André Borges Lopes - Binóculo ReversoColunas

Borges Sampaio e a feminista

Há quem associe o feminismo à modernidade, como se ele tivesse começado com as rebeliões juvenis dos anos 1960. Desconhecem que a luta das mulheres por direitos iguais, oportunidades de trabalho e cidadania plena tem longa história. Há cem anos, já eram famosas no Brasil a bióloga Bertha Maria Júlia Luz e a militante anarquista Maria Lacerda de Moura – fundadoras da “Liga de Emancipação Intelectual da Mulher” que, a partir de 1922, tornou-se “Federação pelo Progresso Feminino”. A luta feminina pelo direito ao voto e à representação política é ainda mais antiga: remonta ao tempo do Império.
Durante séculos, mesmo nas nações mais democráticas, a autonomia feminina foi limitada por leis escritas e aprovadas por homens. No reinado de Dom Pedro II, surgiram no Brasil as precursoras da luta feminista. Usualmente, eram mulheres cultas e de famílias mais abastadas, que haviam tido oportunidade de estudar (por vezes até no exterior) e de obter visibilidade social. Destacaram-se a abolicionista potiguar Nilsa Floresta, a escritora Violante Bivar e Velasco, fundadora do Jornal das Senhoras” (1852) – primeiro jornal dirigido por mulheres na Bahia – e a mineira Francisca Senhorinha da Motta Diniz que, em 1873, criou o jornal “O sexo feminino”.
Outra figura de destaque foi a pernambucana Josefina Álvares de Azevedo, nascida em Recife em 1851. As vinte e seis anos de idade, Josefina mudou-se para São Paulo, onde criou (em 1888) a revista semanal “A Família”. Em busca de maior divulgação, um ano depois transferiu-se para o Rio de Janeiro, capital do Império. A revista defendia a educação da mulher como ferramenta essencial para a sua emancipação. Após a Proclamação da República, Josefina colocou-se ao lado dos que pediam a inclusão do sufrágio feminino na nova Constituição A ideia tinha apoio de alguns líderes políticos de destaque, como o Barão do Rio Branco, Saldanha Marinho, Rui Barbosa, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca.
Mas a maior parte dos constituintes – em especial aqueles eleitos no interior e nos estados menos desenvolvidos do País – considerava que a política era uma atividade estritamente masculina. Em janeiro de 1891, o deputado Pedro Américo declarava: “A maioria do Congresso Constituinte, apesar da brilhante e vigorosa dialética exibida em prol da mulher-votante, não quis a responsabilidade de arrastar para o turbilhão das paixões políticas a parte serena e angélica do gênero humano”. O voto feminino só foi autorizado no Brasil em 1932.
A luta de Josefina Azevedo não se limitava à questão do voto. Em 1889, ela deu início a uma ambicioso projeto de viajar pelo território brasileiro, pelas repúblicas da Prata, pela Europa e pelos Estados Unidos a fim de conhecer melhor o sistema educacional que era então oferecido às mulheres. Que, segundo ela, limitavam-se a “saber mal o português, a aritmética, o francês, o canto e o desenho, e muito mal arrumar a casa”.
O simples fato de uma mulher viajar desacompanhada pelo interior do Brasil já era uma ousadia extraordinária para a época. Mais ainda em se tratando de uma divulgadora de ideias avançadas e libertárias, que visitava os jornalistas e intelectuais das cidades por onde passava, apresentando seu projeto de estudo e sua revista . Em fevereiro de 1890, Josefina desembarcou em Uberaba – na época a última estação da linha de trem da Cia. Mogiana rumo ao interior. Hospedou-se no tradicional Hotel do Comércio e visitou as redações dos jornais “Gazeta de Uberaba” e “A Marcha”.
Quem nos conta é o escritor e jornalista Antônio Borges Sampaio, na época correspondente em Uberaba do “Jornal do Commercio” carioca – a quem a escritora presenteou com um exemplar do seu livro “Retalhos”, uma coletânea de artigos publicados em “A Família”. O jornalista uberabense discordava de Josefina na afirmação de que “o egoísmo dos homens e a má orientação das sociedades tem mantido (as mulheres) no âmbito acanhando de uma perfeita nihilidade”. Na opinião de Sampaio, “as sociedades modernas têm procurado elevar a mulher e nivelá-la com o homem, principalmente nos povos mais adiantados na civilização e instrução”. Mas reconhecia que “a autora da obra discute com robustez a mulher moderna, com exemplos do passado e fatos do presente”.
Ainda estávamos no século XIX, e o feminismo já batia às portas da “Princesinha do Sertão”.

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