André Borges Lopes - Binóculo ReversoColunas

CORRIDA DE TOUROS NA RUA DO COMÉRCIO

Já nos referimos à importância que teve para Uberaba a chegada da ferrovia em 1889. A linha pioneira da Companhia Mogiana deu à região uma opção de ligação com as grandes capitais do País muito mais rápida, segura e confortável do que havia até então. Mas nem tudo eram flores na relação dos uberabenses com o trem de ferro.
A Cia Mogiana era a mais problemática das empresas ferroviárias paulistas do século XIX . Embora sua rede de estradas fosse ampla, atendendo a uma das regiões cafeeiras mais ricas do estado vizinho, a empresa frequentemente dava prejuízos e os novos investimentos eram feitos a passo de tartaruga. Duas décadas depois de inaugurar a estação em Uberaba, a linha já chegava até Araguari, mas a qualidade do serviço estava longe de ser satisfatória.
Em 1909, a Cia Paulista de Estradas de Ferro – na época uma das melhores empresas do país – levou sua linha até a cidade de Barretos, e as comparações foram inevitáveis. Os mineiros queixavam-se que o custo dos fretes da Mogiana era muito mais alto que o da concorrente, e o serviço pior. Muitas locomotivas eram velhas e pouco confiáveis, havia falta de vagões para atender as encomendas, os trens de passageiros atrasavam com muita frequência.
Para piorar, a ligação de Uberaba com o ramal da ferrovia Oeste de Minas em Ibiá, prometida há décadas, não saia do papel. O que, na prática, dava à Mogiana o monopólio do transporte na região. O problema só seria amenizado em 1915, quando a Mogiana abriu a nova linha de Igarapava, e em 1926, quando foi entregue a ligação da Oeste de Minas.
Um dos grupos que mais queixas tinha em relação aos serviços da Mogiana era o dos criadores de gado. Na virada do século, os pecuaristas dependiam do trens para transportar para o Triângulo Mineiro seus preciosos reprodutores Zebu, trazidos de navio diretamente da Índia ou comprados de criadores no norte do estado do Rio de Janeiro, onde há décadas já fazia fama o gado indiano. Também usavam os trens para levar e trazer de volta o gado de alta qualidade que mandavam para exposições agropecuárias no Rio e em Belo Horizonte.
O transporte para essas cidades era uma epopéia: o gado saia de Uberaba pela Mogiana, que ia somente até Campinas. A mudança de bitola na linha obrigava que as reses trocassem de vagão para seguir até a capital de São Paulo, onde eram novamente transferidos para a Central do Brasil, que os levava até o Rio. Se o destino fosse Belo Horizonte, era preciso fazer uma nova baldeação no meio do caminho, em Barra do Pirai. Somando tudo, o transporte levava de quatro a seis dias, nos quais o gado seguia balançando em vagões apertados, acompanhado por vaqueiros que lhes fornecia água e comida no trajeto. Um enorme estresse, mesmo para o rústico e resistente gado Zebu.
Nem sempre as coisas corriam bem. Em 1907, o capitão Joaquim Machado Borges foi visitar as fazendas de Cantagalo e Porto Novo do Cunha, no norte do Rio, com o objetivo de comprar reprodutores puro sangue para sua própria fazenda e para a do coronel José Caetano Borges. Entusiastas do Zebu, um ano antes, os dois tinham sido responsáveis pela promoção da primeira exposição de gado indiano em Uberaba, na Fazenda do Cassu, de Zeca Caetano. Despachado de trem, o gado deveria chegar na tarde de uma quinta-feira, dia 20 de junho.
O trem atrasou e chegou na cidade quando o sol já havia sumido no horizonte. A velha estação da Mogiana ficava no final da Rua do Comércio (atual Artur Machado). Prudente, o capitão Joaquim preferia não correr o risco de fazer o desembarque e atravessar a cidade com seu precioso gado durante a noite. Mas os funcionários da Mogiana foram irredutíveis, e não permitiram que a carga ficasse nos vagões até o amanhecer.
O resultado foi trágico. O zebus, estressados pela longa viagem, pularam dos vagões tão logo as portas foram abertas, sem que os vaqueiros pudessem contê-los. Duas reses morreram na queda e outras duas ficaram feridas. O restante da manada desceu a Rua do Comércio numa disparada rumo à Praça Rui Barbosa, colocando para correr em pânico e desespero os pedestres que estavam nas ruas da cidade. Alguns touros invadiram as casas comerciais que ainda estavam abertas e um deles só a custo foi retirado de dentro de uma barbearia, depois de causar ferimentos em alguns clientes. Ainda que sem querer, Uberaba teve seu dia de “Corrida de Toros”, como as da cidade espanhola de Pamplona.

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