ColunasDécio Bragança - Em questão

Em questão

NÃO, ELE NÃO ESTÁ AQUI – Muitos acreditam e lutam terrível e desesperadamente para encontrar um sentido, um significado para a vida. A roseira não se pergunta nem se angustia se deve ou não deve fazer desabrochar uma rosa. Um cachorro não se per-gunta nem se angustia se deve ou não latir. O homem insiste em se perguntar e se angus-tiar na busca de um sentido de viver. Uma vez um amigo me contou uma história. Ima-gine você numa rodovia, em seu carro, na sua mão, tranquilo, seguindo todas as leis de trânsito e vem uma jamanta enorme na contramão. O que tem de fazer? Adianta você morrer com a justificativa de que estava certo, com toda razão, andando na sua mão, enquanto a jamanta vinha na contramão? Importa morrer com razão? Interessa-lhes o cumprimento de normas e leis? Depois de muitas perguntas que esse amigo me fez, che-gamos à conclusão de que não valeria a pena morrer.

MORREU, MAS RESSUSCITOU – O melhor é ir para a contramão, desobedecer às leis, ou jogar o carro para o barranco, para o acostamento, para o abismo, porque não vale a pena morrer, mesmo buscando um sentido ou significado para a vida. Mais do que sentido ou explicações filosóficas e religiosas, a vida é encanto, encantamento, pai-xão, tesão, alegria. Goethe (1749 – 1832), em seu maravilhoso “Fausto”, nos ensina que “ser, para mim, é admirar-me de estar sendo” – ou ainda fazendo um plágio: “Viver, pa-ra mim, é admirar-me de estar vivendo”. Não precisamos de mais nada. Isso nos dá o sentido e o significado da vida. Basta viver com intensidade e alegria. O ambiente e as circunstâncias em que vivemos, muitas vezes, claro, nos influenciam ao ponto de nos sentirmos inúteis, sem razão e sem sentido, pessimistas e desesperançosos, dada a cor-rupção generalizada das instituições, a injustiça institucionalizada, o egoísmo e o indivi-dualismo exacerbados, desagregação das famílias e dos costumes, a exploração dos po-bres e dos trabalhadores, a sensação de que o crime compensa, a deificação das pessoas, a falta de perspectivas, as desigualdades gritantes, a crise de valores, o desprezo e o des-respeito com as pessoas, a transformação de tudo em mercadoria. Assim, as pessoas vão se desanimando, se entregando e se estragando.

ELE ESTÁ VIVO – Para os gregos antigos, bastava a verdade, o bem e a beleza para a felicidade e realização plena da vida, individual e coletiva. Para nós, os chamados pós-modernos, é oferecido o consumo como felicidade, o luxo e os bens como liberdade, a fama e o sucesso como plenitude humana. Vamos nos iludindo nesse vazio frágil e in-consistente. Por que temos de acumular tantas coisas inúteis e desnecessárias à própria vida? A verdade é que o necessário – o que é bom, verdadeiro e belo – não mais nos sa-tisfaz. Muitos têm um guarda-roupas abarrotado e não sabem o que vestir. Muitos têm uma coleção de sapatos imensa e pensa que deve comprar outros tantos porque nenhum produto combina com sua roupa, com sua bolsa, com seu colar, com seu brinco. Não aprendemos nem gostamos de enfrentar e resolver os problemas da vida e da nossa vi-da. Preferimos, muitas vezes, viver no vazio, na fragilidade, na inconsistência, na ilusão, na frustração, na desilusão, na fantasia, no mascaramento, no faz de conta, na alienação, no engano, no me engana que eu gosto.

VITÓRIA DA VIDA – Tudo isso se refere à riqueza e ao poder, ao status e ao luxo, à fama e ao sucesso – tudo um saco sem fundo. Para tanto, para a manutenção disso tudo, trabalhamos muito mais do que devíamos e ganhamos cada vez menos. Tantas tentações da modernidade! E como é difícil resistir a essas tentações. O fato é que deixamos de ser seres dependentes, independentes, codependentes, interdependentes ao mesmo tempo. Trocando em miúdos: deixamos de ser um ser relativo, de relações, para nos tornarmos absolutos, como deuses. Deixamos de manter relações amorosas e saudáveis com nós mesmos, com os outros homens, com todos os seres vivos e não vivos e com Deus. Acreditamos, infelizmente, nessa autossuficiência, nesse “eu me basto a mim mesmo”. Como não nos desejamos a felicidade, as doenças de todas as ordens se instalam no co-ração, na mente, no corpo de todos. Felizmente, a vida é um conjunto de momentos transitórios, passageiros, fugazes, instantes. Hoje é assim, mas amanhã poderá não ser. Isso significa que outro mundo é possível, outra humanidade é possível. O momento presente é o espaço e tempo de encontros.

ELE REINA PODEROSO – Para muitos, o aqui e agora não existem. Vivem recla-mando de tudo, com os pés, a cabeça, as mãos, o coração no futuro e por isso conso-mem, consomem, consomem até se consumirem por completo. A sensação de imortali-dade e de eternidade – transcendência – só acontece no aqui e no agora, na história e na geografia, encarnada no tempo e no espaço, porque assim é a vida em plenitude. Deus é aqui. Deus é agora. Caso contrário, não seria Deus. Para Deus, porque eterno, só existe aqui e agora. Para Deus, o espaço e tempo são indivisíveis, para ser eterno. Onde encon-trar Deus? No instante. No aqui. Assim é a dimensão divina que deveria ser também a dimensão humana. O tempo agora é presente e um presente. O espaço aqui é presente e um presente. Tudo nos é gratuito. Como não pensamos nem vivemos assim, estamos cheios de ambição, ganância, inveja, tensão, nervos à flor da pele, angústia, desejos não realizados, sonhos impossíveis, ilusões passageiras. O passado já passou, o futuro não existe. Depois de hoje, vem outro hoje; depois do aqui vem um outro aqui. Assim se rea-liza a vida e a felicidade de viver – o que não significa hedonismo. Desfrutar-se do fruto (bela redubdância!), do resultado do próprio trabalho e esforço não é hedonismo. A rea-lização humana é a alegria e a satisfação do próprio trabalho, de se estar vivo. Trabalha-se para viver; vive-se para trabalhar. Talvez, esse seja o sentido, o significado, a alegria, o prazer do próprio trabalho. Talvez, também seja a razão por que o trabalho não nos dá encanto e encantamento, prazer e alegria.

ELE GOVERNA – A saudade do passado, do que já foi, a preocupação com o futuro, com o que poderá ser, nos oprime, nos sufoca, nos estrangula, nos mata. Por isso nos amamos pouco ou não nos amamos como poderia. Sou para mim e sou para os outros: a minha felicidade só será completa com a sua felicidade. Muitos podem até pensar que sou um utópico, mas quero, sim, viver numa sociedade mais justa e mais igual, não por-que seja bom, mas porque não dá para ser feliz com tanta desgraça dos outros. É urgen-te uma conversão. Uma transformação. Uma revolução. Uma libertação. Outro mundo é possível! Outra humanidade é possível!

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