ColunasDécio Bragança - Em questão

Em questão

Hoje, faço questão de transcrever nas epígrafes a letra do Hino da Campanha da
Fraternidade de 2019, música de Cireneu Kuhn e letra de João Edebrando Roath Machado.

“Eis que o Senhor fez conhecer a salvação / E revelou sua justiça às nações” / Que, nes-te tempo quaresmal, nossa oração / Transforme a vida, nossos atos e ações – Quando se fala em partilha do pão e desejos, compartilhamento de ideias e ideais, infelizmente, as pessoas “acham” que isso é ser de esquerda, socialista e até comunista. Todo mundo fala em liberdade de expressão – direito constitucional – mas não aceita ideias diferentes da-quelas que acredita e propaga. Aliás, não aceita nada que vem do outro. Há casos de famílias que os seus membros – pais e filhos – não se conversam, porque o rapaz, por exemplo, é gay, casado com outro homem, causando muitos sofrimentos e dores sem necessidade. Já ouvi um pai dizer ao filho, nessa situação: “Não quero você em minha casa! Suma da minha vida”. Infelizmente, muitos ainda são perseguidos, presos, mortos por causa de suas ideais, seu estilo e opção de vida. As pessoas têm muito medo dessa exclusão e preferem se encaracolar em si mesmo, se fechar em si mesmo, na solidão e no sofrimento. Ser gay não é crime. Ser negro não é crime. Ser pobre não é crime. Muitos de nós já ouvimos frases que nunca deveriam ser ditas nem pensadas: “Prefiro meu filho estuprador a vê-lo casado com outro homem” – “Prefiro ver minha filha prostituta a vê-la casada com outra mulher”. Quantos absurdos! Ninguém é dono de pessoas e coisas, nem da verdade e do mundo. Quando se fala em libertação, está-se falando exatamente de inclusão, de solidariedade, de companheirismo, de partilha, de compartilhamento, de harmonia. Todos nós precisamos de nos libertar desses preconceitos e ideias, para que a vida tenha sentido e encanto. Estamos perdendo o encantamento exatamente porque somos cabeças duras, com corações de pedra, braços e testas cerrados. Perder a espe-rança jamais.

Foi no deserto que Jesus nos ensinou / A superar toda ganância e tentação / Arrepen-dei-vos, eis que o tempo já chegou / Tempo de Paz, Justiça e reconciliação – São tantas catástrofes e acidentes estranhos – mensagens de libertação – mas não aprendemos ne-nhuma lição. Não aprendemos, por exemplo, a lição do filho pródigo. Que pena! Infe-lizmente, chegará um tempo em que deveremos aprender em catacumbas, escondidos de todos e de tudo. Isso em plena era digital. A miséria humana tem dados passos muito largos, já que aprendemos a ser intolerantes. A intolerância já fez e faz muitas guerras, perseguições e mortes. “Outro mundo é possível” – nos ensinou o FSM. Fala-se em tan-tas reformas, mas o povo, principalmente as pessoas mais simples não têm conhecimen-to de leis trabalhistas, sindicais, da previdência, da administração pública, de seus direi-tos. Por isso, a participação popular é mínima, já que, não por acaso, injetou-se na veia e na mente das pessoas o medo do desemprego, o medo de que se as reformas não forem feitas tudo irá por água abaixo, o medo de perder filhos, a saúde, a casa. Vivemos na era do medo produzido e institucionalizado e inoculado. O medo nos deixa exposto, sem segurança absolutamente nenhuma. Um amigo meu, um dia, brincou: “Estamos com tan-to medo que temos medo de ter medo”. “Outro mundo é possível”.

Em Jesus Cristo uma nova aliança / Quis o Senhor com o seu povo instaurar / Um no-vo reino de justiça e esperança / Fraternidade, onde todos têm lugar – O processo de tomada de consciência de nossa “escravidão” é difícil, demorado, árduo e trabalhoso. O caminho será sempre o da empatia – sofrer o sofrimento do outro – viver a vida do ou-tro. Somos pouco desprendidos, porque gostamos de coisas e pessoas que nos prendem. Perdemos assim a espontaneidade e naturalidade. A cidade deveria ser um espaço onde todos se sentissem irmãos, com direitos iguais. Nesse sentido, ninguém nasceu para ser escravo das leis, dos juízes, dos legisladores; para ser escravo dos pais, dos irmãos, dos parentes; para ser escravo dos livros, das escolas, dos professores, do diploma; para ser escravo do marido, dos filhos; para ser escravo do emprego, do patrão; para ser escravo dos dogmas, dos pastores, dos sacerdotes. Por isso, haverá sempre alguma coisa para ser libertada. O primeiro passo é a conscientização de que se é escravo. Nesse sentido, libertação é busca permanente da felicidade partilhada e compartilhada. Não é fugindo dos outros que a gente vai ser feliz. A violência – tráfico de drogas, assaltos, roubos, se-questros – está ultrapassando todos os limites da racionalidade. Há uma sensação gene-ralizada de que não existe mais a justiça e juízes, leis e legisladores, agentes e defensores das leis. Mais do que, talvez, reformas, precisamos de transformar nossos corações e mentes para transformar a sociedade. É possível uma unidade de metas, propósitos, ob-jetivos, missão, intenção na diversidade de raças e etnias, religiões e credos, orientação sexual e classe social – semente da liberdade e felicidade.

Ser um profeta na atual sociedade / Da ação política, com fé, participar / É o dom de Deus que faz, do amor, fraternidade / E bem comum faz bem de todos se tornar! – A verdade é que é possível, caso queiramos, uma transformação, uma mudança até radical da sociedade, do jeito de ser, de conviver, de sobreviver, de viver em comunidade – consciência e alimento que sustenta o amor incondicional, desinteresseiro, transcenden-tal, fraterno. Basta que as pessoas sejam parceiras de lutas e companheiras – partilha do pão. Isso não significa que devamos abrir mão de nossa identidade, da eudade – o modo de ser de cada um. A sociedade necessita exatamente de pessoas diferentes com habili-dades diversas, com desejos os mais inéditos, mas com vontade determinada de mudan-ças necessárias. Há muitas coisas que ainda estão para ser feitas. O fato é que precisa-mos a cada momento ser mais gente, mais livres e mais felizes, mais participantes e compromissados com todos, com empatia e sinergia, como fermento. Sozinhos, na soli-dão, não vamos a lugar algum. Unidos, em solidariedade, somos fortes. É hora, é urgen-te que os nossos políticos assumam compromissos reais com as pessoas. Não importa se a economia vá bem, se as pessoas não vivam bem. Primeiro a paz, depois a ordem. Primeiro a política, depois a economia. Primeiro o trabalho, depois a previdência. Pri-meiro a educação, depois os presídios. Primeiro a justiça, depois as leis. Muitas inver-temos nossos propósitos para servir aos interesses alheios, até adversos dos nossos.

Pelo direito e a Justiça libertados / Povos, nações de tantas raças e culturas / Por tua graça, ó Senhor, ressuscitados / Somos em Cristo, hoje novas criaturas / Somos em Cris-to, hoje novas criaturas – Viver em comunidade, em sociedade é um ensaio de acertos e erros, com respeito aos direitos e deveres. Nosso planeta – lugar de trabalho e vida – é lugar de irmãos, como nos ensinou Francisco de Assis. Infelizmente, alguns poucos, é bem verdade, se sentem donos do mundo e das coisas, das pessoas e dos desejos das pessoas. Esses “donos” insensíveis não percebem as dores e os sofrimentos dos outros, já que a ganância e o poder lhes obscurecem a mente e a consciência. Há muitos mártires anônimos que só fazem parte de estatísticas. Não precisamos de donos, precisamos de líderes que à frente nos abrem horizontes e trilhas e atalhos para uma vida melhor para todos e para cada um.

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