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Em questão

Prof. Décio Bragança

Ando devagar porque já tive pressa / E levo esse sorriso porque já chorei demais – A presença do outro sempre nos incomoda. Existem muitos filósofos da chamada alteridade – “sou para mim e sou para o outro”. A título de informação e exemplificação não podemos nos esquecer de um Jean Paul Sartre (1905 – 1980), de um Renè Descartes (1596 – 1650), de um Emmanuel Levinas (1906 – 1995), de um Martin Buber (1878 – 1965), de um Martin Heidegger (1889 – 1976) e tantos outros. Cada filósofo, a sua maneira, vê o outro como um ser exótico, como um inferno, como um céu, como uma imagem, como eu-mesmo. Independentemente de qualquer teoria filosófica, queiramos ou não, o outro está em mim e estou nos outros. Vivemos uma época de exacerbado individualismo – o que dificulta o diálogo e a descoberta de caminhos para a paz e amor. Esse individualismo – curvado sobre o próprio umbigo – constrói cercas de arame farpado, como se um pequeno terreno fôssemos.

Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe / Só levo a certeza de que muito pouco eu sei / Ou nada sei – Perdemos, sim, o sentido de coletividade. Por isso também pensamos que a culpa é sempre dos outros. Ninguém mais assume seus erros. Estudamos muito pouco, porque a culpa é das escolas e dos professores. Usamos drogas, porque a culpa é a separação de nossos pais ou a briga entre irmãos. Roubamos, porque a culpa é dos governos que nos roubam mais. E assim vamos vivendo irresponsavelmente. O ser humano ainda não tomou consciência de que não precisa de muita coisa para ser feliz. E ninguém é feliz sozinho. Não se trata de simplesmente ajudar os outros. Os pobres, os simples são justamente os que menos ajuda pedem e/ou exigem. Os ricos, os poderosos são os que mais ajuda pedem e/ou exigem. Isso porque, sem acesso à cultura e escolaridade, sem acesso à riqueza e aos bens materiais, os pobres nem imaginam o que lhes é possível e/ou de direito.

Conhecer as manhas e as manhãs, / O sabor das massas e das maçãs – Nesse sentido, não ousa nem contestar o discurso dominante dos governantes e dos patrões, dos pastores e dos padres, dos pais e dos professores, dos juízes e dos legisladores. Quando falo disso sempre me lembro do livro “Capitães de Areia” de Jorge Amado. Os meninos rebeldes iam à igreja e ouviam o sermão do padre. Um dos meninos, Pedro Bala, dizia: “Como este padre fala bem!” Um dos seus colegas lhe perguntou o que tinha dito. E Pedro Bala soltou: “Não sei não, mas que ele fala bem, isso fala”. A isso chamamos de “Voz da Autoridade” ou a aceitação da submissão, da ignorância, da fé ingênua.

É preciso amor pra poder pulsar, / É preciso paz pra poder sorrir, / É preciso a chuva para florir – Quanto mais esclarecidos e conscientes, maior a responsabilidade pelo outro. A atitude proativa – palavra da moda – tem de partir dos mais esclarecidos e conscientes. Isso para dizer que todos estamos convocados a mudar, a transformar o mundo. O objetivo do homem, de todos os homens, é humanizar todas as relações, criando espaço de respeito e liberdade, de responsabilidade e alegria, de paz e amor. Almir Sater e Renato Teixeira, em sua canção “Tocando em frente” nos ensinam o que está nas epígrafes.

Penso que cumprir a vida seja simplesmente / Compreender a marcha e ir tocando em frente – Observe que o nome da canção é Tocando Em Frente. O que significa isso? É viver cheio de esperança e confiança nos homens e no futuro. Nossa missão é transformar o mundo à imagem e semelhança do homem que é a imagem e semelhança de Deus. Isso significa divinizar a humanidade, estabelecer uma relação direta e indissolúvel entre a terra e o céu, entre o humano e divino.

Como um velho boiadeiro levando a boiada / Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou – Nesse sentido, todos e cada um de nós é testemunha e testemunho da esperança, da sabedoria e de transparência – o que significa estar e viver além das aparências e conveniências, além dos interesses e intenções próprios. Tudo nasce de um desejo, de um olhar de dentro para fora até que se crie um compromisso e cumplicidade com o outro, com os muitos outros. Muitas vezes sabemos que nos é impossível resolver problemas, mas nunca podemos deixar de trazer e ser a esperança. Gosto muito do primeiro marqueteiro da doutrina cristã, São Paulo. Ele nos ensinou no capítulo 2 da Primeira Carta aos Coríntios: “Ensinamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Glória”. Essa sabedoria não se traduz em erudição, em academicismo, em inteligência, em racionalismos, em mestrados, em doutorados, em currículos, mas na disponibilidade de servir, de servir sempre – colocar-se a serviço do outro, para o bem de todos.

Estrada eu sou – A utopia existe, porque um projeto de um novo mundo com novos homens e novas mulheres existe. Fé e ação se tornam uma unidade inseparável, indivisível, indizível, invisível, inaudível, intangível, até imperceptível. Fé sem ação é inútil. Ação sem fé é um simples ativismo. Assim, a fé com ação é um comprometimento com as transformações, mudanças, alternativas, escolhas. “Outro mundo é possível” nos ensina o FSM: Fórum Social Mundial. Nesse sentido, política – não é partido político – é a ciência de mediar, administrar conflitos, interesses e intenções em busca da vida em plenitude. Não sei por que a palavra libertação é tão odiada hoje. Mas não há outra palavra melhor para definir ou conceituar o processo de transformação, de mudança interior e exterior, de mudança pessoal e coletiva, de ação individual e social. Os ritos religiosos nada significam – perda de tempo – se não forem motivações para as mudanças de coração e mente, de corpo e alma, de matéria e espírito, de atitudes e comportamentos. O mundo dos negócios pode e deve ser mensurado, medido, controlado para se obter o resultado esperado, para se evitar o fracasso. O mundo e a vida dos homens não têm limites, horizontes, números, estatísticas, medidas, peso, valor monetário. A vida é gratuita, assim como o amor e a solidariedade. “Quem ama fica pobre” nos ensinou o psicanalista Roberto Freire (1927 – 2008), escritor de “Cléo e Daniel”, “Sem entrada e sem mais nada”, “Coiote”, “Utopia e Paixão”, “Sem tesão não há solução”, “Ame e dê vexame”, “Eu é um outro”. Para ele, ficar rico é acumular, multiplicar; ficar pobre é amar, dividir. A gratuidade da vida e do amor não traz nem sucesso, nem fracasso; nem lucro, nem prejuízo. Falta-nos empatia – não é sofrer com a dor do outro, mas sofrer a dor do outro. Sem empatia, não pode haver sinergia – troca de energias para a sobrevivência.

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