quando é ovacionado e vibrantemente acolhido pela multidão com ramos nas mãos; o anúncio e a instituição do Mandamento Novo do Amor, quando Jesus lava os pés dos seus discípulos; a Instituição do Sacerdócio e da Sagrada Eucaristia; sua morte na cruz; o sepultamento; e a vitória da vida sobre a morte de cruz, com a Ressurreição, no Domingo de Páscoa.
Começando com o tempo da Quaresma, a Semana Santa motiva o processo de conversão das pessoas. As cenas chocantes da Paixão de Jesus devem ser absorvidas como motivadoras para a espiritualidade do cristão. Elas atingem o íntimo das pessoas e tocam em suas sensibilidades, renovando os compromissos inerentes aos sofrimentos da vida hodierna. Cada sofrimento que aparece no cotidiano deve ter a espiritualidade do sofrimento de Jesus Cristo.

O que é celebrado na Quinta-feira Santa, na Sexta-feira Santa e na Vigília Pascal?
Dom Paulo – Acima já nos referimos a ambas as questões, mas podemos dar um melhor aprofundamento aos temas propostos. A Quinta-Feira Santa é especial para a Igreja. É um dia de unidade da Igreja Particular. Em todas as Dioceses é celebrada a Missa da Unidade, onde os padres, diante do bispo, renovam seu compromisso sacerdotal. São benzidos os santos óleos, dos Catecúmenos, do Crisma e dos Enfermos. Vai um pouco de cada um deles para as paróquias e usados nos batizados, nas crismas e nas unções dos enfermos. Eles sinalizam a unidade da Igreja Particular.
Nesse dia renovamos o gesto forte do Lava-pés, do Mandamento novo do amor, para dizer que a Igreja deve estar a serviço das pessoas. Por ser uma Igreja ministerial, memorizamos a Instituição do Sacramento da Ordem e a Instituição do Sacramento da Eucaristia. São sinais fortes na vida eclesial, porque a Eucaristia é o sustentáculo da vida espiritual da comunidade cristão, mas ela existe porque Jesus instituiu a ordem dos presbíteros, dando-lhes a possibilidade da celebração eucarística, para realizar o que Ele mesmo fez.
Na Sexta-Feira Santa, preceituada como dia de penitência, de jejum e abstinência de carne, mas é o dia da caridade e de amor ao próximo. Foi quando Jesus, após todo o caminho de flagelamento, de carregar uma grande cruz, termina sua vida terrena com sua morte. É dia em que a pessoa deve olhar com olhos fixos na cruz de Jesus Cristo, símbolo forte de sacrifício, mas também de vida eterna e de encontro frontal com Deus. A vida tem marcas constantes de sofrimento, de decepções, angústias, mas também de alegria da superação, porque Deus caminha conosco, agora sem os condicionamentos terrenos. Ele mesmo disse: “Estarei sempre convosco” (Cf Mt 20,28).
No Sábado Santo temos a Vigília Pascal. É um dos momentos mais importantes da Semana Santa, quando celebramos a mãe de todas as celebrações, ou a primeira depois da Ressurreição do Senhor. Talvez pudesse ser chamada de Celebração da Alegria, da Vitória, da Aleluia e da Glória do Senhor. Abre um caminho novo para as comunidades cristãs e causa vibração no coração sensível dos cristãos. É a partir daí que passamos a desejar uma Feliz e Santa Páscoa para as pessoas, refletindo a alegria da vida que venceu a morte. Voltamos a cantar a oração do Glória, suspenso desde o início do Ciclo da Quaresma. Saímos do tempo penitencial para agora proclamar alegremente Jesus ressuscitado.

Para os cristãos, o que é celebrado no Domingo de Páscoa? Qual o significado da Páscoa?
Dom Paulo – No Domingo da Páscoa todos os cristãos devem celebrar, e com muita alegria e vibração, o acontecimento central de sua vida de fé, a Ressurreição de Jesus Cristo. É por isto que se canta: “Alegremo-nos e nele exultemos, aleluia”. Vencendo a morte, Jesus permanece conosco para sempre, pois a morte já não tem poder sobre ele. É o primeiro dia da semana, o “Dominus”, o Dia do Senhor. Dia de louvação, de reconhecimento de que a vide tem sentido e não termina na morte física. Morremos para o mundo, mas nascemos para Deus.
Não podemos perder de vista o verdadeiro sentido e o valor do domingo, chamado de Dia do Senhor. Aí está o sentido sublime da participação na assembleia litúrgica dominical para agradecer e reconhecer que a salvação acontece pelos méritos de Jesus Cristo. A vida eterna não é mérito nosso, mas do julgamento e da bondade de Deus sobre cada pessoa. Temos sim que dar conta a Ele pelos nossos atos e pela responsabilidade como agimos na sociedade.
Na Ressurreição de Cristo está o significado real da Páscoa para os cristãos, muito diferente do que faz a cultura do consumismo, do vender e faturar mais. Uma festa religiosa, de origem bem antiga, que se transformou em ação de prosperidade para o mundo capitalista e mercantilista, chegando a abafar o sentido de sua originalidade. O verdadeiro Presente, que deveria ser o foco maior, acabou se transformando em algo desconhecido. Certamente, e infelizmente, Jesus Cristo não é cultuado na Páscoa como o Presente Pascal, também na atualidade!

Mensagem de esperança pascal para o contexto atual

A Páscoa é um momento privilegiado de fraternidade e de encontro das pessoas para o estreitamento de laços reais de vida fraterna. Isso está contido na trajetória pública de Jesus e de forma concisa. Ele provocava relacionamentos em situações diversas. Procurou conquistar as pessoas para que tivessem vida normal e feliz. Para isto Ele falava com autoridade, ia ao encontro dos mais carentes e necessitados de ajuda e curava quem O procurava.
Hoje desejamos Feliz Páscoa para os amigos. É até uma forma de cumprimentar as pessoas de maneira saudável e de quem se encontra feliz. Mas tem que ser uma felicidade centrada na Pessoa de Jesus Cristo. Ele é a fonte da Páscoa, conquistada na paixão e em sua morte no alto de uma cruz, assumindo em Si as fraquezas da humanidade. Em Jesus a Páscoa se torna mensagem de esperança e conquista de realidades novas.
A Páscoa deve ser todo dia e o ano todo. Sob ela as pessoas precisam superar os momentos de desespero, de insegurança e de ameaça à vida. A violência assistida a todo instante tira muita gente da zona de tranquilidade e ameaça a paz. Cria feridas e cicatrizes consolidadas no seio de muitas famílias e provoca reações de revolta, de vingança e de morte.
Mas, Páscoa não é isto. Ela é tempo de esperança sadia, construída no amor de Deus e na força da convivência humana. Mesmo em meio a crises e sofrimentos, quem olha para Jesus Cristo com uma mente arejada pela presença de Deus, não fica perdido pelo caminho e nem afogado na lama. No fato drástico e doloroso de Brumadinho e de outros casos afins, sempre sobra alguma coisa de esperança, muitas vezes conquistada na solidariedade de muita gente. Feliz Páscoa para você.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba

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