ColunasDécio Bragança - Em questão

Em questão

PRIMEIRA PALAVRA: “Pai, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem.” (Lucas 23:34). – Vivemos momentos de muitos deuses: fama, sucesso, poder, mercado, riquezas, prazer, posses e estamos nos esquecendo da característica transcendental de todo ser humano. Negar a transcendência é que nos faz criar novos ídolos e novos deuses. A vida em comunidade – convivência e comunhão entre as pessoas – deixou de ser importante para vivermos isolada e individualmente, egoística e ensimesmadamente: em primeiro lugar eu, em segundo lugar eu, em terceiro lugar eu. O fato é que não temos mais coragem e força e energia de romper as redomas que nos isolam, mas nos protegem. Recusar a transcendência humana é viver na barbárie que fatalmente nos leva ao ódio e à morte.

SEGUNDA PALAVRA: “Em verdade eu te digo hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lucas 23:43) – O egoísmo tão radical, o consumo exagerado, o desprezo à vida em todas as suas dimensões nos transformam em seres doentes, muito doentes de corpo e de alma. As mágoas, as rusgas, a intolerância, o isolamento, o individualismo são marcas registradas da vida moderna. Mas isso também não é motivo de desespero. Perder a esperança jamais! Diziam os antigos – nossos pais e avós – que toda Ressurreição passa pela Sexta-feira, que depois da tempestade vem a bonança, depois da guerra chegamos à paz. Têm-se muitos projetos políticos e econômicos, mas todos eles para os políticos se manterem no poder sempre. Insisto em dizer que quando se fala em economizar ou deixar de gastar um trilhão de reais com as reformas propostas é porque não se está pensando nas pessoas desempregadas, sofridas, famintas, desesperadas, pobres e miseráveis.

TERCEIRA PALAVRA: Mulher, Eis aí o seu filho! Discípulo, Eis aí tua mãe” (João 19:26-27). – Economia e direitos essenciais não combinam. Seria a mesma coisa os pais dizerem aos filhos que é preciso deixar de alimentar, de estudar, de dormir, de tratar da saúde para economizar. Claro, essa família viverá em clima constante de guerra. Para que esse tipo de economia? Primeiro a paz, depois a ordem; primeiro a educação, depois o automóvel; primeiro a saúde, depois o luxo; primeiro os alimentos, depois a exportação; primeiro a segurança, depois as armas; primeiro as políticas públicas, depois a economia. É urgente entendermos a relação entre a pessoa e sociedade, entre governo e povo, para que não seja destruída a dignidade e o valor subjetivo da pessoa humana. Não somos simplesmente um meio ou instrumento de produção. A economia não pode ser, não pode determinar as metas, os objetivos das relações humanas na sociedade. Em assim sendo, adeus liberdade e participação. Não quero entrar no mistério da Santíssima Trindade, apenas fazer uma comparação: há um só Deus em Três Pessoas.

QUARTA PALAVRA: Elí, Elí, lama sabactani? – Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mateus 27:46 e Marcos 15:34) – Será que não podemos ser várias pessoas numa única humanidade, numa mesma sociedade? É possível a unidade na multiplicidade, ou a multiplicidade na unidade? As ideias de hegemonia de raças, de sexo, de religião, de classe, de regime político e econômico, só nos trazem segregações, discriminações, agressões, brutalidade, violência, preconceitos, desdém, humilhação, domínio. Muitos ainda – um bilhão de pessoas no mundo vivem abaixo da linha de pobreza – segundo dados da ONU, estão condenados a morrer de fome, de sede, de doenças tratáveis, sem acesso aos chamados bens da civilização. A expressão “abaixo da linha de pobreza”, criada pela própria ONU, significa viver com menos de um dólar por dia, ou cento e vinte reais por mês. Isso não é decididamente um projeto humano.

QUINTA PALAVRA: “Tenho sede”. (João 19:28) – Sem perder a esperança, nem no sentido apocalíptico, grande parte da humanidade está condenada à morte. O Brasil, a América Latina, a África, estão passando momentos de muito desespero. Alguns de nós não sentimos isso, também porque temos algumas regalias e privilégios: alimentos, saúde, moradia, hospital, emprego, remédios, escolas – direitos inalienáveis. Governo existe para isso, para todos viverem com dignidade, responsabilidade, liberdade, sem ameaças e ódio. É urgente determinar-se o grau de responsabilidade de cada um diante do bem comum, do bem social, da convivência entre os diferentes, para a construção de uma sociedade, de uma humanidade mais igualitária, livre e fraterna. “Outro mundo é possível” – como nos ensina o FSM – Fórum Social Mundial – ou como nos ensinou o nosso professor Milton Santos (1926 – 2001) “Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal”.

SEXTA PALAVRA: “Tudo está consumado” (João 19:30) – Já cometemos muitos erros e crimes e pecados em nome do mal ou da continuidade do mal na sociedade. Muitas vezes nos omitimos alegando que nada temos a ver com isso, com o que está acontecendo. A omissão também é um crime, já que nós permitimos o avanço do mal. Na chamada Semana Santa, choramos a morte de Jesus, mas nos alegramos, rimos e gargalhamos diante da desgraça das pessoas, das muitas pessoas espalhadas por aqui e ali. A impressão que se tem é que a desgraça dos outros nos faz felizes. Insisto, sempre que posso, em lembrar o grande Erich Fromm (1900 – 1980): “Se desejássemos a nossa própria felicidade com a mesma força, garra, gana e energia com que desejamos a desgraças dos outros, já teríamos sido felizes”. Erich Fromm é psicanalista, filósofo e escritor de muitas obras importantes. A título de exemplificação, para você ler algumas de suas obras, citarei as que já li e recomendo: “O medo à liberdade” – “Ser ou ter” – “A arte de amar” – “Análise do homem” – “A revolução da esperança” – “Conceito marxista do homem” – “Dogma de Cristo” – “O coração do homem”.

SÉTIMA PALAVRA: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. (Lucas 23:46) – Um dia qualquer, vou escrever sobre Erich Fromm – um de meus escritores preferidos. O fato é que perdemos o paraíso – o Éden de Adão e Eva. Não voltamos a ele porque também não o queremos. Perdemos a unidade, a solidariedade, a amizade, a integração e o amor por todos os outros seres vivos e não vivos. Perdemos o equilíbrio possível entre o que é meu e o que é nosso, de todos. Perdemos o sentido da globalidade de nossos relacionamentos com nós mesmos, com os outros homens, com todos os seres, com Deus. Perdemos a noção do que seja servir e para servir precisamos da empatia – sofrer a dor do outro. Daí a importância da libertação – sair daqui e ir para ali. Sair de si e buscar o outro. Daí a importância de conversão – deixar de ser isso para ser aquilo. Deixar-se no outro – único critério de salvação – realização humana aqui e agora.

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