André Borges Lopes - Binóculo ReversoColunas

ERAM OS UBERLANDENSES ASTRONAUTAS?

Uma das mais antigas frustrações dos brasileiros vem da falta de exuberância visual das descobertas arqueológicas nacionais. Nos países da América espanhola, sobram pirâmides, cidades e palácios de pedra, com histórias de salas cheias de ouro e prata. Aqui nos restaram pinturas rupestres, sambaquis de conchas e cacos de cerâmica de tribos extintas. Por vezes, mais antigas e tão importantes quanto palácios, mas nada que renda filmes de mistério e aventura ao estilo Indiana Jones.
Por isso, desde os tempos coloniais, sempre foram populares no Brasil as lendas arqueológicas. Histórias fantásticas de cidades perdidas nas serras do Planalto Central, montanhas cobertas de cristais brilhantes, o fantástico Eldorado na imensidão da selva amazônica. Um desses mitos ficou famoso: em 1839, o naturalista Manuel Lagos encontrou na Livraria Pública da Corte (atual Biblioteca Nacional) um manuscrito antigo e carcomido intitulado “Relação histórica de uma occulta, e grande povoação antiquissima sem moradores”.
Tratava-se do relato de uma expedição de bandeirantes que, após vagar por anos pelos sertões da Bahia, chegara às ruínas de uma cidade abandonada, cheia de praças, palacetes e estátuas. Publicado na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o texto ganhou fumos de seriedade. Nas décadas seguintes, expedições buscaram sem sucesso essa “Cidade Perdida da Bahia”, vagamente localizada entre a Chapada Diamantina e as Serras do Sincorá.
Anos antes dos fósseis de dinossauro começarem a revelar nossos reais tesouros paleontológicos, o Triângulo Mineiro teve um breve momento de glória no terreno das fábulas de civilizações perdidas. Graças ao jornal “O Estado de São Paulo” que, na edição do dia 09 de dezembro de 1916, publicou uma carta enviada à redação por um uberabense de nome Marçal Ferri. Na carta, Ferri contava ter recebido do Dr. José Camin, engenheiro e vereador na vizinha Uberabinha (atual Uberlândia), o relato de uma descoberta fantástica.
O “raizeiro” José Gomes da Fonseca, apelidado “Zé Creca”, buscava raízes nas terras de uma fazenda a seis léguas do centro da cidade, quando topou com uma gruta escondida, cuja entrada estava obstruída por espinheiros e infestada de marimbondos. Com ajuda de seu irmão, espantou os insetos, abriram a entrada e, munidos de tochas, adentraram num túnel com cem braças (180 metros) de extensão. No final, encontraram uma habitação abandonada com 14 cômodos. Havia mobília variada, feita em aroeira e “pintada com gosto”, além de “pratos de barro claro trazendo pinturas esquisitas”. Pelo estilo, os objetos “demonstravam ser do período pré-histórico, talvez até do período anti-diluviano”(sic).
O relato não parava ai: das paredes “pendiam, imitadas em massa duríssima, cabeças humanas e felinas ricamente enfeitadas com ornamentações em ouro”. Por fim, a cereja do bolo: descobriram 17 “cadáveres mumificados muito bem conservados (…) que, pelo que se pode concluir da sua extraordinária estatura, pertencem a um tipo de índios até hoje desconhecido”. Dr. Camin concluía dizendo que, na sua opinião, “o presente achado constitui para nossos historiadores e arqueólogos um fato de grande importância” a merecer uma investigação por cientistas competentes.
A carta saiu sem qualquer destaque ou comentário no matutino paulista, mas não passou batida pelos demais órgãos da imprensa. Nos dias seguintes, jornais do Rio de Janeiro e de várias cidades do País deram espaço, por vezes até na capa, para a assombrosa descoberta do raizeiro Zé Creca, citando como fonte o respeitável Estadão. Logo, o jornal foi inundado por mensagens em busca de informações. A notícia se espalhou pelo Triângulo e muitos curiosos foram atrás do Dr. Camin, querendo conhecer a tal gruta.
Pressionado, o Estadão mandou um correspondente à região apurar melhor a história. No dia 15 de dezembro, teve de publicar um desmentido. Nas fazendas do entorno, ninguém ouvira falar da gruta. O raizeiro Zé Gomes (que não era Fonseca e nem tinha o apelido Zé Creca) de fato existia, mas não fazia idéia do que se tratava. O Dr. José Camin negou a autoria do relato e garantiu que jamais havia escrito a carta para o tal Marçal Ferri de Uberaba, do qual ninguém dava notícia. Em resumo, algum gaiato havia “trollado” o Estadão em grande estilo – e o estrago já estava feito.

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