ColunasDécio Bragança - Em questão

Em questão

PRIMEIRO DIA – O início de um novo ano. Novas es-peranças, novo entusiasmo, nova vida na política e na sociedade. Homens novos e mu-lheres novas. É hora de união, sem intolerância e polarização de posições políticas e ideológicas. É hora de juntos recusarmos o oportunismo e conchavos, em geral, sem ética e sem princípios e sem valores morais, mas também sem glorificações e aleluias de um ou outro político. É hora de buscar sentidos e significados de nossa participação po-lítica e econômicas e sociais. Elegemos, sim, nossos representantes, mas não elegemos donos do poder, do mundo e das pessoas. Quem exerce o poder é um servidor. Maior o cargo, maior a responsabilidade e qualidade dos serviços que deverão ser prestados. Serviços, aqui, trazem o sentido de intervenção nos destinos dos estados, da nação. Apesar de muitos desencantos e frustrações, é hora de criação de condições concretas no exercício da cidadania e da liberdade, de condições materiais possíveis de manutenção e preservação da vida em sua plenitude, muito além do que se entender por sobrevivência.

PRIMEIRA SEMANA – Cada um se orgulha pelo voto depositado nas urnas, como somente o voto dele elegeu seu representante. “Se não fosse meu voto…” Isso é uma ilu-são – o que não significa que o voto seu não tenha valor. Também não somos iguais, fraternos, livres porque votamos. A neutralidade é também uma posição política. A igualdade, a fraternidade e a liberdade são construções humanas necessárias e responsá-veis, colocando-se acima dos conflitos sociais e problemas econômicos, visando-se ao bem comum e ao interesse de todos e de cada um. Qualquer que seja o político eleito re-presenta o consentimento da população, o sim das pessoas, a aceitação de todos, em clima de austeridade e propósitos. Qualquer medida impopular contraria a própria re-presentação popular. Nesse sentido, político eleito significa ser conciliador e mediador dos interesses de alguns poucos e de muitos – da maioria. Defender a maioria significa estar do lado do mais carente, do mais pobre, do mais excluído, do mais necessitado; significa estar contra os privilegiados, os especuladores, os enganadores, os corruptos, os gananciosos, os exploradores – sacos sempre sem fundo.

PRIMEIRO MÊS – Em sociedade, somos mais do que simples indivíduos que vivem lado a lado, no mesmo país, no mesmo estado, na mesma cidade, no mesmo bairro, ou na mesma rua. Somos um corpo sinérgico, porque nos relacionamos independente, de-pendente, codependente e interdependentemente, apesar das diferenças e heterogeneida-de, diversidade e multiplicidade, na semelhança de relação de um órgão do corpo com outro. Todos querem a participação de todos; cada um estando no lugar certo, fazendo o que é certo para o bem de todos – isso é sinergia. É hora de as diferenças não fazerem diferença nos relacionamentos humanos, sempre com muito respeito e ternura, porque as pessoas se imitam, se reproduzem socialmente. Assim, é necessário saber como se organizam as instituições: família, religião, governo, empresas, escolas e como se orga-niza a produção e a posse de bens materiais. As diferenças, a heterogeneidade, a diversi-dade, a multiplicidade de raças e etnias não podem se empecilhos à boa convivência. Pe-lo contrário, podem ser complementos e suplemento do bem-estar e do bem-ser em soci-edade. A sociedade e, por extensão, a humanidade não pode dividida em classes pela riqueza e poder, pelos bens e luxo, pela propriedade e sucesso, já que somos irmãos, filhos de uma mesma mãe – natureza – e filhos de um mesmo pai – Deus.

PRIMEIRO BIMESTRE – Há um dito popular que reflete bem isso: “O sol nasceu, nasce e nascerá para todos”. O sol nunca brilha mais para uns do que para outros. Por-que únicos e diferentes, haverá sempre conflitos sociais, políticos, econômicos, culturais – o que não impede a solidariedade e cumplicidade. “Outro mundo é possível”. As coi-sas não podem mais ficar do jeito que estão, com tanta intolerância e violência, cabeça, corações, pernas e braços tão duros e inflexíveis. O amor e a paz rompem qualquer pos-sibilidade de dominação e verticalização de poderes e classes e forças. Não há reformas, mudanças, transformações, revoluções sem a possibilidade de libertação das amarras, algemas – status quo – do passado. Vivemos para o futuro. Construímos para o futuro. Sempre no início de ano reformamos nossas esperanças – o que é muito bom. Algumas decepções e frustrações vão acontecer durante o ano, porque muitos de nossos políticos foram eleitos para criarem avanços na organização social, para promoverem o desen-volvimento humano, para facilitarem a vida de todos visando ao bem comum, mas de-pois, de algum tempo, voltam as costas para as pessoas, para seus anseios e desejos, com atitudes reacionárias e conservadoras.

PRIMEIRO TRIMESTRE – O futuro não é a negação do presente que serve de tram-polim, de plataforma, de alicerces para mudanças e reformas. A sensação de que “nada muda” contrasta com o que desejamos neste início de ano. Karl Emil Maximilian Weber (1864 – 1920) – Pai da Sociologia – nos ensinou que em “política é como a perfuração lenta de tábuas duras. Exige tanto paixão quanto perspectiva. Certamente toda a experi-ência histórica confirma a verdade: que o homem não teria alcançado o possível se repe-tidas vezes não tivesse tentado o impossível”. Uma visão messiânica – Salvador da Pá-tria – também não resolve o nosso problema, nem problema algum, porque significa em última análise a desmobilização política, tirando a responsabilidade de todos e de cada um. O fisiologismo do Salvador da Pátria visa mais ao interesse pessoal e tenta constru-ir e fazer uma carreira política. Ser político não é ter uma profissão. Daí a importância de um programa partidário, além de quem quer que seja. Em política, os bons e maus, os grandes e pequenos, os virtuosos e os criminosos, os probos e desonestos, os demo-cratas e os ditadores, viciados, trabalhadores e aproveitadores políticos se encontram todos os dias nos corredores do Palácio, das assembleias, do senado, das prefeituras, porque não tem jeito de separá-los. Isso acontece na sociedade, em todas as organiza-ções, instituições, empresas.

PRIMEIRO QUADRIMESTRE – A esperança que não pode nem deve morrer é que os bons resistam às todas as tentações do próprio poder. A realidade humana é altamente complexa, porque muitas vezes o que parece ser não é. As aparências enganam. Perder a esperança jamais. Desesperar jamais. Resistir sempre. Os arranjos, as acomodações, as adequações e adaptações fazem parte de um jogo político profundamente difícil e com-plexo. Há sim uma crise política, uma crise de Estado também, porque, admitamos ou não, liberalismo e capitalismo são quase que incompatíveis. Com o capital transnacional e economia globalizada, o Estado torna-se também transnacional que não admite contro-le. Daí a expressão Estado mínimo, ou o Estado só atrapalha, ou o que é público não presta, ou só funciona a iniciativa privada. Há de se defender a democracia com unhas e dentes, com coração e mente, com inteligência e transparência, porque praticamente vi-vemos a ditadura do capital – criador do individualismo exacerbado, ganância incontro-lável, luxo ostensivo, sucesso consumista, falcatruas mil, juros exorbitantes, dívida im-pagável, pobreza maximizada. A famosa “mão invisível” sempre formou grandes forças do mercado.

PRIMEIRO SEMESTRE – Hoje, tudo, infelizmente, virou mercadoria: saúde, educa-ção, segurança, alegria, prazer, água, ar… O Estado não existe para garantir a mercado-cracia – o poder do mercado. O Estado não é definitivamente uma grande empresa, não está a serviço do mercado, nem segue as regras do mercado. A sociedade civil organiza-da não entende a ausência do Estado nos assuntos econômicos. A economia tem de estar a serviço da Política e não a Política a serviço da Economia. Política é fim; economia é meio. Os interesses e intenções da Economia não são os mesmos interesses e intenções da Política. Que tenhamos um bom e próspero e gostoso ano!

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