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PEDRAS QUE CAEM DO CÉU

No início da noite do dia 7 de maio desse ano, um clarão riscou os céus da nossa cidade e chamou a atenção dos uberabenses. Avistado e fotografado também em outras localidades do Triângulo Mineiro e do Noroeste Paulista, os técnicos estimam que o fenômeno tenha sido causado por uma pequena rocha espacial de menos de um quilo, que entrou na atmosfera terrestre a cerca de 100 mil km/h de velocidade nas imediações da cidade paulista de Jaborandi. Atravessou a divisa com Minas Gerais e cruzou o firmamento a grande altitude, queimando pelo atrito com o ar por mais de 120 km até desaparecer sobre a cidade de Campo Florido. Várias pessoas registraram esse evento em fotos e vídeos, que podem ser vistos na Internet.

Dezenas de milhares de objetos entram na atmosfera terrestre todos os anos causando esses fenômenos, conhecidos como “queda de meteoro” ou ainda “estrela cadente”. Desses, somente pouco mais de uma centena atingem a superfície do planeta e ganham a denominação de “meteorito”. O mais famoso meteorito brasileiro é o Bedengó, que ganhou fama nos últimos dias por ter resistido à tragédia que se abateu sobre o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Rocha metálica formada por 5,3 toneladas de ferro e níquel, foi descoberto em 1784 no sertão da Bahia, e transportado um século depois – a duras penas – para a antiga capital do Império.

O Bedengó é ainda hoje um dos maiores meteorito em exposição no mundo. No Brasil, só foi superado em tamanho por um gigantesco objeto metálico encontrado em 1875 na região de São Francisco do Sul, estado de Santa Catarina. Rico em níquel, a pedra foi quebrada em pedaços e vendida como minério para a Inglaterra. Pesquisadores estimam seu tamanho entre 7 e 25 toneladas.

Bem mais modesto é o meteorito “Uberaba”, que também fazia parte da coleção do museu incendiado, e ainda não sabemos se sobreviveu ao incêndio. Formado por 40 kg de rocha, caiu no dia 29 de junho de 1903 próximo à sede de uma fazenda nas imediações de nossa cidade, assustando muita gente e destelhando algumas casas. Apavorado com o fenômeno, o proprietário vendeu a fazenda. Antes de ser recolhido por cientistas, foi cultuado como uma pedra mística: conta-se que muitas pessoas rezavam no local da queda e quebravam pedaços para fazer chás com supostos poderes medicinais.

Outro meteorito que causou comoção em nossa cidade foi “Santa Luzia”, que caiu em 1919 próximo à pequena cidade goiana de mesmo nome (atual Luziânia, DF). O objeto metálico de quase duas toneladas causou um pequeno terremoto ao bater no solo e abrir uma cratera, mas o local da queda só foi descoberto alguns anos depois. Conta-se que o dono das terras vendeu o meteorito a um interessado que, sem conseguir carregá-lo, começou a vendê-lo em pedaços. Um desses fragmentos foi enviado para análise na Escola de Minas de Ouro Preto, onde constatou-se que era um objeto espacial do tipo ferroso. Diante disso, o governador goiano decidiu doá-lo ao Museu Nacional.

O transporte também foi penoso, e enfrentou alguma resistência da população local, que tinha o costume de fazer amuletos com fragmentos da “pedra que caiu do céu”. No dia 30 de agosto de 1928, ele começou a ser retirado da cratera e para ser levado em carro de boi até a estação de trem de mais próxima, na cidade de Vianópolis – onde só chegou em 17 de outubro. Nos dias seguintes, foi colocado em um trem especial que rumou para São Paulo parando nas principais cidades do caminho. No dia 23 de outubro de 1928 a pedra passou por Uberaba e o povo fez fila junto a estação da Mogiana para ter uma chance de ver o estranho objeto sideral – que também resistiu ao incêndio no Museu carioca.

Mas o evento mais famoso aconteceu no dia 3 de junho de 1956. Eram 17:30 de uma tarde fria de outono quando um estrondo e um clarão repentino aterrorizaram a população de Uberaba. Um objeto luminoso atravessou o céu da cidade de leste para oeste, em altíssima velocidade até sumir no horizonte, deixando uma impressionante trilha de vapores e fumaça. Minutos depois, o fotógrafo Wagner Schroden Jr. registrou o rastro no céu, iluminado pela luz do por do sol. A foto ganhou destaque no jornal Lavoura e Comércio do dia seguinte e correu o mundo. A revista “A Cigarra” fez uma matéria de três páginas sobre o evento.

A rocha seguiu se despedaçando em explosões sucessivas sobre o Pontal do Triângulo, e seu maior fragmento, com cerca de 100 kg, caiu a cerca de 70 km a noroeste da cidade de Paranaíba, no atual Mato Grosso do Sul. O meteorito “Paranaíba” também foi recolhido ao Museu Nacional, mas antes o padre da cidade mandou erigir uma cruz, marcando o local da queda.

André Borges Lopes

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