ColunasDécio Bragança - Em questão

EM QUESTÃO

ONDE HOUVER DÚVIDAS, QUE EU LEVE A FÉ – Os conceitos, no tempo e no espaço, vão se alterando dependendo das circunstâncias. Entende-se, hoje e aqui, o ser humano como um ser relacional – conceito muito além da racionalidade e/ou lógica. O homem mantém, ao mesmo tempo, relações consigo mesmo, relações com os outros homens, relações com todos os seres vivos e não vivos, relações com Deus. Por isso também um ser dependente, independente, codependente e interdependente, ao mesmo tempo, sem perder sua unidade, individualidade, personalidade, pessoalidade na multiplicidade de seres. Entende-se relações como um processo permanente de profunda comunicação e cumplicidade e comunhão. Esses novos conceitos esbarram com a nossa insistência e persistência de manter a hierarquização, a verticalização das relações. Esses novos conceitos derrubam por terra as ideias de poder, domínio, obediência, submissão, escravidão, servidão, divisão, exclusão, discriminação, exploração.

ONDE HOUVER DESESPERO, QUE EU LEVE A ESPERANÇA – Somos cúmplices uns dos outros, porque temos, queiramos ou não, compromissos com os muitos outros, responsabilidades com a comunhão entre os muitos outros. Não é possível entender relações descomprometidas, irresponsáveis. Daí a ideia de prestação de serviços. Somos todos servidores uns dos outros, do presidente da República ao mais simples humano. Ninguém é autossuficiente, como também ninguém é absoluto, fechado em si mesmo, encaracolado nas próprias convicções e desejos. Por isso também ninguém é dono da verdade, dono de coisas e de pessoas. Isso não significa que cada um de nós não tenha valor, ideias, ideais, sonhos, desejos, anseios. A sociedade será sempre plural, heterogênea, contraditória, ambígua, porque nunca será unívoca, uniforme, uníssona, unilateral. A questão é se nossos problemas são comuns, nossos sonhos e as soluções de problemas também são comuns. Daí novamente a importância da comunicação e do diálogo, de acordos e de corações, cabeça, braços abertos para a acolhida dos muitos outros.

ONDE HOUVER OFENSA, QUE EU LEVE O PERDÃO – Há muitos interesses e intenções em jogo, porque nem sempre estamos dispostos a abrir mão deles. Há muitas coisas engavetadas, fechadas, trancadas a sete chaves em nós mesmos, porque ainda desconfiamos dos muitos outros, não os amamos suficientemente. Alguns entendem ser o outro uma ameaça, um limite, o inferno, como é o caso do filósofo Sartre. Com esse fechamento, nasce o individualismo que cada vez mais se exaspera e escolhemos não mais dialogar, comunicar-se, entregar-se, servir, amar. O interessante é que queremos que todos estejam a nosso dispor, prestando-nos serviços, mas não queremos estar a serviço, prestando serviços aos muitos outros. Acreditamos que o mundo, as pessoas e as coisas existem para mim, por mim. Quanta arrogância e prepotência! Temos muito poucas experiências amorosas e gratuitas num mundo em que tudo virou mercadoria. Daí a intolerância, a agressividade, a violência.  Outro mundo é possível, quando se pensa em empatia, em misericórdia, em solidariedade, em companheirismo, em compaixão – virtudes transformadoras e libertadoras.

ONDE HOUVER ÓDIO, QUE EU LEVE O AMOR – As pessoas se armam não porque as armas sejam importantes, mas porque não nos vemos como parte responsável da vida. Infelizmente, armas não defendem a dignidade da pessoa; pelo contrário, acirram os ânimos e aí temos de nos armar mais. Sabe-se que uma empresa, hoje, investe muito dinheiro, muito dinheiro mesmo, em segurança para a proteção do patrimônio e não das pessoas. Ironicamente, vemos em muitos lugares placas com os seguintes dizeres: “Para sua segurança, você está sendo fotografado e filmado!” Isso não significa que a defesa do patrimônio não seja importante, mas a defesa da justiça e da vida, em todas as suas dimensões e relações, é essencial e muito mais importante. Não queremos dar passos significativos para a reconciliação dos homens em busca de um outro mundo com novos homens e novas mulheres.

ONDE HOUVER GUERRA, QUE EU LEVE A PAZ – Lembro-me sempre de Francisco de Assis (1182-1226) que nos ensinou que devemos dar o primeiro passo: ser instrumento da paz: que eu leve o amor, onde houver ódio; que eu leve o perdão, onde houver ofensa; que eu leve a união, onde houver discórdia; que leve a fé, onde houver dúvida; que eu leve a verdade, onde houver erro; que eu leve a esperança, onde houver desespero; que eu leve a alegria, onde houver tristeza; que eu leve a luz, onde houver trevas. A verdade é que para haver o desencadeamento e a plenitude do amor, do perdão, da união, da fé, da verdade, da esperança, da alegria, da luz, cada um de nós tem de dar o primeiro passo, traduzido nos muitos EUS. A verdade é que a paz é fruto da justiça, como nos ensinou o profeta Isaías: “E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Isaías 32:17) Os acontecimentos da história da humanidade são frutos da responsabilidade e compromisso de cada homem e de todos os homens. No fundo, se cada um fizesse o que acreditasse, já estaríamos num outro patamar. Fazemos muito mais coisas em que não acreditamos.

ONDE HOUVER IGNORÂNCIA, QUE EU LEVE A SABEDORIA – Exemplificando: casamos sem acreditar no amor; confiamos desconfiando; cumprimos algumas leis sem acreditar na justiça; trabalhamos sem acreditar nos frutos do trabalho; amamos a Deus sem acreditar nos outros; falamos sem acreditar no que dizemos; votamos sem acreditar na política e nos candidatos; dizemos amar os outros e os discriminamos, os excluímos; pensamos sem fazer o que pensamos. Os nossos critérios de fé não são os mesmos de nossa prática. Sarcasticamente, falamos: “A teoria é uma; a prática é outra” ou “Faça o que digo, mas não faça o que faço” Perfeito ninguém é, mas em comunidade é possível minimizar os erros e maximizar os acertos, os acordos, as alianças, as relações amorosas, em nome de uma estabilidade e tranquilidade, preservação e conservação de valores sociais e humanos.

ONDE HOUVER INJUSTIÇAS, QUE EU LEVE A JUSTIÇA – Estamos constantemente sendo tentados a consumir, a ter bens e riquezas, absolutizando a ganância, a ambição, o poder e o orgulho. Resistir é preciso. Não por acaso nós nos dizemos uns aos outros: “o mundo é dos espertos” – “ao vencedor, as batatas” – “vamos tirar vantagem em tudo – lei de Gerson” Vivemos momentos de inquietação – o que é bom, porque crise pode ser um momento de afirmação de princípios, de semeadura, de plantio. Não se constrói um edifício sobre areia. Talvez, essa seja a razão das instituições: família, escola, religiões, leis, governos, empresas. Inquietação, crises são momentos de graça e decisão de futuro, do destino da humanidade. Nesse sentido, o futuro depende de nós. Não decidir é estancar o processo evolutivo – desvendamento do que seja essencial à vida.        

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