André Borges Lopes - Binóculo ReversoColunas

COMO É DIFÍCIL ERGUER UM EDIFÍCIO

Na história de Uberaba, houve momentos em que algumas coisas deram tão errado que chegou-se a suspeitar que havia alguma praga ou maldição atrapalhando o progresso local. Um dos casos emblemáticos foi o do edifício “A Equitativa”: aquele que deveria ter sido um dos primeiros – e o mais moderno – arranha-céu do interior de Minas Gerais, transformou-se de sonho em pavoroso esqueleto que, por décadas, assombrou o centro da cidade.
Fundada em 1896, a sociedade mútua de seguros gerais “A Equitativa dos Estados Unidos do Brasil” foi uma das maiores companhias seguradoras nacionais na primeira metade do século passado – chegando a contar com mais de dois milhões de clientes em sua carteira. A empresa tinha como sócio o governo federal e vendia seguros de vida individuais, imobiliários e para empresas. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, seus escritórios ocupavam edifícios imponentes nos centros das cidades.
Não se sabe exatamente quando “A Equitativa” começou a atuar em Uberaba, mas no início dos anos 1930 encontramos na imprensa anúncios e notícias sobre representantes na região. Os negócios prosperaram durante os anos da ditadura de Getúlio Vargas, e a empresa tinha o costume de sortear prêmios em dinheiro aos segurados, publicando nos jornais grandes anúncios com o nome dos contemplados. Os representantes regionais Joaquim Cunha Campos e Fernando Sabino Júnior eram figuras de destaque na cidade e participavam ativamente na Associação Comercial .
Por conta disso, foi grande o entusiasmo quando, em junho de 1942, a Equitativa realizou um grande evento para anunciar que pretendia construir um “majestoso edifício” para seus escritórios regionais no centro de Uberaba. O terreno ficava nos fundos da Companhia Telefônica local, bem ao lado de onde estavam sendo canalizados os córregos e pavimentadas as futuras avenidas Leopoldino de Oliveira e Fidelis Reis. O prédio, com mais de 10 andares em concreto armado, iria se juntar ao do Grande Hotel – inaugurado na ano anterior – dando impulso à verticalização e ao progresso da cidade, que vivia um dos apogeus da pecuária do Zebu.
O coquetel de lançamento contou com a presença de René Cassinelli, gerente geral da companhia, que veio do Rio para a ocasião. Uma caixa de aço contendo os jornais do dia e cartões de visita de todos os participantes foi concretada dentro da pedra fundamental do edifício, no meio do terreno. Matérias de página inteira, com fotos dos eventos, estamparam os jornais nos dias seguintes. Muita fumaça para pouco fogo: a construção prometida não começou. A entrada no Brasil na 2ª Guerra e a crise do Zebu em 1944 e o fim do governo Vargas congelaram o projeto.
Nova tentativa foi feita dez anos depois. Em maio de 1952, Getúlio era novamente Presidente, dessa vez pelo voto. Ele o governador Juscelino Kubitscheck vieram à cidade para inaugurar a Exposição e aproveitaram para relançar em grande estilo o prédio, rebatizado como “Edifício Getúlio Vargas”. Dessa vez, havia plantas, desenhos e maquetes do arranha-céu, que apresentava linhas modernas e conceitos sofisticados para a época: lojas no térreo com pé direito duplo, dois andares de escritórios – onde ficaria a sede da seguradora – e três apartamentos residenciais em cada um dos andares superiores. No 11º piso, um amplo salão com uma marquise de formato irregular, rodeada por um terraço jardim, semelhante aos projetos de Artacho Jurado, que faziam sucesso em São Paulo no início dos anos 1950.
De novo, muito barulho e pouca ação. Vargas suicidou-se dois anos depois, sem que as obras do prédio que levava seu nome tivessem começado: somente em 1955 foram concluídas as fundações. Nos dois anos seguintes, os andares foram sendo erguidos e, no final de 1957 a Equitativa instalou-se provisoriamente no andar térreo e colocou à venda os primeiros apartamentos. Por fim, parecia que a obra ia sair.
Uma nova decepção: a seguradora entrou em uma crise financeira e não concluiu as obras. Em 1966, o governo militar encerrou as atividades da empresa, dando início a uma longa liquidação judicial, atrasada por processos trabalhistas. O prédio inacabado passou as décadas seguintes em abandono, servindo de outdoor para anúncios de uma marca de televisores. Só em 1977 as obras foram retomadas. Dois anos depois, os apartamentos foram colocados à venda, no rebatizado “Edifício Everest”. O prédio arrojado dos anos 1950 já estava obsoleto: não tinha garagens para os moradores, o “terraço jardim” fora suprimido e o centro da cidade começava a perder a atração como lugar residencial.

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